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RC
31-07-2003, 20:49
O Islam Também Tem Uma Tradição Progressista


A maioria das perspectivas ocidentais é fundamentada em ignorância

Quando um líder da resistência do País de Gales foi capturado e trazido ante o imperador de Roma, ele disse: "Porque você deseja conquistar o mundo, isto não quer dizer que o mundo deseja ser conquistado por você". Hoje em dia, seria possível oferecer um eco daquele sentimento para os liberais ocidentais: "Porque você desejam que seus valores prevaleçam em todo o mundo, isto não quer dizer que o resto do mundo queira adotá-los". A voz imperial é baseada na ignorância das ricas tradições de outras civilizações, assim como em uma visão exageradamente otimista do que o Ocidente vem fazendo com o resto do mundo, política, economica e ambientalmente.

As crenças arraigadas que muitos ocidentais professam sobre o Islam frequentemente revelam mais sobre o próprio Ocidente do que sobre o Islam e os muçulmanos. Os Otomanos constituíram a mais longa dinastia da história; a sua duração deveu-se em parte à sua habilidade de governar um império com múltiplas crenças, em uma época em que a Europa estava ocupada enforcando, afogando e esquartejando diferentes variedades de cristãos.

Hoje em dia o Islam é visto como menos tolerante que o Ocidente, e nós deveríamos perguntar quais são, precisamente, os tais 'valores ocidentais' com os quais o Islam é tão incompatível?

Alguns acreditam que a atitude do Islam em relação às mulheres é a fonte dos 'problemas muçulmanos'. Entretanto, ocidentais deveriam analisar suas próprias atitudes e reconhecer que apenas recentemente as estruturas patriarcais começaram a erodir por aqui.

A tradição islâmica realmente tem algumas áreas de aparente incompatibilidade com os objetivos das mulheres no Ocidente, e os muçulmanos têm muito o que melhorar em suas atitudes em relação às mulheres. Mas culpar a religião é, de novo, uma expressão da ignorância tanto da religião em si, como da luta histórica pela igualdade das mulheres nas sociedades muçulmanas.

Uma leitura cuidadosa das teólogas modernas do Islam causaria enorme admiração por parte das mulheres ocidentais, dadas as injunções legais que têm mais de 1.000 anos, como por exemplo a garantia ao direito de ajuda nas tarefas domésticas às expensas dos maridos. Três das quatro escolas sunitas consideram que tarefas domésticas não fazem parte das responsabilidades das esposas. Compare isto às pesquisas nos EUA que mostram que as mulheres que trabalham fora ainda por cima são responsáveis por 80% do trabalho doméstico.

Os ocidentais, em sua campanha por conformismo global, frequentemente falam de 'progresso' e da rejeição de um passado feudal não tão distante, mas quase nunca referem-se ao seu desconforto com a hegemonia corporativa e as implicações humanas reais da globalização.

Nenhum destes missionários dos valores ocidentais dispõe-se a considerar porque a Europa, o coração do Ocidente, gerou duas guerras mundias que mataram mais civis do que todas as guerras dos 20 séculos anteriores juntas. Nós muçulmanos somos obrigados a chamá-las de 'guerras mundiais' a despeito de terem sido 'guerras ocidentais', as quais visaram atingir civis com armas de destruição em massa em uma época em que o Islam estava em paz.

Nós muçulmanos não nos deixamos persuadir pelas muitas reivindicações triunfantes feitas pelo Ocidente, mas estamos felizes com seus valores centrais. Como ocidental, e produto de uma geração de ativistas pelos direitos civis e pela paz, eu abracei o Islam sem ter que abandonar meus valores centrais, os quais provêm de uma tradição progressista, mas sim os confirmei. Eu venho estudando a Lei Islâmica nos últimos 10 anos com estudiosos treinados tradicionalmente, e embora existam alguns detalhes em textos legais do período medieval que me perturbem, nunca verifiquei qualquer incompatibilidade entre os valores centrais da fé e aquilo que minha mãe, uma californiana progressista, me ensinou. Ao contrário, eu não canso de surpreender-me ao verificar como o que as sociedades ocidentais reivindicam como seus mais elevados ideais são profundamente enraizados na tradição Islâmica.

Este aparente chauvinismo de alguns ocidentais é normalmente acionado pelo extremismo Islâmico. Poucos entretanto se dão ao trabalho de observar que a maioria dos muçulmanos detestam o extremismo, assim como os ocidentais. Meu medo é que isto tudo sirva de desculpa para prover a estes poucos ocidentais um substituto para o seu antigo hábito de anti-semitismo. Esta substituição não é difícil de ocorrer. Afinal de contas, os árabes são semitas, e os ensinamentos do profeta árabe são mais próximos da teologia judaica do que da cristã. Nós muçulmanos no Ocidente, assim como os judeus anteriormente, lidamos com as mesmas questões que os judeus lidaram no passado: integração ou isolamento, tradição ou reforma, casamentos dentro ou fora da religião.

O muçulmanos que sonham com um estado Islâmico ideal estão, de alguma forma, refletindo as velhas aspirações dos judeus da diáspora por uma terra em que eles possam ser livres para ser diferentes. Os muçulmanos, assim como os judeus, frequentemente vestem-se de modo diferente; nós não comemos alguns dos alimentos do país em que vivemos. Assim como os judeus no passado, nós somos vistos como parasitas no corpo social, carregando o peso de uma lei uniforme e irreformável, contribuindo pouco, conspirando em guetos, e obscuramente indiferentes à higiene pessoal. Os cartoons de árabes não são muito diferentes das caricaturas de judeus nos jornais alemães do período nazista. Nos anos 30, estas imagens garantiram que poucos tivessem a coragem de falar em público a respeito das possíveis consequências daquela demonização, assim como poucos hoje em dia estão realmente pensando sobre a retórica anti-muçulmana dos partidos da extrema direita em toda Europa. Muçulmanos em geral, e árabes em particular, tornaram-se a nova versão dos 'outros'.

Quando eu encontrei o presidente Bush no ano passado, eu lhe dei dois livros. O primeiro foi "The Essential Koran" (O Qur'an Essencial), traduzido por Thomas Cleary. O segundo foi uma outra tradução do Cleary, "Thunder in the Sky: Secrets of the Acquisition and Use of Power" ("Trovão no Céu: Os Segredos da Aquisição e Uso do Poder"), escrito por um antigo sábio chinês, em que ele reflete sobre os valores universais daquele outro grande povo.

Eu o fiz porque, como americano, enraizado na melhor tradição ocidental, e um muçulmano convertido que encontra muita profundidade na filosofia chinesa, eu acredito que a tese de Huntington, de que as três grandes civilizações entrarão inevitavelmente em choque, não passa de uma mentira. Cada civilização fala com suas muitas vozes; o melhor de cada uma tem muito em comum com as demais. Não apenas as nossas civilizações podem co-existir em suas respectivas partes do mundo, mas também co-existir no coração do indivíduo, tal como acontece comigo. Nós podemos enriquecer um ao outro se escolhermos abraçar nossa humanidade essencial; mas nós também podemos destruir o mundo se escolhermos enfatizar nossas diferenças.

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Texto original: "Islam Has a Progressive Tradition Too" do sheikh Hamza Yusuf, publicado originalmente no jornal inglês "The Guardian" em 19 de Junho de 2002.

Traduzido por Marilene da Costa, brasileira convertida ao Islam, formada em Desenvolvimento Internacional pela Universidade de Harvard.

O sheikh Hamza Yusuf é americano, oriundo de uma típica família americana de classe média.

Ele se converteu ao Islam aos 17 anos (hoje ele tem 41), se formou em Teologia Islâmica nos Emirados Árabes e viajou pelo Oriente Médio para complementar seus estudos, sendo orientado pelos melhores sheikhs da atualidade.

É o diretor do Instituto Zaytouna, nos EUA.



http://www.geocities.com/islamicchat/hamza_yusuf.html

Anonymous
05-08-2003, 18:30
O Islam Também Tem Uma Tradição Progressista
A maioria das perspectivas ocidentais é fundamentada em ignorância

O mesmo pode-se dizer das perspectivas que os muçulmanos (arabes e outros) tem sobre o ocidente. Sabe, o ocidente não é só David Hasselhoff e 'Boob Watch'

Quando um líder da resistência do País de Gales foi capturado e trazido ante o imperador de Roma, Gales não existia na época

ele disse: "Porque você deseja conquistar o mundo, isto não quer dizer que o mundo deseja ser conquistado por você". Os romanos sabiam disso. Por isso utilizavam armas.

A voz imperial é baseada na ignorância das ricas tradições de outras civilizações, não é só a voz imperial que é culpado de ignorância. Os 'pequenos' também o são.

As crenças arraigadas que muitos ocidentais professam sobre o Islam frequentemente revelam mais sobre o próprio Ocidente do que sobre o Islam e os muçulmanos. Como?

Os Otomanos constituíram a mais longa dinastia da história; a sua duração deveu-se em parte à sua habilidade de governar um império com múltiplas crenças, em uma época em que a Europa estava ocupada enforcando, afogando e esquartejando diferentes variedades de cristãos. O Império Otomano não é um bom exemplo. A tal 'longa dinastia' mantive-se graças a fraticídios dignos dos seus predecessores bizantinos. Nem foi o império um bom exemplo de tolerância religiosa (tolerância religiosa nunca existiu em nehuma parte até muito recentemente, e foi nos E.U.A. que começou)

Hoje em dia o Islam é visto como menos tolerante que o Ocidente Desculpa lá, mas hoje em dia é menos tolerante.


Entretanto, ocidentais deveriam analisar suas próprias atitudes e reconhecer que apenas recentemente as estruturas patriarcais começaram a erodir por aqui. O senhor devia estudar melhor a historia das relações entre homem e a mulher no ocidente. É muito mais complexo do que pode parecer (e.g. um escritor muçulmano da época das cruzadas ficou chocado ao ver o nível de liberdade que uma mulher 'franca' tinha)

Mas culpar a religião é, de novo, uma expressão da ignorância tanto da religião em si, como da luta histórica pela igualdade das mulheres nas sociedades muçulmanas.
Todos os dogmas são culpados de alguma coisa, e nenhuma religião está isenta de parvoice.

Uma leitura cuidadosa das teólogas modernas do Islam causaria enorme admiração por parte das mulheres ocidentais, Até agora, o que eu li parece mais propoganda, por isso, não posso fazer comentários.

Compare isto às pesquisas nos EUA que mostram que as mulheres que trabalham fora ainda por cima são responsáveis por 80% do trabalho doméstico. A culpa muitas vezes é delas e da sua mentalidade de 'super-mulher'. Ou a rejeição da ideia que o homem pode ajudar a mulher a lavar a loiça.

mas quase nunca referem-se ao seu desconforto com a hegemonia corporativa e as implicações humanas reais da globalização. que são tão negativos que se tem que recorrer a violência extrema e injustificada para a impedir. Diga-me, o que é realmente a globalização?

Nenhum destes missionários dos valores ocidentais dispõe-se a considerar porque a Europa, o coração do Ocidente, gerou duas guerras mundias que mataram mais civis do que todas as guerras dos 20 séculos anteriores juntas. Nós muçulmanos somos obrigados a chamá-las de 'guerras mundiais' a despeito de terem sido 'guerras ocidentais', as quais visaram atingir civis com armas de destruição em massa em uma época em que o Islam estava em paz. Pois é. A batalha de al alamain deu lugar na Irlanda, e assinou-se aquele tratado no Teerão, cidade do Kentucky. (já agora as duas guerras mundiais foram tão brutais por causa do avanço tecnológico. Poderiam ter acontecido em qualquer outro lugar)

Como ocidental, e produto de uma geração de ativistas pelos direitos civis e pela paz, Ah. Um filho de hippies. Está tudo explicado.

Ao contrário, eu não canso de surpreender-me ao verificar como o que as sociedades ocidentais reivindicam como seus mais elevados ideais são profundamente enraizados na tradição Islâmica. Convém lembrar que os elevados valores ocidentais vieram do individualismo ocidental (que tem a seu lado brutal), e da ideologia cristã (paulina, i.e. de S. Paulo de Tarso)

Este aparente chauvinismo de alguns ocidentais é normalmente acionado pelo extremismo Islâmico. O que me irrita mais são os propagandistas.

Afinal de contas, os árabes são semitas, o anti-semitismo é o ódio ao judeu. Não ao árabe. Por exemplo, os neo-nazis estão tão obsecados com os judeus que não reconhecem os árabes como semitas.

e os ensinamentos do profeta árabe são mais próximos da teologia judaica do que da cristã.Especialmente no que diz respeito a Ismael e Isaac.

Assim como os judeus no passado, nós somos vistos como parasitas no corpo social, carregando o peso de uma lei uniforme e irreformável, contribuindo pouco, conspirando em guetos, e obscuramente indiferentes à higiene pessoal. Os cartoons de árabes não são muito diferentes das caricaturas de judeus nos jornais alemães do período nazista. Nos anos 30, estas imagens garantiram que poucos tivessem a coragem de falar em público a respeito das possíveis consequências daquela demonização, assim como poucos hoje em dia estão realmente pensando sobre a retórica anti-muçulmana dos partidos da extrema direita em toda Europa. Muçulmanos em geral, e árabes em particular, tornaram-se a nova versão dos 'outros'. Perdoa o cinismo, mas não tenho a certeza.

Quando eu encontrei o presidente Bush no ano passado, eu lhe dei dois livros. O primeiro foi "The Essential Koran" (O Qur'an Essencial), traduzido por Thomas Cleary. O segundo foi uma outra tradução do Cleary, "Thunder in the Sky: Secrets of the Acquisition and Use of Power" ("Trovão no Céu: Os Segredos da Aquisição e Uso do Poder"), escrito por um antigo sábio chinês, em que ele reflete sobre os valores universais daquele outro grande povo. Bush sabe ler??? :shock:

encontra muita profundidade na filosofia chinesa Ai, ai. Vai de mal a pior.

de que as três grandes civilizações entrarão inevitavelmente em choque, não passa de uma mentira. De vez em quando, as civilizações entram em choque e os estragos são imensos.


do sheikh Hamza Yusuf, porque será que quando se converta ao Islão, a pessoa muda o nome? Não vejo os turcos a fazê-lo.

Traduzido por Marilene da Costa, Esta manteve o nome pelo menos

Ele se converteu ao Islam aos 17 anos Muito novinho. Filho de hippies. Pode começar a duvidar das suas intenções

p.s. Ricardo, por favor, põe aspas. Por momentos pensei que tinha convertido ao islamismo-brasileirismo-americanismo.

Anonymous
05-08-2003, 18:35
Desculpem lá. Esqueci de por lá o meu 'nome' (ou username, ou lá como se chama)

RC
06-08-2003, 16:43
saudações

comecemos pelo fim p.s. Ricardo, por favor, põe aspas. Por momentos pensei que tinha convertido ao islamismo-brasileirismo-americanismo


Coloquei um texto que não é da minha autoria, e no final está bem explicito, a sua origem. Logo não precisa de aspas, somente a bibliografia.


islamismo-brasileirismo-americanismo

???? :shock: !!!!!


O Islam Também Tem Uma Tradição Progressista
A maioria das perspectivas ocidentais é fundamentada em ignorância


É o titulo do artigo que decidi postar
não fui eu que escrevi, no entanto estou convencido que é inteligente o suficiente para o entender.



Um pequeno comentário sobre a mudança de nome após a conversão ao islamismo, que se não estou em erro não é uma obrigação, cada qual faz o que bem entende.

Terminando, porque seria uma perda de tempo tentar explicar certas coisas,pq eu não estou aqui para ensinar, nem convencer ninguém, a mudar de forma de pensar.


Saudações


Ricardo Correia