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Vizualizar Versão Completa : Direitos dos prisioneiros de Guantánamo


RC
06-03-2003, 00:22
Um silêncio crepuscular

Esquecemo-nos que o primeiro passo para acabar com o Estado de direito, onde quer que ele exista, é permitir a sua violação impune, seja onde for e contra quem for. Começa sempre pelo outro, pelo mais fácil, pelo mais fraco, pelo vencido, pelo indefeso, mas nunca se sabe onde acaba. Na base americana de Guantanamo, onde irão ser interrogados, os presos são encerrados, segundo a elucidativa expressão dos jornais, em "jaulas individuais" com uma "cobertura para o sol".

A imprensa dos últimos dias tem noticiado o início da transferência de prisioneiros afegãos e de outras nacionalidades, aparentemente suspeitos da prática de crimes de terrorismo (as acusações não são do conhecimento público), para a base norte-americana de Guantanamo, em Cuba.

Segundo declarações do Governo dos EUA, os detidos não são considerados "prisioneiros de guerra", não estando, por isso, sob a protecção da Convenção de Genebra. A sua detenção não foi ordenada por nenhuma autoridade judicial conhecida, as acusações contra elas formuladas são secretas e o regime legal da sua captura é inexistente: não sendo prisioneiros de guerra, são indivíduos presos e sequestrados para o território dos EUA por decisão unilateral das forças armadas e das polícias daquele país, sem cobertura jurídica, nacional ou internacional, de qualquer espécie. Manda quem pode.

Talvez por isso, os sujeitam a um regime prisional vexatório e revoltante. Os presos deslocam-se do Afeganistão para Guantanamo algemados de pés e mãos, atados às cadeiras dos aviões durante os 12.000 quilómetros de vôo, alimentados pelos guardas e fazendo as suas necessidades para uma espécie de arrastadeira. Para não barafustarem, são previamente anestesiados. Salvo o actual requinte tecnológico dos dias de hoje, dir-se-ia termos regressado aos transportes dos navios negreiros do século XIX.

Na base americana de Guantanamo, onde irão ser interrogados, os presos são encerrados, segundo a elucidativa expressão dos jornais, em "jaulas individuais" com uma "cobertura para o sol". Escusado será dizer que durante estes interrogatórios os detidos não terão direito a assistência de advogados, nem sequer a visitas de familiares, aliás um tanto dificultadas pelo facto de o campo prisional estar quase nos antípodas do Afeganistão. Não é de supor que a CIA ou o FBI permitam visitas da Amnistia Internacional ou de outros organismos de defesa dos direitos humanos. Tudo indica que os interrogatórios vão correr como as prisões: sem regras e bem longe de olhares ou ouvidos indiscretos. Registe-se que durante o actual conflito no Afeganistão surgiram nos "media" internacionais várias alegações de participação de agentes policiais ou militares dos EUA em interrogatórios de suspeitos com recurso à tortura.

Provavelmente, findo o inquérito policial, o Governo dos EUA nomeará um tribunal militar especial para Guantanamo, um daqueles criados pela legislação especial decretada pelo Presidente Bush e cujo regime só foi muito limitadamente moderado pelo Congresso. Um julgamento militar com juizes e júri de nomeação governamental, em que a acusação não teve que explicar como arranjou as provas, em que o réu não tem praticamente direito de defesa e em que a sentença pode ser a pena de morte, a culminar um rápido e sumaríssimo processo.

Para os argumentos mais primários que já se adivinham a legitimar toda esta cadeia de violações grosseiras e impunes dos direitos humanos mais elementares, convirá esclarecer desde logo que, em nenhuma circunstância, a extrema gravidade dos crimes de que estes indivíduos vêm, aparentemente, acusados, pode desculpar o abuso, o vexame e a ilegalidade que contra eles o Governo dos EUA se permite exercer. Por uma razão singela: é isso que separa a barbárie, do Estado de direito, é isso que separa o terrorismo, da democracia, a opressão, da liberdade. Os cativos afegãos à guarda dos EUA têm direitos que devem ser respeitados, independentemente dos crimes de que sejam suspeitos: o direito à presunção de inocência até sentença judicial condenatória; o direito a conhecerem as acusações de que são alvo; a ter assistência jurídica, a receber visitas, a não serem objecto de torturas, a ser tratados com dignidade, a ter um julgamento justo que lhes permita defenderem-se. Direitos que, seguramente, o regime taliban ou o da Arábia Saudita jamais reconheceram aos seus súbditos. Mas se se fizer o que eles fazem, então, em nome de que valores e de que interesses retaliaram os EUA? Se o pretexto de combater o terrorismo e a barbárie pode legitimar a ilegalidade e a violação dos direitos fundamentais, o que é que, verdadeiramente, passará a distinguir um campo do outro?

Por isso, o silêncio - o silêncio cúmplice, é preciso dizê-lo - que, pelo menos entre nós, rodeia o anúncio destas situações, me arrepia a espinha. O silêncio não é só uma demissão moral perante a força bruta e a política de facto consumado livremente praticada pelo império reinante. O silêncio é aceitar a negação do carácter universal dos direitos humanos. É admitir que há categorias de pessoas (por exemplo, os suspeitos de "terrorismo") cujos direitos podem ser legitimamente violados. Uma espécie de escória definida em função de certas práticas sociais, políticas ou religiosas que não gozariam das garantias aplicáveis às "pessoas normais". Só que os grupos de excluídos dos direitos fundamentais, a partir do momento em que se aceita a exclusão, podem ser extensivamente definidos, isto é, criminalizáveis, ao sabor das relações de força e de poder. Admitindo o princípio, ao menos na prática, quem pode garantir que amanhã não sejam os "comunistas", ou os homossexuais, ou as testemunhas de Jeová? Como ontem foram os judeus? Na realidade, esquecemo-nos depressa demais que foi exactamente ao abrigo da negação da universalidade dos direitos do homem, só que estabelecendo critérios raciais de discriminação, que o nacional-socialismo auto-legitimou o direito de oprimir, escravizar e até exterminar os que definiu como "Untermenschen" (sub-humanos). Esquecemo-nos que o primeiro passo para acabar com o Estado de direito, onde quer que ele exista, é permitir a sua violação impune, seja onde for e contra quem for. Começa sempre pelo outro, pelo mais fácil, pelo mais fraco, pelo vencido, pelo indefeso, mas nunca se sabe onde acaba. Se hoje não formos capazes de defender os direitos fundamentais dos afegãos ou dos árabes acusados da prática de crimes de terrorismo, o terrorismo de Estado, ou outro, acabará por vencer. Basta olhar para o que se passa no Estado de Israel.

É por isso que o silêncio se ouve demasiado em questões como esta. É por isso - como já se percebeu quando o FBI admitiu a possibilidade de recorrer à tortura - que ele objectivamente prepara a aceitação do inaceitável. Já não falo da omissão das boas almas do Ocidente, dos generais de sofá e de outras conhecidas variantes domésticas do belicismo. Falo das secções da Amnistia Internacional, dos juristas democratas, das organizações de defesa dos direitos humanos, dos fóruns defensores da justiça e das liberdades. Será que em Guantanamo não se passa nada?

Bem sei que o que hoje escrevo vai contra a corrente da conjuntura eleitoral e, se calhar, até contra um certo bom senso eleitoralista. Mas sou dos que pensam que se uma campanha eleitoral não servisse, também, como terreiro de debate de questões fulcrais e incómodas como esta, então não estaríamos a fazer lá o que se espera que lá façamos.

Fernando Rosas

RC
16-03-2003, 15:28
O AUSCHWITZ NORTE AMERICANO



A decisão da Suprema Corte americana de negar jurisdição
da lei a estes prisioneiros, viola fundamentalmente o
direito internacional e dá carta branca para que os militares norte americanos
pratiquem a tortura impunemente


Carrascos Norte Americanos fazendo o serviço ...


Tortura do século XXI aperfeiçoada pela CIA


Prisioneiros afegãos torturados

Cabul - Guantánamo - Os familiares dos prisioneiros da Al Qaeda, do
Afeganistão, encarcerados na base ianque de Guantánamo,
em Cuba, temem que eles sejam mantidos presos por tempo
indeterminado ou julgados sem representação, num tribunal
militar, ficando sujeitos à pena de morte.

A denúncia foi apresentada depois que a juíza Colleen
Kollar-Kotelly decidiu que os cidadãos estrangeiros detidos
em Guantánamo, não poderão ser julgados nos Estados Unidos.
O Estado norte-americano se recusa a classificar os capturados
no Afeganistão como prisioneiros de guerra, sob o argumento
de que eles não pertencem a uma hierarquia militar reconhecida
e que, por isso, não mereceriam os direitos de soldados
capturados, ou vencidos em campo de batalha.

Para o advogado inglês Stephen Jakobi,, diretor da organização
?Julgamentos Justos no Exterior? (Fair Trials Abroad),
a decisão da Suprema Corte americana de negar jurisdição
da lei a estes prisioneiros, viola fundamentalmente o
direito internacional e dá carta branca para que os militares
pratiquem a tortura impunemente. ?Nós temos tentado,
consistentemente, tirar estas pessoas do limbo legal
e colocá-las em uma situação de julgamento razoavelmente
justa?, afirmou ele. Até agora, nenhum dos 600 prisioneiros
de Guantánamo foi acusado formalmente de ter cometido
algum crime.Mais de 30 já cometeram suicídio diante
das condições animalescas a que estão sendo submetidos.

Para Jakobi, existe o risco real dos prisioneiros passarem
o resto de suas vidas em Guantánamo sem serem julgados.




Campo de concentração nazista
Tal como um campo de concentração da Segunda Guerra mundial,
a base ianque de Guantánamo serve de laboratório onde
experiências abomináveis são feitas com os prisioneiros
afegãos. As fotos do local, com os prisioneiros agachados,
chocaram o mundo. Eles estão sendo submetidos a uma ?privação
sensorial? por parte de seus algozes americanos; mantidos,
por longos períodos, de joelhos, com os pés e mãos amarrados;
com os olhos vendados; de luvas e com os ouvidos tapados;
vestidos com um macacão sintético, totalmente inapropriado
para um clima tropical como o de Cuba, pois acumula um
calor intenso. Ou seja, os prisioneiros são torturados,
butalmente, através do isolamento total dos seus sentidos.
Algo que faria inveja ao mais aplicado carrasco nazista.
O jornal de extrema direita ?The Mail?, que geralmente
apóia tudo que os Estados Unidos fazem, colocou a manchete
de ?Torturados? embaixo da foto. ?Esses prisioneiros
não podem ouvir nada, nem cheirar, e nem sentir? disse
o tablóide, descrevendo os prisioneiros como sendo ?tratados
como animais?. ?Mãos e pés algemados, ajoelhados em posição
submissa. É isto o que o presidente Bush e o primeiro
ministro Blair da Inglaterra chamam de nossa civilização??
pergunta o jornal. As fotos são tão chocantes que ?certamente
irão intensificar o ódio internacional por causa das
condições em que são mantidos os prisioneiros sob o sol
inclemente da Baía de Guantanamo, em Cuba?, escreve o
jornal.

postado por mhmbrz num forum ismalico do brasil


http://www.forumnow.com.br/vip/topicos.asp?grupodiscussao=36397

Anonymous
07-04-2003, 11:22
Tens razão Ricardo! Estes terroristas e criminosos tem que ser tratados como os seres humanos que não são!

RC
08-04-2003, 10:40
sabe até que não nos toque a nós está tudo numa boa.

A nossa civilização tem uma máxima que diz, todos são inocentes até prova do contrário.

Você já os julgou tal e qual um ditador julgaria os seus adversários são contra mim logo criminosos.

Sabia que após o 11 de Setembro muitos pessoas inocentes foram presos sem culpa e libertados um ano depois sem sequer um pedido de desculpa. Se voçê acredita num sistema judicial desses fique feliz na sua vida de alguém que gosta de seguir o resto da manada.

Pois espero que um dia não seja julgado da mesma forma com que julgou.

Saudações
Ricardo Correia

RC
19-04-2004, 11:44
Assalam Aleikum

Aqui está um tópico já antigo mas que ainda continua de actualidade, aconselho a ler os diferentes textos postados.

A esses deixo este link onde poderão ler mais sobre o assunto, o texto em questão tem como titulo:

Os direitos humanos dos prisioneiros na Base Naval dos EUA em Guantanamo ? Projecto de resolução apresentado por Cuba na CDH, em Genebra

pode ser lido

aqui (http://resistir.info/cuba/roque_declar_16abr04.html)


Ricardo Correia

RC
09-05-2004, 16:24
TSF: 09 de Maio 04 / 10:49

EUA

Um manual de tortura
Tortura do sono e «frigideira», entre as técnicas de «interrogatório» na prisão americana de Guantanamo.


O governo dos Estados Unidos aprovou em Abril de 2003 a utilização de técnicas de interrogatório na prisão de Guantanamo, onde estão detidos os combatentes islâmicos presos durante a guerra no Afeganistão.

De acordo com o jornal Washington Post, existe uma lista secreta com 20 tipos diferentes de métodos de interrogatório que foram aprovados ao mais alto nível nos
Departamentos de Defesa e da Justiça.

A lista aprovada constitui uma linha de conduta oficial que autoriza os interrogadores a utilizar métodos que fragilizem física e psicologicamente os detidos antes de serem submetidos a interrogatórios.

A utilização de cada uma das técnicas, que inclui a exposição do preso a músicas violentas ou a luzes extremamente fortes, carece de autorização dos mais altos responsáveis do Pentágono, diz o jornal.

Os agentes que efectuam os interrogatórios têm de justificar que o recurso a métodos mais duros é «militarmente necessário», estando obrigados a garantir uma «vigilância médica apropriada», acrescenta o Washington Post.

Tayeb
09-05-2004, 21:49
Assalamu-alaikum irmão Ricairdo:

Que Allah o recompense por trazer aqui o assunto de detidos na base americana de Guantanamo.

O que lá ocorre, de violação grosseira de direitos humanos básicos e a detenção sem fim nem acusação justa, é uma vergonha para todo o mundo civilizado.

Se fosse um país islâmico a fazer o que os EUA fazem, este já tinha sido devolvido à idade de pedra, com uma guerra sem tréguas.

É este infelizmente o mundo de duplos critérios e de injustiça em que vivemos!

Ma'a-salaama,
Tayeb

RC
31-05-2004, 22:45
Assalam Aleikum

irmão Tayeb veja só o mundo chocou-se com os factos ocorridos no Iraque, contudo os de guantánamo continuam quase esquecidos!!!

Na Tsf apareceu um texto com afirmação de que Guantánamo é comparável a gulag soviético :x

Pensar que ainda existem defensores de que é legitimo e correcto (á luz do direito internacional :x ) a acção dos EUA em Guantánamo

salaam,

Ricardo Correia




31 de Maio 04 fonte - TSF

DIREITOS HUMANOS
Guantanamo comparável a «gulag» soviético
O comissário do Conselho da Europa para os Direitos Humanos, Alvaro Gil-Robles, comparou, esta segunda-feira, o campo de detenção norte-americano de Guantanamo a um «gulag» soviético e acusou os países do mundo de estarem em silêncio sobre estas questões.

A declaração de Gil-Robles foi feita numa entrevista, publicada esta segunda-feira, pelo diário espanhol «El Pais», em que critica duramente a passividade europeia perante as violações dos direitos humanos.

O responsável diz que os países ocidentais «não demonstram, hoje em dia, entusiasmo algum na defesa real dos valores e dos princípios da Convenção Europeia dos Direitos Humanos».

«Assistimos em silêncio, quase sem reagir, a situações como as que existem nas prisões do Iraque ou em Guantanamo», o campo de detenção instalado na base naval norte-americana em Janeiro de 2002 para acolher cerca de 600 prisioneiros capturados no Afeganistão (2001).

Os Estados Unidos negaram o estatuto de prisioneiros de guerra aos 600 homens detidos em Guantanamo e, do total, apenas dois homens - um iemenita e um sudanês - foram até hoje formalmente acusados.

«Se o centro de detenção de Guantanamo fosse na Rússia falaríamos de um 'gulag'», disse o comissário.

Alvaro Gil-Robles, que regressou há pouco tempo de uma visita a Moscovo, indicou por outro lado que o presidente russo, Vladimir Putin, lhe pediu que elabore um relatório sobre a situação dos direitos humanos na Federação Russa, mesmo que este seja «desagradável».

RC
13-06-2006, 12:23
Anos passaram e o tema ainda envergonha o chamado mundo civilizado :x

Peregrino
18-11-2009, 23:46
Mais de 3 anos desde da última mensagem, neste tópico e a infâmia perdura.

http://english.aljazeera.net/focus/2009/07/20097298571341207.html


E poderão ver algumas fotografias dos detidos, dos quais alguns declarados inocentes, mas sem terem para onde ir depois de lhes terem destruído a vida.

http://english.aljazeera.net/focus/2009/07/200972281452769526.html


A vergonha da passividade...