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Vizualizar Versão Completa : a guerra


RC
26-03-2003, 00:32
A guerra (artigo de Eduardo Galeano, escritor uruguaio)
[Bush] Quem o elegeu presidente do planeta? A mim, ninguém me chamou a votar nessas eleições. E a vocês? Elegeríamos um presidente surdo? Um homem incapaz de ouvir nada mais que os ecos da sua voz? Surdo perante o troar incessante de milhões e milhões de vozes que nas ruas do mundo vão declarando a paz à guerra?

Serei curioso. Em meados do ano passado, quando esta guerra estava a incubar, George W. Bush declarou que "temos de estar prontos para atacar em qualquer obscuro canto do mundo". O Iraque é, por conseguinte, um obscuro canto do mundo. Acreditará Bush que a civilização nasceu no Texas e que os seus compatriotas inventaram a escrita? Nunca ouviu falar da biblioteca de Ninive, nem da torre de Babel, nem dos jardins suspensos de Babilónia? Nunca ouviu um único dos contos das mil e uma noites de Bagdad?

Quem o elegeu presidente do planeta? A mim, ninguém me chamou a votar nessas eleições. E a vocês? Elegeríamos um presidente surdo? Um homem incapaz de ouvir nada mais que os ecos da sua voz? Surdo perante o troar incessante de milhões e milhões de vozes que nas ruas do mundo vão declarando a paz à guerra? Nem sequer foi capaz de ouvir o carinhoso conselho de Günter Grass. O escritor alemão, compreendendo que Bush tinha necessidade de demonstrar algo de muito importante ao seu pai, recomendou-lhe que consultasse um psicanalista em vez de bombardear o Iraque.

Em 1898, o presidente William McKinley declarou que Deus lhe tinha dado ordem para se apoderar das ilhas Filipinas, para civilizar e cristianizar os seus habitantes. McKinley disse que falou com Deus ao andar, à meia-noite, pelos corredores da Casa Branca. Mais de um século depois, o presidente Bush garante que Deus está do seu lado na conquista do Iraque. A que horas e em que lugar recebeu a palavra divina? E porque terá Deus dado ordens tão contraditórias a Bush e ao Papa de Roma?

Declara-se a guerra em nome da comunidade internacional, que está farta de guerras. E, como de costume, declara-se a guerra em nome da paz. Não é pelo petróleo, dizem. Mas se o Iraque produzisse rabanetes em vez de petróleo, quem se lembraria de invadir esse país? Bush, Dick Cheney e a doce Condoleezza Rice, terão renunciado realmente aos seus altos empregos na indústria petrolífera? Porquê esta sanha de Tony Blair contra o ditador iraquiano? Não será porque há 30 anos Saddam Hussein nacionalizou a britânica Irak Petroleum Company? Quantos poços espera receber José María Aznar na próxima partilha? A sociedade de consumo, petroólica, tem o pânico da síndroma da abstinência. No Iraque, o elixir negro é o menos custoso e, talvez, o mais abundante. Numa manifestação pacifista, em Nova Yorque, um cartaz perguntava: "Porque é que o nosso petróleo está debaixo das areias deles??

Os Estados Unidos anunciaram uma longa ocupação militar, depois da vitória. Os seus generais encarregar-se-ão de estabelecer a democracia no Iraque. Será uma democracia igual à que ofereceram ao Haiti, à República Dominicana ou à Nicarágua? Ocuparam o Haiti durante 19 anos e fundaram um poder militar que desembocou na ditadura de François Duvalier. Ocuparam a Dominicana durante nove anos e fundaram a ditadura de Rafael Leónidas Trujillo. Ocuparam a Nicarágua durante 21 anos e fundaram a ditadura da família Somoza.

A dinastia dos Somoza, que os marines haviam colocado no trono, durou meio século, até que em 1979 foi varrida pela fúria popular. Então, o presidente Ronald Reagan montou a cavalo e foi a correr salvar o seu país ameaçado pela revolução sandinista. A Nicarágua, pobre entre os pobres, tinha, no total, cinco elevadores e uma escada rolante, que não funcionava. Mas Reagan denunciava que a Nicarágua era um perigo; e enquanto ele falava, a televisão mostrava um mapa dos Estados Unidos tingindo-se de vermelho a partir do sul, para ilustrar a invasão iminente. O presidente Bush, copia esses discursos que semeiam o pânico? Bush diz Iraque donde Reagan dizia Nicarágua?

Títulos dos jornais, nos dias anteriores à guerra: "Os Estados Unidos estão prontos para resistir ao ataque". Recorde de vendas de fitas isoladoras, de máscaras anti-gás, de pílulas anti-radiações... Porque é que tem mais medo o carrasco do que a vítima? Só por este clima de histeria colectiva? Ou treme porque pressente as consequências dos seus actos? E se o petróleo iraquiano incendiasse o mundo? Não será esta guerra a melhor vitamina de que o terrorismo internacional está a precisar?

Dizem-nos que Saddam Hussein alimenta os fanáticos da Al Qaeda. Um viveiro de corvos para lhe arrancarem os olhos? Os fundamentalistas islâmicos odeiam-no. É satânico um país onde se vêem filmes de Hollywood, onde muitos liceus ensinam inglês, onde a maioria muçulmana não impede que os cristãos andem com a cruz ao peito e não se estranha ver mulheres de calças e blusas atrevidas. Não havia nenhum iraquiano entre os terroristas que destruíram as torres de Nova Yorque. Quase todos eram da Arábia Saudita, o melhor cliente dos Estados Unidos no mundo. Também é saudita Bin Laden, esse vilão que os satélites perseguem enquanto foge a cavalo pelo deserto, e que diz presente de cada vez que Bush precisa dos seus serviços de ogre profissional.

Sabe você que o presidente Dwight D. Eisenhower disse, em 1953, que a "guerra preventiva" era uma invenção de Adolfo Hitler? Afirmou: "Francamente, eu não levaria a sério alguém que me viesse propor uma coisa semelhante".

Os Estados Unidos são o país que mais armas fabrica e vende no mundo. É, também, a única nação que lançou bombas atómicas contra a população civil. E está sempre, por tradição, em guerra contra alguém. Quem ameaça a paz universal? O Iraque?

O Iraque não respeita as resoluções da Organização das Nações Unidas (ONU)? Respeita-as Bush, que acaba de executar o mais espectacular coice na legalidade internacional? Respeita-as Israel, país especializado em ignorá-las? O Iraque ignorou 17 resoluções da ONU. Israel, 64. Bombardeará Bush o seu mais fiel aliado?

O Iraque foi arrasado, em 1991, pela guerra de Bush pai, e esfaimado pelo bloqueio posterior. Que armas de destruição massiva pode esconder este país massivamente destruído? Israel, que desde 1967 usurpa terras palestinianas, conta com um arsenal de bombas atómicas que lhe garantem a impunidade. E o Paquistão, outro fiel aliado que, além disso, é um notório ninho de terroristas, exibe as suas próprias ogivas nucleares. Mas o inimigo é o Iraque, porque "poderia ter" essas armas. Se as tivesse, como a Coreia do Norte proclama que as tem, atrever-se-iam a atacá-lo? E as armas químicas e biológicas? Quem vendeu a Saddam Hussein as sementes para fabricar os gases venenosos que asfixiaram os curdos, e os helicópteros para lançar esses gases? Porque é que Bush não mostra os recibos? Naqueles anos, guerra contra o Irão, guerra contra os curdos, era Saddam menos ditador do que é agora? Até Donald Rumsfeld o visitava em missão de amizade. Porque é que os curdos fazem pena agora, e antes não? E porque é que só fazem pena os curdos do Iraque, e não os curdos muito mais numerosos que sacrificou a Turquia?

Rumsfeld, actual secretário da Defesa, anuncia que o seu país usará "gases não letais" contra o Iraque. Serão gases tão pouco letais como aqueles que Vladimir Putin usou, no ano passado, no teatro de Moscovo, e que mataram mais de cem reféns?

Durante alguns dias, as Nações Unidas cobriram com uma cortina a Guernica de Picasso, para que essa desagradável cenografia não perturbasse os toques de clarim de Colin Powell. De que tamanho será a cortina que vai esconder a carnificina do Iraque, segundo a censura total que o Pentágono impôs aos correspondentes de guerra?

Para onde irão as almas das vítimas iraquianas? Segundo o reverendo Billy Graham, assessor religioso do presidente Bush e agrimensor celestial, o paraíso é bem mais pequeno: mede nada mais que quinhentas mil milhas quadradas. Poucos serão os escolhidos. Adivinha: Qual será o país que comprou quase todas as entradas?

E uma pergunta final, que peço emprestada a John Le Carré: Vão matar muita gente, paizinho? -Ninguém que tu conheças, querido. Só estrangeiros.


Eduardo Galeano


um artigo que acho interessante, apesar que aqui ninguém o vai ler

saudações
Ricardo Correia

Anonymous
07-04-2003, 11:15
Eu cá acho ridiculo. Especialmente a parte sobre o presidente Mckinley. É mais um sul-american a tentar ser 'radical' e 'artistico' ou até mesmo 'profundo'. Por que raio é que um Uruguaio quer votar no presidente dos Estados Unidos? O Uruguay já não presta é?

RC
08-04-2003, 11:06
Se não percebes a parte em que fala presidente Mckinley...

Bem muitas vezes no ocidente se diz que eles lá longe são uns barbaros fanaticos, e depois surgem pessoas como presidente Mckinley e George Bush que demosntram que eles lá longe não são diferentes dos de cá perto.

NINGUÉM ELEGEU BUSH COMO PORTA-VOZ DOS POVOS LIVRES DO MUNDO.

Saudações
Ricardo Correia