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RC
10-04-2003, 16:22
Os Estados Unidos da Amnésia

Carlos Fuentes *

Sem a França, os Estados Unidos não existiriam. A sábia firmeza da França pode abrir a perspectiva de uma ordem mundial fundamentada no direito. Os Estados Unidos parecem querer ignorar esta possibilidade.

A ridícula francofobia que vem sendo desenvolvida pelos "patrioteiros" norte-americanos mais ensandecidos prova sobretudo que a superpotência mereceria às vezes ser chamada de "os Estados Unidos da Amnésia".

Pois é possível afirmar sem hesitação que, sem a França, os Estados Unidos não existiriam. Sem o apoio da monarquia francesa, é provável que George Washington (1732-1799) e seus homens não teriam vencido a guerra da Independência. É certo, em todo caso, que eles a ganharam graças ao poderoso apoio que receberam então da França. Em 1776, Benjamin Franklin (1706-1790) apresentou-se em Paris na qualidade de embaixador da revolução, na corte do rei da França (onde ele chamou a atenção pela simplicidade republicana de seu estilo de ser, e pela rapidez e o brio de sua inteligência). Naquele mesmo ano, o rei Luís 16 autorizou a entrega gratuita de munições por um montante de 1 milhão de livras para os exércitos de George Washington.

A ajuda francesa salvou George Washington durante o cruel inverno de 1777: as forças revolucionárias, então sitiadas dentro da cidade de Morristown e enfraquecidas pelas deserções, foram salvas pela ajuda da França.

Em 1778, foi assinado o tratado de amizade e de comércio entre a França e a colônia rebelde da América do Norte. Este tratado incluía uma cláusula da nação mais favorecida e obrigava a França a garantir a independência dos Estados Unidos da América. Numa conseqüência lógica deste tratado que foi ratificado em fevereiro, a guerra entre a Inglaterra e a França foi declarada em junho.

Um grande número de oficiais franceses de alta patente interveio diretamente para apoiar George Washington e seus rebeldes.

Uma primeira frota francesa, liderada por Charles Hector d'Estaing (1729-1794 - um sobrenome que seria ilustrado mais tarde pelo presidente Valéry Giscard d'Estaing), foi enviada para bloquear os ingleses dentro do porto de Nova York em 1778.

O marquês de La Fayette (1757-1834), que resolvera financiar a sua empreitada literalmente "por meio de seus ganhos pessoais", juntou-se às forças revolucionárias e foi nomeado em 1777 (da mesma maneira que ocorreria cerca de dois séculos mais tarde, em Cuba, com o argentino Ernesto "Che" Guevara) para o comando da revolução. Desde 1776, ele havia convencido o rei Luís 16 a enviar um corpo expedicionário de 6 mil homens para combater ao lado de George Washington.

O fim da guerra da Independência dos Estados-Unidos não teria sido sequer concebível sem a intervenção decisiva das forças armadas francesas. Em 1780, a frota francesa do almirante de Grasse (1722-1788) bloqueou o exército inglês na Virgínia, retirando-lhe toda possibilidade de fuga pelo mar. No mesmo momento, sempre na Virgínia, o conde de Rochambeau (1725-1807) e suas forças faziam frente às tropas do general inglês Charles Manne Cornwallis (1738-1805). O sítio conduzido pela frota francesa e o apoio militar proporcionado ao exército revolucionário de George Washington selaram o destino da Inglaterra nas suas treze colônias. Cornwallis foi forçado a capitular em outubro de 1780 e, com isso, a independência dos Estados Unidos estava definitivamente adquirida.

Quando ele chegou à França, um dos primeiros atos do general John Pershing (1860-1948), comandante-chefe do corpo expedicionário americano durante a primeira Guerra mundial, foi prestar uma homenagem solene diante do túmulo do herói francês da revolução americana, pronunciando a frase histórica: "La Fayette, nous voilà!" ("La Fayette, aqui estamos!").

Mas o general Pershing tinha um senso da honra militar e do reconhecimento nacional do qual carece totalmente o colérico e sanguinário secretário da Defesa do governo Bush, Donald Rumsfeld. O fato de que Rumsfeld tenha sido o primeiro a celebrar a aliança dos Estados Unidos com Saddam Hussein em 1983, fornecendo-lhe as armas de destruição maciça que hoje alimentam os pesadelos do Drácula do Pentágono, é uma prova entre outras da existência de uma dupla verdade. Os Estados Unidos são o Dr Frankenstein do mundo moderno, especialistas em criar os seus próprios monstros que, mais tarde, se voltam contra os seus criadores.

Saddam Hussein no Iraque e Bin Laden no Afeganistão são crias da política externa obtusa, mercenária e contraditória de uma nação que, contudo, sabe ser, quando ela quer, ao mesmo tempo clarividente e pragmática. Que tal tentarmos imaginar o que seria o mundo hoje se Bill Clinton ainda estivesse na Casa Branca ou se Al Gore tivesse vencido as últimas eleições presidenciais (as quais, na realidade, ele venceu, pelo voto popular, mas acabou não levando)?

Bill Clinton cumpriu as suas inevitáveis obrigações de chefe da superpotência com uma discrição, uma capacidade de negociação e de incentivo de alianças que permaneceram completamente alheias às barulhentas manifestações de maniqueísmo ("Quem não está conosco está contra nós", "o eixo do Mal") do evangelista coberto de pistolas que lhe sucedeu na Casa Branca. Clinton ou Gore, estou convencido disso, teriam concentrado os esforços de sua nação, depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, no combate contra o terrorismo, um inimigo que não é convencional e, portanto, não pode ser combatido por meios convencionais, em vez de desviar as suas forças para travar a guerra contra o Iraque, sacrificando com isso a solidariedade mundial.

Bush e Cia, por meio de suas ações temperamentais e destruidoras da ordem internacional, vão transformar o mundo num próspero criadouro de terroristas. Bin Laden dispõe hoje, graças à cegueira do atual governo dos Estados Unidos, um exército de terroristas potenciais que - ô ironia! - não mais precisarão preocupar-se com a repressão antifundamentalista de Saddam Hussein que os ameaçava.

Mais, ao que tudo indica, estamos diante de algo ainda mais grave: é a consagração pela Casa Branca do princípio da guerra preventiva. Se a guerra fria acabou não ficando quente, foi porque prevaleceram a dissuasão e a contenção. Estes princípios tendo sido substituídos pelo uso discricionário da força, toda nação que se opõe a uma outra pode, daqui para frente, considerar-se autorizada a desfechar o primeiro golpe. O exemplo mais contundente desta doutrina, no passado, é o ataque de Pearl Harbor pelo Japão, em 7 de dezembro de 1941. "Um dia que permanecerá nos anais da infâmia", declarou então o maior presidente americano do século 20, Franklin D. Roosevelt (1882-1945).

Será que o ataque contra o Iraque ficará na história como sendo um outro "dia infame"? Não sei dizer. Mas, sendo ou não infame, ele é, e permanecerá, um dia perigoso. Se a comunidade internacional não conjugar os seus esforços para criar uma ordem jurídica e política vigorosa para o século 21, caminharemos aos trancos e barrancos, de crise em crise, para um abismo, o qual, por sua vez, tem um nome: o apocalipse nuclear.

É por estas razões que a sábia firmeza da França, de seu presidente Jacques Chirac e de seu ministro das Relações Exteriores, Dominique de Villepin, não constitui apenas uma chance para o mundo, mas também para os próprios Estados Unidos da América, pelo fato de abrir a perspectiva de uma ordem mundial fundamentada no direito.

Sem memória e sem miolos, ignorante, o atual governo americano não entende estas razões. Os ultras do Norte acreditam estar ofendendo a França - ridiculamente -, mudando o nome das batatas "fritas" - "french fries" - para batatas "livres" - "freedom fries". Eles vão provavelmente parar de beber água mineral de Evian durante um certo tempo e champanhe por um tempo não tão longo.

Mas, na entrada da baía de Nova York onde ela se ergue, a estátua da Liberdade - uma doação da França aos Estados Unidos - está aí para lembrar aos americanos que, se eles acreditam ter salvado a França por ocasião de duas guerras mundiais, a França, por sua vez, não só salvou, como também ajudou de maneira decisiva a fundar os Estados Unidos da América.

* Carlos Fuentes é escritor mexicano, nascido em 1928.

Traduzido do espanhol (México) por François Maspero.
Traduzido do francês por Jean-Yves de Neufville.


nota: Tirei este mensagem de outro forum
http://www.forumnow.com.br/vip/foruns.asp?forum=32123

Anonymous
13-04-2003, 11:16
A questão de quanto a América deve à França é bastante controversa. É verdade que ajudaram, mas apenas depois da primeira vitória americana. Todas as provas indicam que os Estados Unidos poderiam ter vencido na mesma, visto que as suas tácticas eram completamente diferentes daquelas utilizadas pelos ingleses. Quanto à marinha, é verdade que os Franceses ajudaram, mas os americanos já tinham uma marinha embrionária forte (basta lembrar os ataques de John Paul Jones).

Os americanos não se esqueceram do que os franceses fizeram no século dezoito, mas iss foi à mais de duzentos anos atrás. A irritação que os americanos sentem em relação aos franceses deve-se À sua hipocrisia gritante durante toda esta situação.

RC
13-04-2003, 13:34
Bem com esse tipo de argumentação, a europa pode também dizer que não precisava dos EUA na 2ª guerra mundial.

Claro que os americanos ajudaram a acabar mais depressa, tal como a França o fez na guerra pela independencia dos EUA.
Dizer que foi simplesmente á mais de 200 anos também é um mau argumento.
Pois a hegemonia americana só é explicada vendo toda a sua história.
Felizmente ou infelizmente depende do ponto de visto individual esse imperio caminha para o fim, isto se não alterar profundamente a sua politica, muitos dirão como é isso possivel com poder imenso militar que eles têm e já sem falar do poder economico. O imperio romano era mais forte do que todos os povos em seu redor mas os ataques vindos de todo o lado impediram o seu sucesso contra essas forças inferiores, os EUA têm o mesmo problema só que á escala mundial e se não fossem hipocritas nos seus argumentos teriam que atacar o irão, siria, libia, sudão, somalia, arabia saudita, coreia do norte, (o seu aliado ISRAEL), etc. Qualquer pessoa percebe que o ataque simultaneo a diversos paises por parte dos EUA é impossivel sem graves consequencias ao nivel economico (a sua hegemonia economica acabaria), logo o seu imperio acabaria, a outra solução seria usar as armas de destruição massiça mas que mundo iriam ter depois talvez ninguém, acho que também não é uma boa solução.
Mas podem sempre fazer aquilo que dizem e não cumprem habitualmente levar a democracia real ao Iraque(isto se os EUA vivessem numa verdadeira democracia), porque o caso do Iraque está longe do fim e um fracasso será um sinal gigantesto de fraqueza dos EUA (fracasso leia-se nada a haver com o sucesso militar), para que não aconteça como no afeganistão onde parece que o mundo esqueceu mas os criminosos talibans começaram-se a organizar de novo no afeganistão.

Bem esta ideia não é original mas também poderia ser uma solução, polémica de certeza, a anexação do Iraque podia ser uma ideia engraçada.

Pois America um país que eu admiro embora não pareça por vezes, pode sozinho fazer tudo, mas a ver vamos o que fazem na Coreia do Norte, país que afirmou alto e em bom som que tinha as armas que estiveram na base da justificação americana para a intervenção militar no Iraque( ainda não vi nenhuma...) e a coreia do norte também é uma ditadura e ameaçou os seus vizinhos(logo uma ameaça á paz, hipocritas e cinicos veremos quem serão no futuro).


Os EUA fortes é bom , mas juntando outro bloco seja a Russia, china, Europa ou outro qualquer para fazer oposição seria muito melhor, Europa deve ser aliada mas deve pensar por si e não seguir os EUA em tudo, deve servir para resfriar o belicismo americano, mas tal só é possivel se tivessem forças armadas fortes, porque estar dependente militarmente cria o desrespeito dos Americanos, estes nunca quizeram saber a opinião europeia, os europeus só servem para dar poder politico aos actos americanos nada mais (o que deixou os americanos furiosos, foi descobrirem que por vezes os europeus nem para isso servem...)

Bem sou um comentário a " A irritação que os americanos sentem em relação aos franceses deve-se À sua hipocrisia gritante durante toda esta situação."

Hipocrisia, os EUA foram defender os seus interesses tal como a França
Os franceses tinham negocios com Iraque por aproveitarem o lugar deixado vago pelos EUA depois da guerra do golfo.
Os EUA agora fazem isto tudo para recuperar o seu lugar, e se esquecerem que para tal tiveram que passar por cima dos seus aliados, e se em seguida não os incluirem mesmo que em pequena escala nos seus negocios, a ver vamos em que estado ficam as relações com a França, Alemanha e Russia, que são muitos importantes para a paz mundial que ninguém tenha duvidas, mas acho que apesar de tudo e de forte oposição interna o governo dos EUA, parecem não os querer esquecer.
Porque mesmo se não se dão a 100% é bom manter o relacionamento mais ao menos bom, a europa precisa e os EUA também, as dois lados são interdependentes economicamente.


saudações
Ricardo Correia