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Padrão "Ábaça" (O Austero) surata 80 com tafsír

Surata 80 do Sagrado Alcorão, tafsír de Sayid Qutb

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.
Tornou-se austero e voltou as costas,
Quando o cego foi ter com ele.
E quem te assegura que não poderia vir a ser agraciado,
Ou receba (admoestação e, a lição lhe será proveitosa?
Quanto ao opulento,
Tu o atendes,
Não tens culpa se ele não crescer (em conhecimentos espirituais). Porém, quem acorre a ti,
E é temente,
Tu o negligencias!
Qual! Em verdade, (o Alcorão) é uma mensagem de advertência. Quem quiser, pois, que preste atenção.
(Está registrado) em páginas honoráveis,
Exaltadas, purificadas,
Por mãos de escribas,
Nobres e retos.
Ai do homem; quão ingrato é!
De que Ele o criou?
De uma gota de esperma; Ele o criou e o modelou (em seguida). Então, suavizou-lhe o caminho,
Depois o fez morrer e o sepultou;
E por fim, quando Lhe aprouver, ressuscitá-lo-á.
Qual! O homem ainda não cumpriu o que Ele lhe ordenou.
Que o homem repare, pois, em seu alimento.
Em verdade,derramamos a água em abundância,
Depois abrimos a terra em fendas,
E fazemos nascer o grão,
A videira e as plantas (nutritivas),
A oliveira e a tamareira,
E jardins frondosos,
E o fruto e a forragem,
Para o vosso uso e o do vosso gado.
Porém, quando retumbar o toque ensurdecedor,
Nesse dia, o homem fugirá do seu irmão,
Da sua mãe e do seu pai,
Da sua esposa e dos seus filhos.
Nesse dia, a cada qual bastará a preocupação consigo mesmo.
Nesse dia, haverá rostos resplandecentes,
Risonhos, regozijadores.
E também haverá, nesse dia, rostos cobertos de pó,
Cobertos de lugubridade.
Estes serão os rostos dos incrédulos, dos depravados.

--------------

Esta Surata discute certos princípios de grande importância. Ela é singular em suas imagens e na impressão que deixa, combinada com seu efeito espiritual e soberto ritmo musical.

A primeira parte trata de um certo acontecimento ocorrido nos primórdios do Islam. O Profeta (SAW) estava ocupado com alguns chefes da tribo coraixita, explicando a eles a mensagem do Islam, quando Ibn Umm Maktoom, um pobre cego, o interrompeu. Sem saber que o Profeta estava ocupado com aquelas pessoas, pediu-lhe por diversas vezes que o ensinasse a respeito de alguns versículos do Alcorão.

O Profeta ficou meio agastado com aquela interrupção, e franzindo o rosto, afastou-se de Ibn Umm Maktoom.

Esta Surata começa com um crítica ao comportamento do Profeta neste incidente. Especifica claramente os valores e princípios sobre os quais a sociedade islâmica está fundada e afirma a verdadeira natureza da mensagem do Islam.

Tornou-se austero e voltou as costas, Quando o cego foi ter com ele. E quem te assegura que não poderia vir a ser agraciado, Ou receba (admoestação e, a lição lhe será proveitosa? Quanto ao opulento, Tu o atendes, Não tens culpa se ele não crescer (em conhecimentos espirituais). Porém, quem acorre a ti, E é temente, Tu o negligencias! Qual! Em verdade, (o Alcorão) é uma mensagem de advertência. Quem quiser, pois, que preste atenção. (Está registrado) em páginas honoráveis, Exaltadas, purificadas, Por mãos de escribas, Nobres e retos.

A atitude ingrata do homem para com Allah e a negação d'Ele vem à tona na segunda parte. Aqui o homem é lembrado de sua origem, de como sua vida foi facilitada, de como Allah determina sua morte e ressurreição; e de como, afinal de contas, ele fracassa no cumprimento de Seus mandamentos:

Ai do homem; quão ingrato é! De que Ele o criou? De uma gota de esperma; Ele o criou e o modelou (em seguida). Então, suavizou-lhe o caminho, Depois o fez morrer e o sepultou; E por fim, quando Lhe aprouver, ressuscitá-lo-á. Qual! O homem ainda não cumpriu o que Ele lhe ordenou.

A terceira parte leva o homem a refletir sobre as coisas mais imediatas, isto é, sua comida. A perfeição absoluta da criação é muito clara no fornecimento do alimento para o homem, porque é óbvia na criação, na proporcionalidade e no desenvolvimento do próprio homem.

Que o homem repare, pois, em seu alimento. Em verdade,derramamos a água em abundância, Depois abrimos a terra em fendas, E fazemos nascer o grão, A videira e as plantas (nutritivas), A oliveira e a tamareira, E jardins frondosos, E o fruto e a forragem, Para o vosso uso e o do vosso gado.

A parte final fala sobre o "toque ensurdecedor" e de seus efeitos terríveis. O som das palavras nos dá a impressão de horror. Faz com que as pessoas ignorem o que quer que esteja a volta delas. Suas faces, no entanto, mostram o que está acontecendo.

Porém, quando retumbar o toque ensurdecedor, Nesse dia, o homem fugirá do seu irmão, Da sua mãe e do seu pai, Da sua esposa e dos seus filhos. Nesse dia, a cada qual bastará a preocupação consigo mesmo. Nesse dia, haverá rostos resplandecentes, Risonhos, regozijadores. E também haverá, nesse dia, rostos cobertos de pó, Cobertos de lugubridade. Estes serão os rostos dos incrédulos, dos depravados.

Esta rápida descrição provoca um efeito profundo no leitor. Sua mensagem e implicações são tão poderosas que nenhum coração humano pode evitar de se sentir profundamente tocado, ainda que seja uma leitura superficial.Nas páginas seguintes, tentaremos ilustrar alguns dos efeitos de certas partes da Surata que não são tão aparentes.

Tornou-se austero e voltou as costas, Quando o cego foi ter com ele. E quem te assegura que não poderia vir a ser agraciado, Ou receba (admoestação e, a lição lhe será proveitosa? Quanto ao opulento, Tu o atendes, Não tens culpa se ele não crescer (em conhecimentos espirituais). Porém, quem acorre a ti, E é temente, Tu o negligencias! Qual! Em verdade, (o Alcorão) é uma mensagem de advertência. Quem quiser, pois, que preste atenção. (Está registrado) em páginas honoráveis, Exaltadas, purificadas, Por mãos de escribas, Nobres e retos.

As instruções divinas que se seguiram a este incidente são muito mais difíceis de serem alcançadas do que pode parecer à primeira vista. Elas são, na verdade, um milagre. Estas instruções, os princípios que buscam estabelecer e a mudança que elas objetivam para a sociedade humana são, talvez o primeiro e maior milagre do Islam. Mas as instruções aqui aprecem um comentário a respeito de um incidente determinado. É parte do método alcorânico fazer uso de acontecimentos isolados para estabelecer princípios fundamentais e permanentes. Os princípios aqui estabelecidos e seus efeitos práticos representam efetivamente o Islam, conforme visto na primeira sociedade islâmica. Eles constituem a verdade pela qual o Islam e as primeiras religiões divinas buscam plantar na vida humana.

O ponto em questão aqui não é só como um indivíduo, ou uma classe de pessoas, deve ser tratado. Esta é, na verdade, a importância do comentário alcorânico sobre o incidente em si, tomado isoladamente. O cerne da questão é, no entanto, alguma coisa muito mais importante. É: como a pessoa deve avaliar as coisas em sua vida? De onde ela deve tirar seus valores e seus padrões para fazer essa avaliação?

O sentido das instruções divinas que o início da Surata procura estabelecer é que os homens devem basear seus valores e padrões nas considerações divinas estabelecidas por Allah e não em circunstâncias sociais, tradições ou práticas ou qualquer conceito de vida que provenham dessas circunstâncias e que possam impedir tais valores e padrões. Não há dificuldade na condução da vida humana com base nos preceitos estabelecidos pelo Ser Divino, posto que livre das pressões de todas as considerações mundanas.

Se considerarmos a pressão da sociedade sobre os sentimentos e atitudes do indivíduo - valores tradicionais, laços familiares e sociais, valores ambientais, por exemplo - podemos apreciar a dificuldade no cumprimento de tais instruções. Apreciaremos mais ainda se nos lembrarmos de que a fim de divulgá-las às pessoas, o próprio Mohammad (SAW) precisou de orientação especial. A referência a isto basta para nos fazer sentir a gravidade da questão. Porque Mohammad (SAW) atingiu elevados níveis de sublimação e grandeza, mais do que qualquer ser humano possa aspirar. No entanto, o fato de que foram necessárias instruções especiais a ele para transmitir um certo princípio torna este princípio maior.

Esta é, na verdade, a verdadeira descrição do princípio aqui estabelecido, isto é, que a humanidade deve tirar seus valores e critérios do Ser Divino, uma vez liberta da pressão de seu meio ambiente com todos os seus valores e padrões.

A conduta básica que Allah ordenou, através de Seus profetas, que a humanidade adotasse é: "O mais nobre de todos aos olhos de Allah é o mais temente a Ele." (49:13). Este é o padrão pelo qual todos os valores, tradições e práticas devem ser avaliados. Ele estabelece o critério puramente divino que não tem nada a ver com qualquer consideração mundana. Mas, as pessoas vivem na terra e criam uma série de laços, uns mais estreitos e outros menos. São as injunções das relações familiares, de poder e de riqueza. A distribuição ou concentração deles cria certos resultados práticos e econômicos que determinam a posição de todo homem ou de toda classe de pessoas em relação aos outros.Sob essa ótica, alguns assumem uma posição superior em relação aos outros.

Quando o Islam declara: "O mais nobre aos olhos de Allah é o mais temente a Ele" , isto indica que aqueles valores e considerações são vazios, não obstante parecerem importantes para os homens. Isto mostra que este valor deriva diretamente de Allah, e que é o único aceito por Ele. O incidente em si serve para estabelecer este valor na situação atual. Assim, o princípio essencial é estabelecido: os graus reconhecidos são aqueles dados por Allah; o valor supremo que deve governar a vida do homem é o Divino; todos os valores, padrões, tradições e conceitos humanos devem ser abandonados pela nação islâmica.

Vamos analisar o incidente em si. Ibn Umm Maktoom, um pobre cego, se aproxima do Profeta (SAW) na hora em que ele está ocupado com um grupo de personalidades poderosas e influentes de Meca, inclusive Utbah e Shaibah, os dois filhos de Rabi'ah, Abu Jahl Amr ibn Hisham, Umayyah ibn Khalaf, Al-Walled Ibn Al-Mogheerah. Também está presente Al-Abbas ibn Abdel-Muttalib, tio do Profeta. Trata-se de um encontro importante. O Profeta explica a mensagem do Islam para eles e espera por uma resposta favorável. Ele sente que a causa do Islam terá muito a lucrar dependendo da resposta. Os tempos são duros para o Islam e Macca. Aquelas pessoas estavam usando todo o seu poder e influência para impedir o avanço do Islam e para impedir que as pessoas aceitassem o Islam. Eles estavam tentando isolar o Islam em Macca e bloquear seu progresso.

Fora de Meca, as outras tribos adotaram um comportamento de esperar para ver no que ia dar. Eles sabiam que contra Mohammad estavam seus próprios parentes que, em tese, deveriam ser seus mais ardorosos defensores.Cabe salientar que quando dizemos que o Profeta estava ocupado com aquelas pessoas, não significa que ele tivesse qualquer interesse pessoal. Ele simplesmente estava trabalhando pela causa do Islam. A aceitação do Islam por aqueles homens poderosos e influentes, significava a remoção de todas as barreiras no caminho do Islam em Meca. Também seria a garantida da liberdade do Islam fora de Meca.

Enquanto este encontro fundamental estava acontecendo, um pobre homem chega e interrompe o Profeta (SAW) dizendo:

"Mensageiro de Allah, ensina-me alguns versículos dos que Allah lhe ensinou."

Mesmo sabendo que o Profeta (SAW) estava ocupado, ele repete seu pedido por diversas vezes. O Profeta não gosta desta interrupção. Seu rosto, que não é percebido pelo cego, expressa sua insatisfação. Franze as sobrancelhas e desvia o olhar do pobre homem que tinha interrompido o encontro do qual o Profeta depositava grande esperança. Na verdade, o motivo do Profeta era o seu grande entusiasmo para ganhar apoio para o Islam.

Aqui, o céu intervém para dar a palavra final sobre a questão e colocar marcos decisivos neste caminho. Assim, é dado ao homem medidas que devem mensurar seus valores independente de quaisquer outras considerações, inclusive a de que serve aos interesses do Islam, conforme percebido pelos homens, e até pelo maior deles, Mohammad (SAW). É por isso que o Profeta, que foi descrito no Alcorão como de "natureza superior e sublime" (68:4), é fortemente censurado por Allah, o Mais Elevado. É a única parte no Alcorão em que é dito ao Profeta, que é amado por Allah, "kalla" (indevidamente traduzido por "Qual! Em verdade"). Kalla é um termo que denota censura e uma ordem para que desista. E isto porque o princípio transgredido é fundamental para esta religião.

A reprimenda é feita em estilo singular que desafia qualquer tradução para a língua comum. A língua escrita tem que aplicar certas regras e observa algumas normas bem definidas que alteram o estilo vivo do Alcorão, que é caracterizado, neste exemplo, por rápidas pinceladas e frases curtas que dão a impressão de reações e quadros rápidos.

Tornou-se austero e voltou as costas quando o cego foi ter com ele.

O uso da terceira pessoa aqui é importante. Sugere que o assunto em questão é tão desagradável para Allah que Ele não quer confrontar seu amado mensageiro. Por si só é um gesto de misericórdia e bondade para com o Profeta. Assim, a ação, que precisava de uma reprimenda, foi disfarçada com grande sutileza. A reprimenda toma a forma de uma alocução direta, começando de uma forma suave:

E quem te assegura que não poderia viar a ser agraciado, ou receba (admoestação) e, alição lhle será proveitosa.

Quem te assegura que não poderia ter sido um grande benefício? Isto quer dizer que o pobre, o cego, que veio até você em busca de luz poderia ter-se beneficiado do sinal de Allah e ter-se purificado. Seu coração poderia ter sido iluminado pela luz de Allah e ele poderia ter-se transformado num farol de luz, guiando as pessoas para um porto seguro. É exatamente o que acontece a cada momento com um ser humano que aceita a fé de todo o coração. Na realidade, é isto que tem um peso verdadeiro nas escalas de Allah. A reprimenda então assume um tom mais forte. Espanta-se com o gesto em questão:

Quanto ao opulento, tu o atendes, não tens culpa se ela não crescer (em conhecimentos espirituais). Porém, quem acorre a ti, E é temente, Tu o negligencias!

Aquele que imagina que pode viver sem você e sua religião, sem bondade e pureza é o que merece sua atenção! Você o procura quando ele lhe volta as costas e você se esforça para tentar persuadi-lo a aceitar a fé.

O que você tem com isso se escolher permanecer impuro? Você não será cobrado por seus pecados. Ele não garantirá sua vitória. Quanto àquele que acorre a você de livre e espontânea vontade, e com a temência no coração, tateando seu caminho com as mãos esticadas, temeroso das dificuldades, "Tu o negligencias" e se ocupa com ninharias. Que descrição forte para o ato de não se prestar atenção à pessoa que chega em busca de uma orientação correta.

A entonação vai ficando mais forte e a reprimenda se transforma numa censura manifesta: "Kalla", ou "Qual!", isto não poderia acontecer. A seguir, vem uma declaração afirmando que o Islam é um chamado nobre e honrado. Não precisa do apoio de ninguém. Ele só se preocupa com aquele que o aceita por seus próprios méritos, independente de sua posição na sociedade humana!

Em verdade, (o Alcorão) é uma mensagem de advertência. Quem quiser, pois, que preste atenção. (Está registrado) em páginas honoráveis, exaltadas, purificadas, por mãos de escribas nobres e retos.

Trata-se de uma mensagem nobre e honorável em todos os aspectos. Suas páginas são purificadas e exaltadas, confiadas a embaixadores angelicais "nobres e retos" que a transmitem àqueles seres humanos selecionados para a tarefa de divulgá-la ao seu povo. Também é dignificada. É uma mensagem apenas para aqueles que conhecem seu valor e buscam a purificação.

Portanto, este é o critério divino pelo qual todos os valores e considerações devem ser avaliados e todos os homens devem computar. É, também, a palavra de Allah, que é a sentença final em todas as situações.

Mas, quando e onde ele foi estabelecido? A resposta é em Meca, quando os muçulmanos eram poucos e o Islam ainda era o lado fraco de uma luta desigual. A tentativa de conquistar um grupo de homens poderosos e influentes não foi motivada por qualquer interesse pessoal. Ignorar o pobre cego não foi motivado por qualquer consideração pessoal. Tudo era por conta da nova mensagem. Mas a própria mensagem conclama para a adoção e aplicação destes padrões e valores. Porque o Islam não alcançará poder ou vitória verdadeira a não ser com o estabelecimento deles.

Conforme dito mais acima, o princípio essencial de que se trata é muito maior e mais amplo em seus objetivos do que um simples incidente. Trata-se, na verdade, de mostrar ao homem que ele deve tirar seus valores e padrões de Allah e não de conceitos mundanos.

O mais nobre dentre vós aos olhos de Allah, é o mais temente.

Realmente, aquele a quem Allah considera nobre é o que merece ser assistido e cuidado, mesmo que não tenha família, poder ou riqueza, que são itens altamente valorizados nos conceitos mundanos. Estes e todos os outros valores mundanos tornam-se inúteis quando nos entregamos com fé e temor a Allah. Esta é a grande questão que as divinas instruções desta Surata procuram estabelecer.

O Profeta sentiu-se profundamente tocado por esta orientação e pela reprimenda de Allah. Durante toda sua vida ele trabalhou incansavelmente pelo estabelecimento deste grande princípio na sociedade islâmica.

Seu primeiro gesto foi anunciar publicamente essas instruções e a reprimenda. Isto, por si só, já é uma grande coisa. De qualquer ponto de vista, ninguém a não ser um Mensageiro de Allah teria anunciado em público que ele tinha sido censurado tão veementemente e de uma forma tão singular, por causa de um deslize cometido. Já teria sido suficiente para qualquer outro grande homem reconhecer o erro e evitar a sua repetição. Com o Mensageiro de Allah, no entanto, as coisas assumem proporções diferentes. Somente o mensageiro de Allah teria tido a coragem, sob as circunstâncias que o Islam estava enfrentanto, de fazer esta declaração, desafiando com isto os chefes coraixitas, que tinham orgulho de sua linhagem, poder e riqueza, os únicos valores que realmente importavam para a sociedade de Mecca, e onde as pessoas imaginavam:

Na verdade, por que não foi revelado este Alcorão a um homem célebre, de uma das duas cidades (Meca e Taif)?

É óbvio que eles conheciam a linhagem de Mohammad e que ele era descendente da mais nobre família da Arábia. Seus ancestrais tinham sido líderes de Meca. Não obstante, eles assim falavam porque Mohammad não ocupava uma posição de poder em Meca antes de tornar-se profeta.

Em sociedades deste tipo, principalmente as daquela época, tal princípio jamais poderia ter sido produto de qualquer fator terreno. Só poderia ter tido uma única fonte: Allah. Somente a vontade de Allah, e a sociedade islâmica recebeu-o diretamente do Profeta. Logo foi estabelecido e ganhou profundidade e impulso, que ajudou a continuar funcionando na nação islâmica pelos séculos.

O estabelecimento deste princípio representou, na verdade, o renascimento da humanidade. Foi maior em importância do que o primeiro nascimento do homem.

O homem foi capaz de libertar-se de todos os laços e conceitos mundanos e substituí-los por um conjunto de valores celestes que são independentes de todas as considerações terrenas. Os novos valores logo foram entendidos e aceitos por todos. Logo a grave questão que necessitava que o próprio Mohammad transmitisse com uma orientação especial, a fim de que sua dibulgação se transformasse em princípio operativo da consciência islâmica e no código básico da sociedade islâmica. E permaneceu por um longo período.

Talvez não possamos analisar completamente a verdadeira natureza do renascimento da humanidade. A razão para a nossa incapacidade é que não podemos conceber a importância prática de nossa libertação das pressões da sociedade, seus valores, critérios, tradições e práticas. A fim de compreendermos a magnitude dessas pressões, temos que nos lembrar que os defensores da visão materialista da história acham que a condição econômica de uma sociedade determina suas crenças, artes, literatura, leis, costumes assim como sua concepção de vida e de destino. Que visão mais estreita e equivocada da verdadeira natureza do homem! Com este princípio básico, o Islam levou a cabo o milagre do renascimento do homem.

Desde então, os valores implícitos neste grande princípio tornaram-se supremos. A sua predominância, no entanto, não foi fácil, nem na sociedade árabe nem na mente dos muçulmanos.

Através de suas ações e orientações, impregnado pelo profundo efeito das instruções divinas contidas nesta Surata, o Profeta foi capaz de incutir este princípio básico do Islam na consciência de seus companheiros e na vida da sociedade islâmica criada por ele. Ele cuidou de sua nova plantinha com profundo desvelo até que tivesse criado raízes e espalhado seus ramos por toda a parte. É por isto que este princípio permaneceu durante séculos como um princípio orientador da comundiade muçulmana, apesar dos inúmeros fatores contrários.

Após este incidente, o Profeta sempre recebia calorosamente Ibn Umm Maktoom. Sempre que o encontrava dizia: "Seja bem vindo o homem por conta de quem meu Senhor me reprovou." O Profeta o indicou por duas vezes como seu substituto em Medina, quando ele teve que se afastar.

O Profeta casou sua própria prima Zainab bint Jahsh, do clã Assad, com seu antigo escravo Zaid ibn Harithah. O casamento sempre foi uma questão delicada, e assim era principalmente na Península Arábica naquele tempo. A intenção do Profeta foi dar um golpe mortal em todos os valores sociais baseados em conceitos meramente mundanos.

Assim que os muçulmanos de Meca se estabeleceram em Medina, o Profeta criou laços de irmandade entre cada dois muçulmanos. Ele fez de seu tio Hamza, um irmão para seu ex-escravo Zaid: e Khalid ibn Rowaiha, da tribo Khath'am, e Bilal, o antigo escravo, tornaram-se irmãos.

Ele indicou Zaid como Comandante-em-Chefe do exército muçulmano que lutou na batalha de Mu'tah. A primeira indicação de Zaid foi o primo do Profeta, Ja'afar ibn Abu Talib. A segunda indicação foi Abdullah ibn Rawaha, dos ansar. Várias personalidades de Meca e Medina faziam parte deste exército de 3 mil homens, inclusive o mais famoso comandante muçulmano de todos os tempos, Khalid ibn Al-Waleed.

O último gesto do Profeta foi indicar Usamah ibn Zaid, um jovem rapaz, como comandante de um exército criado para combater os romanos. Neste exército estavam vários dos primeiros muçulmanos, os muhajirins (de Meca) e os ansars (de Medina), inclusive os mais famosos companheiros e futuros sucessores, Abu Bakr e Omar, assim como Sa'ad ibn Abi Waqqas, um parente do Profeta e um dos primeiros a aceitar o Islam. Algumas pessoas reclamaram do fato de Usamah liderar o exército, devido a sua pouca idade. Abdullah ibn Umar relatou a estória: "Quando algumas pessoas reclamaram da indicação de Usamah como comandante, o Profeta disse? 'Vocês estão censurando sua indicação como comandante da mesma forma que censuraram a indicação de seu pai. Por Deus, seu pai foi um comandante de valor e uma das pessoas mais queridas por mim. Usama também é um dos mais queridos para mim."

Algumas pessoass falaram de forma desairosa a respeito de Salman, o persa, um companheiro do Profeta. Eles partiram de uma visão preconceituosa de nacionalidade e fizeram um comentário sobre a inferioridade dos persas em relação aos árabes. O Profeta deu um passo decisivo para acabar com essas posturas estreitas. Ele declarou: "Salman pertence à família do Profeta." A declaração de Mohammad transcende a qualquer linhagem, aspectos tribais ou nacionalistas, que tinham um peso preponderante na Arábia.

Certa vez, dois dos mais estimados companheiros do Profeta, Abu Tharr e Bilal se desentenderam. Fora de si, Abu Tharr chamou Bilal de "filho de uma negra". O Profeta ficou profundamente aborrecido pelo que Abu Tharr dissera. Ele o repreendeu, dizendo: "Isto é demais, Abu Tharr. Aquele que tem uma mãe branca não tem qualquer vantagem que o torne melhor do que o filho de uma mãe negra." Assim, o Profeta deu a devida dimensão para a disputa.

O que distingue as pessoas é a fé e não a cor. Este é um critério islâmico,tão diferente dos padrões mundanos das sociedades dos ignorantes. A reprimenda do Profeta teve um efeito tão grande sobre Abu Tharr que era uma pessoa muito sensível. Ele quis reparar seu erro e colocou sua cabeça no chão jurando que não levantaria até que Bilal pusesse seu pé em cima. Bilal conquistou uma posição de grande importância na sociedade islâmica. O que tornou possível essa conquista foi a aplicação dos valores celestes.

Uma vez, Ammar ibn Yassir pediu permissão para ver o Profeta e o Profeta disse: "Deixe-o entrar, receba bem o homem puro." Ele também disse de Ammar: "Ammar está pleno de fé." Huthaifa relatou que o Profeta disse: "Não sei quanto tempo ainda estarei com vocês, portanto aceitem a liderança dos dois que me seguirão (e apontou para Abu Bakr e Omar) e sigam a orientação de Ammar. Acreditem em tudo que Ibn Massoud lhes disser."

Ibn Massoud era tão próximo ao Profeta que qualquer estrangeiro em Medina achava que ele era um parente do Profeta. Abu Mussa disse: "Cheguei a Medina do Iêmen com meu irmão. Durante algum tempo ficamos com a impressão de que Ibn Massoud e sua mãe pertenciam à família do Profeta, uma impressão advinda da frequência com que ele entrava e saía da casa do Profeta e de sua antiga camaradagem."

O Profeta pediu a mão de uma mulher ansar em casamento para Julaibib, um antigo escravo. Seus pais relutaram em aceitar esse casamento. Ela, no entanto, disse a eles: "Vocês rejeitam um pleito do Profeta? Se ele acha que este homem é adequado para nós, então esse casamento vai acontecer." E assim eles deram o consentimento. Logo após seu casamento, Julaibib participou de uma campanha. Após a batalha, que resultou em vitória dos muçulmanos, o Profeta perguntou a seus companheiros: "Falta alguém?" E eles nomearam algumas pessoas. Ele repetiu a pergunta e eles nomearam outros. Ele perguntou pela terceira vez e eles responderam negativamente. Ele disse: "Acho que falta Julaibib." Eles procuraram e encontraram seu corpo próximo aos sete soldados mortos por ele. O Profeta chegou, ficou em pé diante dele e disse: "Ele matou sete soldados antes de ser morto. Este homem pertence a mim e eu pertenço a ele." Então, ele levantou o corpo em seus braços até que uma cova fosse preparada para ele e em seguida colocou-o na sepultura.

Com esta instrução divina e a orientação do Profeta, o renascimento da humanidade foi alcançado de forma singular. Então uma nova sociedade surgiu, com valores e critérios provenientes do céu e a vida sobre a terra isenta das restrições terrenas. Este é o maior milagre do Islam, um milagre que só aconteceu pela vontade de Allah e pelas ações do Profeta. Este milagre é a prova de que o Islam é a religião revelada por Allah e que o homem que a transmitiu para nós é Seu mensageiro.

Foi por vontade divina que a liderança da sociedade islâmica depois da morte do Profeta fosse concedida sucessivamente a Abu Bakr e Omar, as duas pessoas que mais tinham consciência da verdadeira natureza do Islam. Abu Bakr e Omar excederam a todos em seu amor ao Profeta e na determinação de seguir de perto seus passos.

Abu Bakr sabia bem o objetivo do Profeta ao indicar Usamah como comandante do exército. Seu primeiro ato, após tornar-se Califa, foi enviar o exército criado pelo Profeta e comandado por Usamah para cumprir a missão original. Abu Bakr, o Califa, seguiu com o exército até os arredores de Medina para as despedidas. Era uma cena estranha: Abu Bakr, o velho Califa, andando, e Usamah, o jovem comandante, montado em seu cavalo. Usamah sentiu-se envergonhado e pediu que Abu Bakr montasse o cavalo ou, então, que o deixasse andar a seu lado. Abu Bakr se recusou, dizendo: "Você não caminhará e eu não montarei. Não me fará mal se andar por uma hora, desde que o meu caminhar seja pela causa de Allah."

Abu Bakr sentiu que precisava de Omar para ajudá-lo no desempenho das responsabilidades do governo. Omar, no entanto, era um soldado no exército de Usamah, assim ele tinha que pedir permissão a Usamah para liberá-lo. Então, o Califa, o Chefe de Estado, disse a seu comandante: "Se você acha que pode dispensar Omar para mim, então, por favor, faça-o!" Que pedido! Quanta magnanimidade, acessível apenas com a vontade de Allah, por pessoas que aprenderam com o mensageiro de Allah.

Alguns anos depois, vamos ver Omar assumindo a liderança da sociedade islâmica, como seu segundo Califa. Uma de suas ações foi indicar Ammar ibn Yassir, que tinha pertencido às camadas mais baixas de Meca, governador de Kufa, no Iraque.

Certa vez.alguns dignitários coraixitas, inclusive Suhail ibn Amr e Abu Sufian, vieram ver Omar, que os deixou esperando. Ele primeiro fez entrar Suhaib e Bilal, dois ex-escravos. Abu Sufian ficou aborrecido e disse: "Jamais vi um dia igual a este. Esses escravos foram admitidos e nós estamos aqui esperando!" Suhail, que compreendia melhor a verdadeira natureza do Islam, disse: "Senhores, vejo em seus rostos uma expressão do que estão sentindo mas digo-lhes que se estão com raiva deveriam estar com raiva de vocês mesmos. Vocês receberam o convite para aceitar o Islam ao mesmo tempo. Eles responderam rapidamente, mas vocês demoraram. O que fariam se no Dia do Julgamento descobrissem que eles estão entre os escolhidos e vocês foram deixados para trás?"

Omar destinava a Usamah ibn Zaid uma porção maior dos despojos de guerra do que destinava a seu próprio filho, Abdullah. Quando Abdullah questionou a decisão do pai, Omar disse: "Filho, o Profeta amava Zaid mais do que amava seu pai e amava Usamah mais do que ele o amava. O que fiz foi simplesmente dar mais valor ao amor do Profeta do que ao meu próprio amor." Omar tinha plena consciência de que o Profeta media seu amor de acordo com os padrões divinos. Omar enviou Ammar para questionar Khalid ibn Al-Walid, o vitorioso comandante do exército muçulmano e descendente de família nobre, sobre certas suspeitas. Ammar amarrou as vestimentas de Khalid em volta do pescoço. Alguns relatos acrescentam que ele amarrou as mãos de Khalid durante o interrogatório com o pano de seu próprio turbante. Quando a investigação provou a inocência de Khalid, Ammar o desamarrou e colocou o turbante de Khalid de volta em sua cabeça com suas próprias mãos. Khalid não protestou contra este tratamento. Ele sabia que Ammar era um dos primeiros companheiros do Profeta. Khalid também sabia o que o Profeta costumava dizer sobre Ammar.

Omar dizia que "Abu Bakr é nosso mestre e ele libertou nosso mestre." Ele queria se referir à época em que Bilal era um escravo de Umayyah Khalaf, que o torturava sem dó nem piedade para que ele se afastasse do Islam. Abu Bakr comprou Bilal de Umayyah e deu-lhe a liberdade. Este ex-escravo, Bilal, é descrito por Omar, o Califa, como "nosso mestre".

Foi Omar quem disse "se Salim, ex-escravo de Abu Huthaifa, estivesse vivo eu o teria indicado para me suceder".

Esta declaração contraria a crença de que Omar não tenha indicado ninguém para sucedê-lo, nem mesmo Osman, `Ali, Talha ou Zubair. Ele criou um conselho consultivo de seis membros para que o próximo Califa pudesse ser escolhido dentre eles.

Ali ibn Abu Talib enviou Ammar eAl-Hassan, seu filho, a Kufa para buscar apoio contra Aisha. Sua mensagem dizia:"Sei que ela é a esposa do Profeta nesta vida e na outra. No entanto, vocês estão sendo desafiados num teste que provará se seguimos o Profeta ou sua esposa." O povo de Kufa não apoiou Aisha, mãe dos crentes e filha de Abu Bakr.

Abu Ruwaiha de Khath`am pediu a Bilal, seu irmão no Islam, que falasse com a família de uma mulher do Iêmen, com quem ele queria se casar. Bilal foi e disse: "Eu sou Bilal ibn Rabah e este é meu irmão, Abu Ruwaiha. Falta-lhe boas maneiras e uma fé firme." Ele não os enganou escondendo a verdade e nem se comportou como um mediador. A família ficou contente com tal honestidade e concordou com o casamento da filha com Abu Kuwaiha, o nobre árabe que defendeu Bilal, o ex-escravo da Abissínia.

Este princípio fundamental permaneceu firmemente estabelecido na sociedade islâmica durante séculos, apesar de vários fatores contribuírem para alguns reveses naquela sociedade. Abdullah ibn Abbas sempre foi lembrado por seu escravo Ikrimah,Abdullah ibn Umar por seu escravo Nafi'. Anas ibn Malik sempre foi associado a seu escravo Ibn Sirin, como era Abu Huraira a seu escravo Abdurrahman ibn Hormuz. Os mais eminentes estudiosos foram Al-Hassan, de Basra, Mujahid ibn Jabr, Attaa ibn Rabah e Tawoo ibn Kaissan'. No Egito, Yazid ibn Abi Habib, um escravo negro de Dengla, foi um grande mufti (autoridade religiosa) durante o reinado de Omar ibn Abdulaziz.

Este critério divino continuou a gozar de grande respeito entre os justos e tementes a Deus, mesmo quando foram privados de todas as coisas que os valores mundanas dão tanta importância. Só recentemente estes valores deixaram de funcionar, depois que o mundo foi esmagado pela onda da ignorância. Nos Estados Unidos, o notável país do ocidente, onde o materialismo reina supremo, o homem vale menos do que a máquina. Por outro lado, a Terra do Islam mergulhou na Ignorância, de onde o Islam a tinha tirado há muito tempo atrás. Os credos da ignorância extirpados pelo Islam, estão revivendo. Os valores divinos estão sendo abandonados em prol dos valores da ignorância, que nada têm a ver com o Islam.

A única esperança é que o novo movimento islâmico seja capaz de resgatar a humanidade mais uma vez das garras da Ignorância e que promova um segundo renascimento dessa humanidade, semelhante àquel anunciado nos versículos decisivos da abertura desta Surata.

À Sombra do Alcorão: Tafsír de Sayyid Qutb, cortesia de:
http://www.sbmrj.org.br/Alcorao-intro3.htm
 
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