neturei karta
08-07-2003, 15:04
Publicado em "Le Monde Diplomatique"- 06/01/2002
ARIEL SHARON, NEM PAZ NEM SEGURANÇA
Amnon Kapeliouk (*)
Os cartazes eleitorais do "novo Sharon" -- com os dizeres "somente Sharon trará a paz" -- que cobriram muros de Israel por todo lado, já desapareceram quase todos, arrancados ou apagados pela chuva.
Aqui e ali ainda são visíveis, mostrando o retrato de um homem sereno e seguro de si. O pedestre que passa e vê não pode deixar de se perguntar: "E onde está afinal essa paz, tão prometida?"
Nesta primavera que prenuncia um verão sujeito a tempestades, a opinião pública questiona -- preocupada, e com razão, com o bombardeio de uma estação de radar Síria instalada no Líbano, no dia 15 de abril -- o futuro das relações com os palestinos e os outros países vizinhos.
Os israelenses já começam a desconfiar que o homem que elegeram é o "velho Sharon" e que ele pretende continuar fazendo o que fez ao longo de toda sua vida: batalhas e guerras, destruição e matança.
A GUERRA DE 1948 CONTINUA
Sharon iniciou sua carreira com o massacre de Kibié, uma aldeia na Cisjordânia onde a unidade que ele comandava detonou as casas junto com seus moradores, provocando 70 mortes (outubro de 1953).
Prosseguiu com as execuções sumárias de centenas de pessoas "procuradas", em Gaza (início da década de 70), e depois com a invasão do Líbano e os massacres de Sabra e Chatila (1982).
O próprio Sharon parece fazer o possível para demonstrar que não mudou. Numa entrevista recente¹, a uma pergunta que lhe foi feita sobre o futuro das relações com os árabes, mas na forma de um versículo do Livro de Samuel, da Bíblia -- "Continuará a espada devorando?" --, ele respondeu com desdém:
"Um povo normal não faz esse tipo de pergunta".
E o jornalista continuou: "O senhor não pretende ser um De Gaulle israelense?" Resposta:
"Com que objetivo? O problema não está em assinar um papelzinho qualquer. Eu posso lhe dar um em uma semana. E isso vai levar onde? A lugar algum".
E afirmou que a guerra da independência de Israel, começada em 1948, continua...
REJEIÇÃO AO ESTADO PALESTINO
Ariel Sharon define três objetivos para o povo de Israel: trazer para o país um milhão de judeus em 12 anos, desenvolver o deserto do Neguev (Sul de Israel) e a Galiléia, e reinstituir o ensino dos valores sionistas.
A paz não está entre as suas prioridades. E explica: "Não acho que seja o caso de querermos um objetivo tão pretensioso. Podemos contentar-nos com um acordo de não-beligerância por um prazo longo, indeterminado".
Uma Esparta dos tempos modernos, eis o que o general Sharon deseja para seu país. Pelo menos, tem o mérito da franqueza.
Sharon gostaria de transportar Israel ao período que antecedeu os acordos de Oslo (1993), quando a paz não estava na ordem do dia e o esforço prioritário era o de colonizar os territórios ocupados.
Ele já frisou que se opõe à demolição de toda e qualquer colônia, por mais distante que ela seja. Para ele, todas têm "uma enorme importância para a defesa nacional".
Sharon rejeita a criação de um Estado viável ao lado do Estado de Israel. A direção palestina aceitou, ao assinar os acordos de Oslo, um compromisso doloroso, contentando-se em ficar com cerca de 22% do território da Palestina histórica (a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, ocupadas por Israel em 1967).
Sharon aceitaria dar-lhes cerca de 40% dessa área, e desde que fossem "ilhotas" separadas, interligadas por túneis. Israel continuaria com o controle sobre Jerusalém e o Vale do Jordão, região onde o futuro Estado palestino poderia absorver grande número de refugiados. E o controle das fronteiras externas permaneceria nas mãos de israelenses.
ARAFAT, O "CHEFE TERRORISTA"
Para chegar a esses objetivos, o primeiro-ministro tem plano, em duas etapas. A primeira, seqüência da política de seu antecessor, Ehud Barak, resumiu da seguinte forma: "Ataques militares contra Arafat para o enfraquecer e diminuir seu prestígio junto a seu povo¹".
Não se trata de realizar ataques espetaculares, que poderiam ser contraproducentes e provocar críticas no cenário internacional.
É um plano que vem sendo realizado diariamente: destruição de posições e bases das forças palestinas através de tiros de blindados ou de tanques; um atirador de elite assassinando um militar ou um ativista da Autoridade Palestina ou do Fatah, coluna vertebral do regime; derrubada de dezenas de casas num campo de refugiados, em Gaza; devastação de campos de cultivo, derrubada de árvores e, naturalmente, bloqueio do acesso a cidades e aldeias, o que torna a vida cotidiana insuportável.
A imaginação destruidora não tem limites. Sharon disse aos militares: "Não se trata de falar, mas de agir. Todos os dias". Paralelamente, vem se desenvolvendo uma campanha de propaganda odiosa contra Yasser Arafat, com o objetivo de o desacreditar e de minar a sua legitimidade.
Essa campanha teve início após a recusa, por parte de Arafat, de concordar com as ordens que lhe foram dadas em Camp David, em julho de 2000².
Sharon referiu-se a Arafat como "chefe terrorista". Os ministros extremistas -- há vários deles, no governo de Sharon -- conclamam abertamente à "liquidação de Arafat".
Outros propõem impedir o acesso do líder palestino às zonas autônomas. Há várias semanas, ele deixou de ter o direito de utilizar seu helicóptero pessoal e vem sendo obrigado a utilizar o do rei Abdallah, da Jordânia.
¹ Yedioth Aharonoth, 13 de abril de 2001.
² Ver o mapa, com as propostas israelenses, publicado na edição de dezembro de 2000 de Le Monde Diplomatique.
(*) Jornalista, Jerusalém. Tradução: Jô Amado
ARIEL SHARON, NEM PAZ NEM SEGURANÇA
Amnon Kapeliouk (*)
Os cartazes eleitorais do "novo Sharon" -- com os dizeres "somente Sharon trará a paz" -- que cobriram muros de Israel por todo lado, já desapareceram quase todos, arrancados ou apagados pela chuva.
Aqui e ali ainda são visíveis, mostrando o retrato de um homem sereno e seguro de si. O pedestre que passa e vê não pode deixar de se perguntar: "E onde está afinal essa paz, tão prometida?"
Nesta primavera que prenuncia um verão sujeito a tempestades, a opinião pública questiona -- preocupada, e com razão, com o bombardeio de uma estação de radar Síria instalada no Líbano, no dia 15 de abril -- o futuro das relações com os palestinos e os outros países vizinhos.
Os israelenses já começam a desconfiar que o homem que elegeram é o "velho Sharon" e que ele pretende continuar fazendo o que fez ao longo de toda sua vida: batalhas e guerras, destruição e matança.
A GUERRA DE 1948 CONTINUA
Sharon iniciou sua carreira com o massacre de Kibié, uma aldeia na Cisjordânia onde a unidade que ele comandava detonou as casas junto com seus moradores, provocando 70 mortes (outubro de 1953).
Prosseguiu com as execuções sumárias de centenas de pessoas "procuradas", em Gaza (início da década de 70), e depois com a invasão do Líbano e os massacres de Sabra e Chatila (1982).
O próprio Sharon parece fazer o possível para demonstrar que não mudou. Numa entrevista recente¹, a uma pergunta que lhe foi feita sobre o futuro das relações com os árabes, mas na forma de um versículo do Livro de Samuel, da Bíblia -- "Continuará a espada devorando?" --, ele respondeu com desdém:
"Um povo normal não faz esse tipo de pergunta".
E o jornalista continuou: "O senhor não pretende ser um De Gaulle israelense?" Resposta:
"Com que objetivo? O problema não está em assinar um papelzinho qualquer. Eu posso lhe dar um em uma semana. E isso vai levar onde? A lugar algum".
E afirmou que a guerra da independência de Israel, começada em 1948, continua...
REJEIÇÃO AO ESTADO PALESTINO
Ariel Sharon define três objetivos para o povo de Israel: trazer para o país um milhão de judeus em 12 anos, desenvolver o deserto do Neguev (Sul de Israel) e a Galiléia, e reinstituir o ensino dos valores sionistas.
A paz não está entre as suas prioridades. E explica: "Não acho que seja o caso de querermos um objetivo tão pretensioso. Podemos contentar-nos com um acordo de não-beligerância por um prazo longo, indeterminado".
Uma Esparta dos tempos modernos, eis o que o general Sharon deseja para seu país. Pelo menos, tem o mérito da franqueza.
Sharon gostaria de transportar Israel ao período que antecedeu os acordos de Oslo (1993), quando a paz não estava na ordem do dia e o esforço prioritário era o de colonizar os territórios ocupados.
Ele já frisou que se opõe à demolição de toda e qualquer colônia, por mais distante que ela seja. Para ele, todas têm "uma enorme importância para a defesa nacional".
Sharon rejeita a criação de um Estado viável ao lado do Estado de Israel. A direção palestina aceitou, ao assinar os acordos de Oslo, um compromisso doloroso, contentando-se em ficar com cerca de 22% do território da Palestina histórica (a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, ocupadas por Israel em 1967).
Sharon aceitaria dar-lhes cerca de 40% dessa área, e desde que fossem "ilhotas" separadas, interligadas por túneis. Israel continuaria com o controle sobre Jerusalém e o Vale do Jordão, região onde o futuro Estado palestino poderia absorver grande número de refugiados. E o controle das fronteiras externas permaneceria nas mãos de israelenses.
ARAFAT, O "CHEFE TERRORISTA"
Para chegar a esses objetivos, o primeiro-ministro tem plano, em duas etapas. A primeira, seqüência da política de seu antecessor, Ehud Barak, resumiu da seguinte forma: "Ataques militares contra Arafat para o enfraquecer e diminuir seu prestígio junto a seu povo¹".
Não se trata de realizar ataques espetaculares, que poderiam ser contraproducentes e provocar críticas no cenário internacional.
É um plano que vem sendo realizado diariamente: destruição de posições e bases das forças palestinas através de tiros de blindados ou de tanques; um atirador de elite assassinando um militar ou um ativista da Autoridade Palestina ou do Fatah, coluna vertebral do regime; derrubada de dezenas de casas num campo de refugiados, em Gaza; devastação de campos de cultivo, derrubada de árvores e, naturalmente, bloqueio do acesso a cidades e aldeias, o que torna a vida cotidiana insuportável.
A imaginação destruidora não tem limites. Sharon disse aos militares: "Não se trata de falar, mas de agir. Todos os dias". Paralelamente, vem se desenvolvendo uma campanha de propaganda odiosa contra Yasser Arafat, com o objetivo de o desacreditar e de minar a sua legitimidade.
Essa campanha teve início após a recusa, por parte de Arafat, de concordar com as ordens que lhe foram dadas em Camp David, em julho de 2000².
Sharon referiu-se a Arafat como "chefe terrorista". Os ministros extremistas -- há vários deles, no governo de Sharon -- conclamam abertamente à "liquidação de Arafat".
Outros propõem impedir o acesso do líder palestino às zonas autônomas. Há várias semanas, ele deixou de ter o direito de utilizar seu helicóptero pessoal e vem sendo obrigado a utilizar o do rei Abdallah, da Jordânia.
¹ Yedioth Aharonoth, 13 de abril de 2001.
² Ver o mapa, com as propostas israelenses, publicado na edição de dezembro de 2000 de Le Monde Diplomatique.
(*) Jornalista, Jerusalém. Tradução: Jô Amado