Tayeb
25-07-2002, 14:48
Assalamu-alaikum ya Muslimin e saudações a todos os não-Muçulmanos:
Um artigo que serve de reflexão - embora um pouco antigo - muito actual.
Leia-o p.f. e divulge-o.
Wa-salaam,
Tayeb
-----------------
Em Nome de Deus, Clemente e Misericordioso
A Noite e o Dia
Tivemos recentemente oportunidade de ler dois livros publicados em Portugal sobre temá tica Islâmica. Um deles, publicado pela editora "Estratégias Criativas", em 1995, intitula-se: "Lição ?Introdução Sociológica ao Islão" e foi apresentado por Moisés Espírito Santo como lição para a obtenção do grau de Professor Agregado em Sociologia das Religiões na Universidade Nova de Lisboa.
O outro, amável oferta do nosso bom amigo Dr. José Felicidade Alves que muito agradecemos, intitula-se "Cristianismo/Islamismo". Publicado pela "Editorial Perpétuo Socorro" do Porto, em 1991, tem por autor Robert Caspar, um dos peritos do Concílio Vaticano II, Professor de Teologia Islâmica e membro do Conselho Pontifício para o diálogo entre as Religiões.
A Noite e o Dia ... Será talvez esta a expressão que melhor ajudará o leitor a situar-se numa análise comparativa dos dois estudos.
Se por um lado é triste, penoso e confrangedor assistir a uma repelente "Lição" tão mal intencionada, tão ignorante, tão contraditória, e ainda por cima, tão mal escrita, proferida por alguém que transpira ódio ao Islão por todos os poros, por outro lado é espiritualmente enriquecedor ler a verdadeira "Lição" de imparcialidade e objectividade que o Padre Robert Caspar nos dá no seu livro, cuja leitura, escusado será dizer, recomendamos a todos, em particular aos Muçulmanos.
Que não haja mal-entendidos: não estamos a sugerir que os Muçulmanos passem a ler indiscriminadamente, obras de autores Cristãos para obterem uma espécie de "validação" do Islão. Aliás, o proveito retirado dessas leituras provavelmente não compensaria o grande esforço despendido na compreensão da inextricável confusão em que está mergulhada a teologia Cristã. Mas este livro pode permitir-nos a nós, Muçulmanos vivendo num Ocidente de inspiração Cristã, argumentar a favor do Islão, invocando uma autoridade do Cristianismo .
A Noite e o Dia ...
É obviamente impossível, [e está para além das nossas possibilidades neste momento], efectuar em poucas linhas uma análise comparativa do conteúdo das duas obras, pelo que optamos por transcrever algumas passagens que, não apenas dêem ao leitor uma imagem do "ambiente" que se respira em cada um dos livros, como também permitam comparar alguns enunciados.
Primeiro a Noite ...
«O islão é uma religião tribal: a oração só tem valor recitada na língua árabe e o sistema normativo islâmico, indispensável para a Salvação, segundo o Corão, foi o das tribos Árabes, não é de nenhum modo universal.» (p.9)
«Com tais diferenças, o islão situa-se num campo muito diferente do cristianismo. São dois sistemas religiosos diferentes, difíceis de conciliar. A proposta moderna de ecumenismo provém do idealismo; é uma proposta generosa frequente nos meios eruditos pouco conhecedores das teologias.» (p.10)
«É absolutamente certo que Mohamed destinou o Corão à Península da Arábia e com exclusão das comunidades cristãs e judaicas. Prova disso são os elogios do Corão às duas religiões do Livro (que considera revelad as) e o preceito bem explícito de os cristãos, os judeus, "os sabeus" (que se desconhece quem fossem) e os zoroastrianos que viviam entre os árabes não serem obrigados a converter-se ao islão [...]» (p.13)
«O Islão pós-mohamediano não prevê o proselitismo e a adesão pela fé que é a condição indispensável do cristianismo. Os únicos meios previstos são a guerra santa e a reprodução demográfica». (p. 14)
«A diferença entre o cristianismo e o islão é um abismo. O islão é uma religião natural e expressão ideológica da pertença a uma cultura, nação ou tribo, uma ordem social em que a religião se confunde com os valores da tribo fora da qual todos são inimigos». (p.15)
«Nem o próprio profeta do islão foi um santo como tal se entende nas outras religiões, foi um homem como os outros: os mesmos acessos de cólera, os mesmos actos de vingança, os defeitos de cada homem. Citamos Renan: "Ele é derrotado, ele engana-se, ele recua, ele corrige-se, ele contradiz-se. Os muçulmanos reconhecem 225 passagens corânicas que foram depois revogadas pelo mesmo autor com vistas a outra política. [...] Permitia os assaltos nas estradas, dirigia os assassinatos, mentia e aconselhava a mentir como estratagema"». (p.- 16)
«A defesa que o islão faz da luxúria sexual situa-o nos antípodas da religião de Jesus. O facto de o Profeta, na idade de 50 anos, ter adquirido uma nova esposa, Aisha que será a "sua esposa preferida" que tinha então 6 anos e de ter consumado o casamento dois anos depois (tendo ela 8 anos) afigura-se insuportável a um religioso do Ocidente». (p. 17)
«As motivações da guerra santa do Profeta nem sempre eram nobres se as julgarmos pelos padrões ocidentais; o despojo de guerra regulamentado pelo Corão podia até ser o único objectivo do islão expansionista. O Profeta tinha direito a um quinto dos bens tomados aos vencidos, para além da parte individual que cabia a qualquer guerreiro. A luxúria e o uso da mulher aparecem como um dos pretextos da guerra santa e da aquisição de riqueza em geral, podendo os despojos de guerra serem materializados em escravas para os haréns». (p.19)
«A medicina, a filosofia, a matemática medievais não se devem ao islão. A bacia do Mediterrâneo, que sempre foi alfobre de cientistas e filósofos, é que estava dominada pelo islão e elas passaram através, do Islão, malgré lui. Diz ainda Renan [sempre Renan...]: "O movimento científico só recebeu do islão maldições"».(p. 56)
Agora o Dia...
«O Islamismo e o mundo muçulmano aparecem, com efeito, as mais das vezes como uma ameaça para o Ocidente: o Islamismo, eis o inimigo! E bons apóstolos precisam: "É o maior perigo para o Cristianismo actual". Alguns politólogos vêem um perigo de guerra mais ou menos generalizada no afrontamento entre o Islão e o Ocidente, ou entre Israel e os Palestinianos ? o que equivale ao mesmo. "O Islão, dizia-me recentemente um militar de alta patente, é como um lago de represa, que faz pressão contra a barragem e que, ao crescer, acabará por fazê-la voar em pedaços para destruir todo o vale" (da civilização cristã ocidental). Dizia-se o mesmo acerca do comunismo marxista, sobretudo depois da última guerra mundial. Todos sabemos o que aconteceu. Mas sobretudo ignora-se que o mundo muçulmano, especialmente o mundo arabo-muçulmano, diz o mesmo há mais de cem anos, e com muito mais razão, da hegemonia cristã ocidental nos domínios do político, do económico, do cultural. E é precisamente a reacção contra esta influência do imperialismo ocidental o principal factor da emergência da vaga islâmica.» [...] «O medo actual ressuscita velhos demónios que pensávamos esquecidos: a Cruzada, o Turco avançando sobre o coração da Europa, o colonialismo, a guerra da Argélia ... E, como a melhor maneira de combater um inimigo é caricaturar o seu pensamento, o Islão é o fanatismo, o fatalismo, o conluio ? e até a confusão ? entre o espiritual e o temporal que o Ocidente cristão ou pós-cristão se orgulha de distinguir (desde quando? em toda a parte?). Como também se envaidece de ser o único a respeitar os direitos do homem.
O erro mais frequente e mais nocivo na opinião pública, cristã ou não, consiste em ver o Islão como um bloco monolítico e reduzi-lo ao Islamismo, reduzindo este ao djihad, traduzido tendenciosamente por «guerra santa». Ora o Islão é, na realidade, como que um mosaico despedaçado e a tendência islâmica, rebaptizada, de uma maneira muito discutível, «integrista» (palavra vinda do catolicismo) ou «fundamentalista» (termo de origem protestante), não representa mais que um décimo do mundo muçulmano, mesmo incluindo nele todo o Irão.» (p. 6-7)
«O viajante ou o observador mais prevenido a respeito do Islão não pode atravessar um país muçulmano sem ser tocado pelo clima religioso que aí reina. Os altifalantes poderosos dos minaretes, e até dos cafés, marcam o ritmo do dia com cinco chamamentos à oração. A Rádio e a Televisão começam e terminam pelo Alcorão. O nome de Deus e as fórmulas que O invocam e O louvam a todo o momento estão continuamente na boca até dos "descrentes". À sexta-feira, as mesquitas enchem-se, sobretudo no Oriente, e transbordam até à rua, onde as filas de fiéis cumprem os ritos da oração num conjunto impressionante.
É certo que a secularização prossegue o seu avanço, sem dúvida inexorável, em território muçulmano, como acontece em zonas cristãs, a começar pelas cidades». (p. 23)
«Diremos que para nós, cristãos, o Alcorão não é a Palavra de Deus? Veremos adiante que um cristão de hoje não pode limitar-se a este julgamento sumário. Mas, mesmo que o pudesse fazer, não seria menos verdade que a atitude da fé muçulmana é aquilo a que chamamos "sobrenatural". E por detrás desta palavra incongruente há uma atitude fundamental de toda a verdadeira fé: acreditar em Deus, pela Sua Palavra que se inseriu na história dos homens, em vez de inventar um Deus pela razão e à sua medida.
O Vaticano II (Nostra Aetate, nº 3) sublinhou este valor essencial da fé muçulmana: "Eles [os muçulmanos] crêem em Deus que falou aos homens". É esta fé, sem dúvida, que mais aproxima as nossas duas (ou três) religiões, apesar da divergência, também essencial, acerca da identidade desta Palavra de Deus, em Jesus Cristo ou no Alcorão.» (p.27)
«Os peregrinos cristãos da Idade Média, ao atravessarem os países muçulmanos no caminho para Jerusalém e, no entanto, fortemente prevenidos contra esta religião "diabólica", não podiam impedir-se de admirar este fervor da fé muçulmana e de desejar que os cristãos se "edificassem" com ele, no sentido de S. Paulo». (p.31)
«Será o Islamismo uma "religião natural"? É, em boa parte, verdade. Mas só em parte. A atitude da fé muçulmana é "sobrenatural". E o rigor do monoteísmo muçulmano não é assim tão natural ao homem». (p.32)
«Este testemunho da fé muçulmana assumiu muitas formas no decorrer da história, desde o corajoso testemunho de alguns justos perante os excessos e prevaricações dos dirigentes até às formas mais militantes e militares. Devemos assinalar também que tem excepções, baseadas no Alcorão (2:178; 16:105); em caso de força maior, pode-se "esconder a fé" (taqiyya), declarar-se diferente do que realmente se é, com a condição de a preservar no coração. Os doutores "ortodoxos" sunitas admitem-no. Os xiitas, quase sempre minoritários e perseguidos, fazem disso um princípio. Os caridjitas discutem-no ... Bastará recordar o caso dos mouriscos:os muçulmanos que ficaram em Espanha depois da "reconquista" cristã, convertidos à força ao Cristianismo depois de algum tempo de tolerância, e continuando secretamente muçulmanos antes de serem definitivamente expulsos». (p.35)
«A palavra [djihad], os seus derivados (mudjahid: o "combatente" da fé) e o seu emprego no Alcorão têm, em primeiro lugar e fundamentalmente, o sentido de "fazer esforço", habitualmente completado por "no caminho de Deus". Trata-se de todo o esforço para fazer valer os direitos de Deus em todos os domínios da vida.
A tradição muçulmana distingue diversas maneiras de exercer esse "esforço" e privilegia uma ou outra consoante as épocas, as circunstâncias ou as tendências pessoais.
O mais frequente é o esforço para estender a religião de Deus, o Islamismo, ao mundo inteiro. É que o Islamismo define-se como religião de vocação universal.» (p.56)
«O Evangelho não é um esboço de Constituição para uma sociedade humana fundada na religião, como acontece com o Alcorão». (p.60)
«Mas o demasiado célebre "Crê ou morres" imputado ao Islamismo é, em grande parte, uma lenda». (p.61)
«Quanto ao "martírio" dos cristãos de Córdova (850-859) e de Marraquexe (1220-1221), o menos que se pode dizer é que foram eles que o procuraram». (p.62)
«Dizíamos, ao princípio, que o mundo muçulmano, apesar dos progressos reais de uma secularização prática, continua ainda muito largamente dominado pelo sentido do sagrado, alimentado, ao mesmo tempo, por um autêntico sentido de deus e pelas múltiplas manifestações do instinto religioso.
Certos Ocidentais, sem dúvida baptizados, mas que "ultrapassaram o estádio da fé", admiram-se com isso, irritam-se e estão prontos a ajudar estes povos a libertarem-se destas crenças "medievais". Isto pode levá-los a atitudes e reflexões de desprezo supremo pelos "subdesenvolvidos". Podemos perguntar-nos, neste caso, quem é o subdesenvolvido.
O cristão verdadeiramente crente, pelo contrário, sentir-se-á nisto à vontade e comungará espontaneamente neste sentido de Deus. Em compensação, beneficiará, da parte dos seus amigos muçulmanos, de uma amizade e abertura de coração que constantemente nos espantam. Padres e religiosas têm essa experiência diária e frequentemente emocionante. É bastante paradoxal verificar que o padre e a religiosa, que tendem a banalizar-se no Ocidente, são mais reconhecidos e estimados como tais em países muçulmanos. Acontece-lhes terem de se proteger para não beneficiarem injustamente de privilégios fiscais... ».
«Como todos os padres, religiosos e religiosas e até leigos, li um número incalculável de obras sobre a oração e a vida de oração. Ouvi exposições e participei em retiros e recolecções em número também incalculável. Mas nunca fui tão profundamente tocado como, numa dessas recolecções, ouvir um muçulmano expor-nos, de coração aberto e com toda a simplicidade, o que era a sua vida de oração». (p.71)
«Ora, o ritmo da vida ocidental é ainda mais contrário à observância dos ritos e das obrigações do Islamismo que o ritmo dos países muçulmanos relativamente ao cristianismo. As grandes festas cristãs são geralmente feriado, pelo menos uma parte, para os cristãos em países muçulmanos. O que não acontece no tocante às grandes festas muçulmanas em país cristão, para não falar do Ramadão e das cinco orações diárias. Um sábio muçulmano [Mohammad Hamidullah, "Relations of Muslims with non-muslims", J.Inst. of Muslim Minority Affairs, vol VII, nº2 (Jan 1988), 7-12], que vive em Paris escreveu um artigo mostrando a impossibilidade de praticar as obrigações muçulmanas - concebidas, é verdade, num sentido rigorista - em país não-muçulmano». (p.74)
«Sabe-se que o próprio Jesus não empregou esta palavra [Trindade], que está ausente de todo o Novo Testamento».(p.88)
«Concluindo, poderemos responder à pergunta posta pelos muçulmanos algumas vezes e muitas vezes por cristãos: os cristãos e os muçulmanos adoram o mesmo Deus?
A pergunta está mal feita. Na medida em que a fé em Deus for sincera, tanto no cristão como no muçulmano, nessa mesma medida atingirá Deus, que é único, embora os caminhos sejam, em parte, diferentes. Por aí se vê como é falso obstinar-se em transcrever o Deus do Islamismo por Alá, como se se tratasse de um Deus diferente do nosso, a menos que seja por uma vontade de exotismo, sem segunda intenção teológica. Não só os cristãos Árabes chamavam a Deus Alá muito antes do Islamismo e ainda hoje o nomeiam assim, como até a própria palavra Deus é o aportuguesamento do termo latino (ou grego) do paganismo pré-helénico.[...]
Assim, cristãos e muçulmanos adoram exactamente o mesmo Deus, embora o caminho que a Ele conduz seja, em parte, diferente. O Concílio Vaticano II disse-o claramente: "(Os muçulmanos) que adoram connosco o Deus único..." («Constituição sobre a Igreja» , Lumen Gentium, nº 16, no fim)». (p.90)
«[...] a notável conferência do cardeal Tarancón, então arcebispo de Madrid e presidente da conferência episcopal de Espanha, na abertura do II Congresso Islâmico-Cristão de Córdova, em 21 de Março de 1977. Nele convida os cristãos não só a respeitarem Maomé, o profeta do Islamismo, mas também a procurarem as razões que "devem incitar o cristão a estimar Maomé, baseando-se na fé cristã e nos métodos da nossa tradição teológica". E realça duas qualidades eminentes em Maomé: a sua fé em Deus único e a sua sede de justiça (Doc. Cath., 1977, p.480 a 483). Por outro lado, podemos lastimar que outras palavras da Igreja, pelo menos em certos países, pareçam mais preocupadas em acautelar dos perigos, reais ou supostos, que o Islamismo representa [...] para o cristianismo e para a civilização chamada cristã, do que em convidar, como o faz o Papa, a uma maior compreensão e a uma verdadeira fraternidade». (p. 192).
Por Muhammad Madureira, publicado na revista islâmica Al-Furqán
Um artigo que serve de reflexão - embora um pouco antigo - muito actual.
Leia-o p.f. e divulge-o.
Wa-salaam,
Tayeb
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Em Nome de Deus, Clemente e Misericordioso
A Noite e o Dia
Tivemos recentemente oportunidade de ler dois livros publicados em Portugal sobre temá tica Islâmica. Um deles, publicado pela editora "Estratégias Criativas", em 1995, intitula-se: "Lição ?Introdução Sociológica ao Islão" e foi apresentado por Moisés Espírito Santo como lição para a obtenção do grau de Professor Agregado em Sociologia das Religiões na Universidade Nova de Lisboa.
O outro, amável oferta do nosso bom amigo Dr. José Felicidade Alves que muito agradecemos, intitula-se "Cristianismo/Islamismo". Publicado pela "Editorial Perpétuo Socorro" do Porto, em 1991, tem por autor Robert Caspar, um dos peritos do Concílio Vaticano II, Professor de Teologia Islâmica e membro do Conselho Pontifício para o diálogo entre as Religiões.
A Noite e o Dia ... Será talvez esta a expressão que melhor ajudará o leitor a situar-se numa análise comparativa dos dois estudos.
Se por um lado é triste, penoso e confrangedor assistir a uma repelente "Lição" tão mal intencionada, tão ignorante, tão contraditória, e ainda por cima, tão mal escrita, proferida por alguém que transpira ódio ao Islão por todos os poros, por outro lado é espiritualmente enriquecedor ler a verdadeira "Lição" de imparcialidade e objectividade que o Padre Robert Caspar nos dá no seu livro, cuja leitura, escusado será dizer, recomendamos a todos, em particular aos Muçulmanos.
Que não haja mal-entendidos: não estamos a sugerir que os Muçulmanos passem a ler indiscriminadamente, obras de autores Cristãos para obterem uma espécie de "validação" do Islão. Aliás, o proveito retirado dessas leituras provavelmente não compensaria o grande esforço despendido na compreensão da inextricável confusão em que está mergulhada a teologia Cristã. Mas este livro pode permitir-nos a nós, Muçulmanos vivendo num Ocidente de inspiração Cristã, argumentar a favor do Islão, invocando uma autoridade do Cristianismo .
A Noite e o Dia ...
É obviamente impossível, [e está para além das nossas possibilidades neste momento], efectuar em poucas linhas uma análise comparativa do conteúdo das duas obras, pelo que optamos por transcrever algumas passagens que, não apenas dêem ao leitor uma imagem do "ambiente" que se respira em cada um dos livros, como também permitam comparar alguns enunciados.
Primeiro a Noite ...
«O islão é uma religião tribal: a oração só tem valor recitada na língua árabe e o sistema normativo islâmico, indispensável para a Salvação, segundo o Corão, foi o das tribos Árabes, não é de nenhum modo universal.» (p.9)
«Com tais diferenças, o islão situa-se num campo muito diferente do cristianismo. São dois sistemas religiosos diferentes, difíceis de conciliar. A proposta moderna de ecumenismo provém do idealismo; é uma proposta generosa frequente nos meios eruditos pouco conhecedores das teologias.» (p.10)
«É absolutamente certo que Mohamed destinou o Corão à Península da Arábia e com exclusão das comunidades cristãs e judaicas. Prova disso são os elogios do Corão às duas religiões do Livro (que considera revelad as) e o preceito bem explícito de os cristãos, os judeus, "os sabeus" (que se desconhece quem fossem) e os zoroastrianos que viviam entre os árabes não serem obrigados a converter-se ao islão [...]» (p.13)
«O Islão pós-mohamediano não prevê o proselitismo e a adesão pela fé que é a condição indispensável do cristianismo. Os únicos meios previstos são a guerra santa e a reprodução demográfica». (p. 14)
«A diferença entre o cristianismo e o islão é um abismo. O islão é uma religião natural e expressão ideológica da pertença a uma cultura, nação ou tribo, uma ordem social em que a religião se confunde com os valores da tribo fora da qual todos são inimigos». (p.15)
«Nem o próprio profeta do islão foi um santo como tal se entende nas outras religiões, foi um homem como os outros: os mesmos acessos de cólera, os mesmos actos de vingança, os defeitos de cada homem. Citamos Renan: "Ele é derrotado, ele engana-se, ele recua, ele corrige-se, ele contradiz-se. Os muçulmanos reconhecem 225 passagens corânicas que foram depois revogadas pelo mesmo autor com vistas a outra política. [...] Permitia os assaltos nas estradas, dirigia os assassinatos, mentia e aconselhava a mentir como estratagema"». (p.- 16)
«A defesa que o islão faz da luxúria sexual situa-o nos antípodas da religião de Jesus. O facto de o Profeta, na idade de 50 anos, ter adquirido uma nova esposa, Aisha que será a "sua esposa preferida" que tinha então 6 anos e de ter consumado o casamento dois anos depois (tendo ela 8 anos) afigura-se insuportável a um religioso do Ocidente». (p. 17)
«As motivações da guerra santa do Profeta nem sempre eram nobres se as julgarmos pelos padrões ocidentais; o despojo de guerra regulamentado pelo Corão podia até ser o único objectivo do islão expansionista. O Profeta tinha direito a um quinto dos bens tomados aos vencidos, para além da parte individual que cabia a qualquer guerreiro. A luxúria e o uso da mulher aparecem como um dos pretextos da guerra santa e da aquisição de riqueza em geral, podendo os despojos de guerra serem materializados em escravas para os haréns». (p.19)
«A medicina, a filosofia, a matemática medievais não se devem ao islão. A bacia do Mediterrâneo, que sempre foi alfobre de cientistas e filósofos, é que estava dominada pelo islão e elas passaram através, do Islão, malgré lui. Diz ainda Renan [sempre Renan...]: "O movimento científico só recebeu do islão maldições"».(p. 56)
Agora o Dia...
«O Islamismo e o mundo muçulmano aparecem, com efeito, as mais das vezes como uma ameaça para o Ocidente: o Islamismo, eis o inimigo! E bons apóstolos precisam: "É o maior perigo para o Cristianismo actual". Alguns politólogos vêem um perigo de guerra mais ou menos generalizada no afrontamento entre o Islão e o Ocidente, ou entre Israel e os Palestinianos ? o que equivale ao mesmo. "O Islão, dizia-me recentemente um militar de alta patente, é como um lago de represa, que faz pressão contra a barragem e que, ao crescer, acabará por fazê-la voar em pedaços para destruir todo o vale" (da civilização cristã ocidental). Dizia-se o mesmo acerca do comunismo marxista, sobretudo depois da última guerra mundial. Todos sabemos o que aconteceu. Mas sobretudo ignora-se que o mundo muçulmano, especialmente o mundo arabo-muçulmano, diz o mesmo há mais de cem anos, e com muito mais razão, da hegemonia cristã ocidental nos domínios do político, do económico, do cultural. E é precisamente a reacção contra esta influência do imperialismo ocidental o principal factor da emergência da vaga islâmica.» [...] «O medo actual ressuscita velhos demónios que pensávamos esquecidos: a Cruzada, o Turco avançando sobre o coração da Europa, o colonialismo, a guerra da Argélia ... E, como a melhor maneira de combater um inimigo é caricaturar o seu pensamento, o Islão é o fanatismo, o fatalismo, o conluio ? e até a confusão ? entre o espiritual e o temporal que o Ocidente cristão ou pós-cristão se orgulha de distinguir (desde quando? em toda a parte?). Como também se envaidece de ser o único a respeitar os direitos do homem.
O erro mais frequente e mais nocivo na opinião pública, cristã ou não, consiste em ver o Islão como um bloco monolítico e reduzi-lo ao Islamismo, reduzindo este ao djihad, traduzido tendenciosamente por «guerra santa». Ora o Islão é, na realidade, como que um mosaico despedaçado e a tendência islâmica, rebaptizada, de uma maneira muito discutível, «integrista» (palavra vinda do catolicismo) ou «fundamentalista» (termo de origem protestante), não representa mais que um décimo do mundo muçulmano, mesmo incluindo nele todo o Irão.» (p. 6-7)
«O viajante ou o observador mais prevenido a respeito do Islão não pode atravessar um país muçulmano sem ser tocado pelo clima religioso que aí reina. Os altifalantes poderosos dos minaretes, e até dos cafés, marcam o ritmo do dia com cinco chamamentos à oração. A Rádio e a Televisão começam e terminam pelo Alcorão. O nome de Deus e as fórmulas que O invocam e O louvam a todo o momento estão continuamente na boca até dos "descrentes". À sexta-feira, as mesquitas enchem-se, sobretudo no Oriente, e transbordam até à rua, onde as filas de fiéis cumprem os ritos da oração num conjunto impressionante.
É certo que a secularização prossegue o seu avanço, sem dúvida inexorável, em território muçulmano, como acontece em zonas cristãs, a começar pelas cidades». (p. 23)
«Diremos que para nós, cristãos, o Alcorão não é a Palavra de Deus? Veremos adiante que um cristão de hoje não pode limitar-se a este julgamento sumário. Mas, mesmo que o pudesse fazer, não seria menos verdade que a atitude da fé muçulmana é aquilo a que chamamos "sobrenatural". E por detrás desta palavra incongruente há uma atitude fundamental de toda a verdadeira fé: acreditar em Deus, pela Sua Palavra que se inseriu na história dos homens, em vez de inventar um Deus pela razão e à sua medida.
O Vaticano II (Nostra Aetate, nº 3) sublinhou este valor essencial da fé muçulmana: "Eles [os muçulmanos] crêem em Deus que falou aos homens". É esta fé, sem dúvida, que mais aproxima as nossas duas (ou três) religiões, apesar da divergência, também essencial, acerca da identidade desta Palavra de Deus, em Jesus Cristo ou no Alcorão.» (p.27)
«Os peregrinos cristãos da Idade Média, ao atravessarem os países muçulmanos no caminho para Jerusalém e, no entanto, fortemente prevenidos contra esta religião "diabólica", não podiam impedir-se de admirar este fervor da fé muçulmana e de desejar que os cristãos se "edificassem" com ele, no sentido de S. Paulo». (p.31)
«Será o Islamismo uma "religião natural"? É, em boa parte, verdade. Mas só em parte. A atitude da fé muçulmana é "sobrenatural". E o rigor do monoteísmo muçulmano não é assim tão natural ao homem». (p.32)
«Este testemunho da fé muçulmana assumiu muitas formas no decorrer da história, desde o corajoso testemunho de alguns justos perante os excessos e prevaricações dos dirigentes até às formas mais militantes e militares. Devemos assinalar também que tem excepções, baseadas no Alcorão (2:178; 16:105); em caso de força maior, pode-se "esconder a fé" (taqiyya), declarar-se diferente do que realmente se é, com a condição de a preservar no coração. Os doutores "ortodoxos" sunitas admitem-no. Os xiitas, quase sempre minoritários e perseguidos, fazem disso um princípio. Os caridjitas discutem-no ... Bastará recordar o caso dos mouriscos:os muçulmanos que ficaram em Espanha depois da "reconquista" cristã, convertidos à força ao Cristianismo depois de algum tempo de tolerância, e continuando secretamente muçulmanos antes de serem definitivamente expulsos». (p.35)
«A palavra [djihad], os seus derivados (mudjahid: o "combatente" da fé) e o seu emprego no Alcorão têm, em primeiro lugar e fundamentalmente, o sentido de "fazer esforço", habitualmente completado por "no caminho de Deus". Trata-se de todo o esforço para fazer valer os direitos de Deus em todos os domínios da vida.
A tradição muçulmana distingue diversas maneiras de exercer esse "esforço" e privilegia uma ou outra consoante as épocas, as circunstâncias ou as tendências pessoais.
O mais frequente é o esforço para estender a religião de Deus, o Islamismo, ao mundo inteiro. É que o Islamismo define-se como religião de vocação universal.» (p.56)
«O Evangelho não é um esboço de Constituição para uma sociedade humana fundada na religião, como acontece com o Alcorão». (p.60)
«Mas o demasiado célebre "Crê ou morres" imputado ao Islamismo é, em grande parte, uma lenda». (p.61)
«Quanto ao "martírio" dos cristãos de Córdova (850-859) e de Marraquexe (1220-1221), o menos que se pode dizer é que foram eles que o procuraram». (p.62)
«Dizíamos, ao princípio, que o mundo muçulmano, apesar dos progressos reais de uma secularização prática, continua ainda muito largamente dominado pelo sentido do sagrado, alimentado, ao mesmo tempo, por um autêntico sentido de deus e pelas múltiplas manifestações do instinto religioso.
Certos Ocidentais, sem dúvida baptizados, mas que "ultrapassaram o estádio da fé", admiram-se com isso, irritam-se e estão prontos a ajudar estes povos a libertarem-se destas crenças "medievais". Isto pode levá-los a atitudes e reflexões de desprezo supremo pelos "subdesenvolvidos". Podemos perguntar-nos, neste caso, quem é o subdesenvolvido.
O cristão verdadeiramente crente, pelo contrário, sentir-se-á nisto à vontade e comungará espontaneamente neste sentido de Deus. Em compensação, beneficiará, da parte dos seus amigos muçulmanos, de uma amizade e abertura de coração que constantemente nos espantam. Padres e religiosas têm essa experiência diária e frequentemente emocionante. É bastante paradoxal verificar que o padre e a religiosa, que tendem a banalizar-se no Ocidente, são mais reconhecidos e estimados como tais em países muçulmanos. Acontece-lhes terem de se proteger para não beneficiarem injustamente de privilégios fiscais... ».
«Como todos os padres, religiosos e religiosas e até leigos, li um número incalculável de obras sobre a oração e a vida de oração. Ouvi exposições e participei em retiros e recolecções em número também incalculável. Mas nunca fui tão profundamente tocado como, numa dessas recolecções, ouvir um muçulmano expor-nos, de coração aberto e com toda a simplicidade, o que era a sua vida de oração». (p.71)
«Ora, o ritmo da vida ocidental é ainda mais contrário à observância dos ritos e das obrigações do Islamismo que o ritmo dos países muçulmanos relativamente ao cristianismo. As grandes festas cristãs são geralmente feriado, pelo menos uma parte, para os cristãos em países muçulmanos. O que não acontece no tocante às grandes festas muçulmanas em país cristão, para não falar do Ramadão e das cinco orações diárias. Um sábio muçulmano [Mohammad Hamidullah, "Relations of Muslims with non-muslims", J.Inst. of Muslim Minority Affairs, vol VII, nº2 (Jan 1988), 7-12], que vive em Paris escreveu um artigo mostrando a impossibilidade de praticar as obrigações muçulmanas - concebidas, é verdade, num sentido rigorista - em país não-muçulmano». (p.74)
«Sabe-se que o próprio Jesus não empregou esta palavra [Trindade], que está ausente de todo o Novo Testamento».(p.88)
«Concluindo, poderemos responder à pergunta posta pelos muçulmanos algumas vezes e muitas vezes por cristãos: os cristãos e os muçulmanos adoram o mesmo Deus?
A pergunta está mal feita. Na medida em que a fé em Deus for sincera, tanto no cristão como no muçulmano, nessa mesma medida atingirá Deus, que é único, embora os caminhos sejam, em parte, diferentes. Por aí se vê como é falso obstinar-se em transcrever o Deus do Islamismo por Alá, como se se tratasse de um Deus diferente do nosso, a menos que seja por uma vontade de exotismo, sem segunda intenção teológica. Não só os cristãos Árabes chamavam a Deus Alá muito antes do Islamismo e ainda hoje o nomeiam assim, como até a própria palavra Deus é o aportuguesamento do termo latino (ou grego) do paganismo pré-helénico.[...]
Assim, cristãos e muçulmanos adoram exactamente o mesmo Deus, embora o caminho que a Ele conduz seja, em parte, diferente. O Concílio Vaticano II disse-o claramente: "(Os muçulmanos) que adoram connosco o Deus único..." («Constituição sobre a Igreja» , Lumen Gentium, nº 16, no fim)». (p.90)
«[...] a notável conferência do cardeal Tarancón, então arcebispo de Madrid e presidente da conferência episcopal de Espanha, na abertura do II Congresso Islâmico-Cristão de Córdova, em 21 de Março de 1977. Nele convida os cristãos não só a respeitarem Maomé, o profeta do Islamismo, mas também a procurarem as razões que "devem incitar o cristão a estimar Maomé, baseando-se na fé cristã e nos métodos da nossa tradição teológica". E realça duas qualidades eminentes em Maomé: a sua fé em Deus único e a sua sede de justiça (Doc. Cath., 1977, p.480 a 483). Por outro lado, podemos lastimar que outras palavras da Igreja, pelo menos em certos países, pareçam mais preocupadas em acautelar dos perigos, reais ou supostos, que o Islamismo representa [...] para o cristianismo e para a civilização chamada cristã, do que em convidar, como o faz o Papa, a uma maior compreensão e a uma verdadeira fraternidade». (p. 192).
Por Muhammad Madureira, publicado na revista islâmica Al-Furqán