PDA

Vizualizar Versão Completa : Testemunhas oculares contam acerca de Falluja


Osama
14-04-2004, 00:01
Massacres de civis:
Testemunhas oculares contam acerca de Falluja

por Ewa Jasiewicz


A situação em Falluja está numa escalada e o povo aguarda um ataque maciço nas próximas 24-48 horas. É necessária acção urgente para assinalar e denunciar os crimes de guerra que estão a ser perpetrados aqui.

Informação urgente e apelo de Ewa Jasiewicz, uma activista da solidariedade que trabalhou no Iraque com as organizações Voices in the Wilderness e Occupation Watch, viveu ali durante 8 meses (Bassorá e Bagdad) e na Palestina, sobretudo no campo de Jenin durante 6 meses, fala árabe, e que voltou do Iraque há 2 meses. Ela está em contacto regular com os seus amigos em Bassorá e Bagdad.

Acabo de falar com amigos em Bagdad ? Paola Gaspiroli, italiana, do Occupation Watch e Bridge to Baghdad, o jornalista Leigh Gordon, inglês (NUJ, Tribune, Mail on Sunday) e um palestiniano amigo com família em Falluja e amigos no Partido Islâmico Iraquiano. Tanto ele como Leigh têm estado a transportar os feridos de Falluja para Bagdad nos últimos três dias. Ambulâncias têm sido impedidas de entrar na cidade ensopada em sangue.

Eis as suas notícias, as quais foram-me contadas esta noite (sexta-feira) ao telefone:

Paola Gaspiroli:

"Houve um massacre em Falluja. Falluja está sob sítio. 470 pessoas foram assassinadas e 1700 feridas. Não houve cessar fogo. Eles (os americanos) disseram às pessoas para abandonar, disseram que tinham 8 horas para abandonar e as pessoas começaram a abandonar mas elas foram aprisionadas no deserto. Os americanos têm estado a bombardear com B52s (confirmado também por Leigh num email de três dias atrás). As pontes para Bagdad são tiradas. Temos voos marcados para Amman. Amanhã uma equipe irá a Sadr City para distribuir medicamentos. 50 pessoas foram mortas ali. ?? (esqueci o nome) o 'elástico' chefe em Sadr City (conheci-o, jovem, rapaz brilhante, descreve-se a si próprio como 'elástico' porque ele é tão flexível quanto às suas interpretações do Islão e definições de conduta etc que é muito liberal) disse-me que eu deveria sair.

Ele diz mesmo que não pode controlar o seu povo. Estrangeiros estão a ser alvejados. Seis novos estrangeiros foram tomados como reféns. Quatro deles são empregados de uma firma de segurança italiana ? foram retirados do seu carro, o qual foi encontrado cheio de armas e cheio de uniformes negros. Bagdad estava silenciosa hoje excepto quanto a Abu Ghraib (Bagdad ocidental, onde se localiza uma vasta prisão a arrebentar pelas costuras com 12 mil prisioneiros), onde um comboio americano foi atacado e nove soldados feridos e 27 sequestrados. É isso mesmo, foram 27. Contudo, nenhum noticiário relatou isto. E eu ouvi isto de (nome a não divulgar sem permissão). Está realmente mau. Eles (os americanos) têm estado a atirar contra ambulâncias, atiradores (snipers) estão a seguir as ambulâncias.

Há pessoas de Falluja no deserto. Elas deixaram Falluja mas não lhes é permitido entrar em Bagdad, elas estão presas no deserto, elas são como refugiados. É terrível, mas o povo, o povo iraquiano, está a dar tudo o que pode, estão trazer abastecimentos, toda a gente está a dar toda a sua ajuda para apoiar Falluja.

Eu quero permanecer aqui mas tenho de ir, se quiser voltar e ser útil, penso que é melhor sair, Bridges to Baghdad tem de decidir isso. Está a ficar realmente perigoso para italianos. Sentimos como estamos a ser alvejados agora. (a Itália tem uma força de mais de 2500 homens, incluindo Carabinieri ocupando Nassiriya que tem estado sujeita a um certo número de ataques da resistência incluindo o devastador ataque à esquadra de polícia que tirou as vidas de quatro soldados, um civil, um operador de filmes documentários, 12 polícias Carabinieri e oito iraquianos).

(...) e Leigh tem sido notável. Eles têm estado a conduzir para Falluja e a trazer pessoas para fora, indo e voltando. Sabem o que se está a passar, eles têm sido realmente notáveis. Querem mais pessoas para ajudá-los mas nós não podíamos daqui. Isto está a ficar muito muito pior.


Do meu amigo que tem estado em Falluja hoje e nos últimos poucos dias:

Estamos a ver isto com os nossos próprios olhos. Disseram às pessoas para deixar Falluja e agora há milhares presas no deserto. Há um longo comboio com 13 km de comprimento de pessoas que tentam chegar a Bagdad. Os americanos estão a lançar bombas e tudo o que têm sobre eles. Eles estão a disparar sobre famílias! São todos crianças, velhos e mulheres no deserto. Outros iraquianos estão a tentar ajudá-los. Em Falluja eles (os americanos) estiveram a bombardear hospitais. As crianças estão a ser evacuadas para Bagdad. Há uma criança agora, um bebé, que teve 25 membros da sua família assassinados, ele está no hospital e alguém precisa estar com ele, por que não há ninguém ali para ficar com ele, ele que acaba de perder 25 membros da sua família!? Os americanos estão a despejar bombas de fragmentação (cluster bombs) e novos morteiros, os quais saltam 3-4 metros. Eles estão a bombardear do ar. Há pessoas que jazem mortas nas ruas. Eles disseram que havia um cessar fogo e então entraram, eu vi-os, e começaram a bombardear. Estão a combater outra vez em Falluja e estão a combater bem. Mas estamos à espera do grande ataque em 24-48 horas. Será o ataque principal. Eles irão tomar a cidade rua a rua e vasculhar e atacar. Já fizeram isso numa aldeia próxima, esqueci o nome, mas irão fazer isso em Falluja. Consiga ajuda por favor, junte pessoas para protestar, leve-os à embaixadas, ponha-os a fazer alguma coisa. Há um massacre. E precisamos estrangeiros, os estrangeiros podem fazer algo. Estamos a fazer um protesto, Jo (Jo Wilding www.wildfirejo.org.uk) e os outros do seu grupo estão a vir aos pontos de controle americanos amanhã. Não temos dormido nos últimos 3 ou 4 dias.

Precisamos atenção. Tenho fotos, filme, demos para a Al Jazeera, Al Arabiya mas tiramos outras. Faça tudo o que puder. Voltamos amanhã".

Leigh Gordon:

Conseguir por todos os meios mas eu e (...) provavelmente não estaremos por aqui. Quero dizer que eles estão a ficar loucos. (...) está a dizer aos estrangeiros para virem mas não é seguro. O chefe de Falluga disse que não podia garantir minha segurança. Parece que está a enlouquecer, penso que os estrangeiros começaram a ser assassinados em breve ? quero dizer que as pessoas estão a ficar desesperadas, quando elas vêm a sua mãe, pai, casa, gato, cão, tudo bombardeado ao começar o ataque. Eles (os americanos) disseram que estas operações durariam só 5 dias e chegariam ao fim. Eles precisam libertar tropas de outras frentes irrompendo por todo o país. Eles estão a vir para matar. Não há meio de garantir a segurança de ninguém. Penso que você pode ser útil mas não como voce possa contar à sua mãe e pensar que estará de volta em uma semana. Nós provavelmente seremos mortos amanhã. Venha, mas nós podemos não estar aqui.

Quando você ler isto, um massacre está a ter lugar em Falluja, Iraque.

Falluja é uma cidade que tem estado a resistir à ocupação do Iraque desde Junho. As tropas americanas foram empurradas para a beira da cidade desde então. Combateu duramente e a sobretudo com firmeza e tem sido regularmente golpeada por jactos F16 e helicópteros Apache artilhados desde então, com civis a serem sacrificados numa base regular.

Bem mais de 470 pessoas foram agora assassinadas pelas tropas americanas em Falluja, nesta semana. 1700 foram feridas. Espera-se que a portagem da morte ascenda devido à natureza do cordão militar do sítio em torno da cidade. Ambulâncias estão a ser alvejadas e seguidas por atiradores sniper se elas tentam entrar na cidade. Testemunha oculares relatam terem visto corpos a jazer nas ruas. Hospitais foram atacados. Abastecimentos médicos e camas escassas estão em níveis de crise. Os residentes chamam a isto um massacre. Pessoas de toda a parte estão a tentar, algumas com êxito, entrar em Falluja para ajudar a evacuar os feridos por carro. Pessoas estão a doar comidas, medicamentos e água àqueles que fogem. Todo o Iraque está a observar e simpatizar com Falluja dizem as pessoas ali no terreno.

No momento em que se escreve (10/Abr/04) uma coluna de 13 km de residentes de Falluja foge da cidade massacrada por bombas, presos no deserto e rodeados por tropas americanas as quais, relatam testemunhas oculares, estão a disparar sobre elas. A maior parte dos abandonados no deserto é constituída por velhos, mulheres e crianças.

Para os soldados americanos estacionados próximos à cidade, a situação é impossível e o seu sangue também está a ser derramado para os aproveitadores de lucro do mercado que promovem os interesses dos governos dos EUA e RU e interesses corporativos.

Recentemente, a longa fermentação do descontentamento, frustração, humilhação e ódio crescente contra a ocupação explodiu. A ocupação está a ser combatida pela sua simples existência, o seu racismo, a sua violência. Está a reciclar e a devolver o poder da elite dirigente neo-baathista, a retreinar e recontratar mais de 10 mil torturadores e agentes de inteligência baathistas, está a rescrever as leis do Iraque através das ordens da Autoridade Provisória de Coligação (principalmente a Ordem 30 sobre Condições de Salário e Emprego para Empregados do Serviço Civil o qual estabelece o salário mínimo para os trabalhadores do Sector Público Iraquiano em 69.000 ID (US$ 40 por mês ? menos da metade do salário recomendado para um trabalhador explorado numa zona de livre comércio no vizinho Irão), mais a Ordem 39 sobre Investimento Estrangeiro que permite em 100% a propriedade estrangeira ? privatização ? e corta a mais elevada taxa do imposto sobre o rendimento de 45% para 15%) resultaram na insurreição.

O clima no Iraque modificou-se do protesto à resistência, e agora à insurreição. Manifestações têm decorrido todos os dias por todo o país desde o princípio da ocupação, com protestários que vão desde estudantes a pensionistas, desempregados, mulheres, antigos soldados e crianças. Este novo levantamento foi etiquetado como um revolta em apoio ao clérigo anti-ocupação Mugtada al Sadr, mas na realidade ele é generalizado, incontrolável, rudimentar e variado. Ele não é islâmico, não é apenas nacionalista, não é baathista. É uma luta generalizada contra a ocupação ? o maior incitamento à violência no país.

Por favor, manifeste solidariedade com o povo do Iraque neste momento de sublevação e banho de sangue. Por favor, junte-se aos protestos contra o sangrento massacre em Falluja, o qual espalhar-se-á se os exércitos de ocupação continuarem incontrolados e não desafiados.

Parem a guerra em curso contra o Iraque.
Tropas fora do Iraque.

O original encontra-se em http://globalresearch.ca/articles/JAS404A.html .

RC
17-04-2004, 11:13
Assalam Aleikum

É de facto vergonhosa a forma como se leva a "liberdade e a democracia" a Falujah.

Quem são realmente os terroristas?
O texto de Carlos Aznárez pode dar uma pista...
Quem julgará os criminosos da coligação?
Talvez para muitos estas mortes sejam apenas "danos colaterais" ou opreço a pagar pela "democracia". Para mim é sim o preço trágico a pagar, não pela "democracia" imposta, mas pelo desejo de justiça e liberdade.

Ricardo Correia



Faluja e o terrorismo ocidental
por Carlos Aznárez


Mais de seiscentos cidadãos iraquianos foram assassinados brutalmente num par de dias em Faluja, 243 deles são crianças e outros dois mil habitantes ficaram gravemente feridos com a operação ianque de castigo. 600 cadáveres numa população de 600 mil habitantes.

Este é, sem dúvida, o remédio dos poderosos para os povos que não se submetem. Uma receita que indica que neste mundo já não há lugar para a racionalidade, porque assim o impõe os senhores da guerra, os Avançados do fundamentalismo mais antigo, o mais letal: o do Ocidente.

Seiscentas vidas foram ceifadas após os bombardeamentos. Caíram despedaçadas após os raids de aviões e tanques norte-americanos. Sob as balas da democracia pacificadora, ali, em Faluja. Crianças despedaçadas, jovens com o corpo feito peneira pelos estilhaços de explosivos "inteligentes" e pela brutalidade da metralha. Dezenas de fieis muçulmanos carbonizados pelas chamas provocadas pelo napalm. Qual era a sua culpa? Rezar numa mesquita, que para os homens da nova Cruzada fascista converteu-se num objectivo militar.

Pensar é perigoso, rezar é perigoso, viver é perigoso, lá, em Faluja.

Hospitais atingidos pelos morteiros daqueles que afirmam defender a liberdade dos iraquianos, escolas que desapareceram do mapa, e a infraestrutura desta cidade mártir, que acaba de ser completamente destruída.

Não esquecer: Esta é a cultura que impõe o Ocidente. Ontem, hoje e sempre.

Entre esses seiscentos corpos mutilados, até chegar o invasor, corria aos borbotões a vida e a esperança, mas também a rebeldia, que finalmente quis impedir que se manchasse a soberania de um povo que não aceita pôr-se de joelhos perante o ocupante.

Nós não faríamos o mesmo se nos coubesse ser Faluja?

Seiscentas mulheres, seiscentos anciãos, seiscentos homens de trabalho ? até chegarem eles ?, seiscentos jovens e adolescentes, seiscentas crianças. São tantos que só mencioná-los aflige. Entretanto, parecem não valer nada para o mundo dessa matilha assassina que mesmo depois do massacre tenta sustentar um discurso, uma razões, uma desculpa.

Esta enorme quantidade de seres humanos que hoje já não existem em Faluja parece ser diferente de outros mortos, tão mortos como eles. Tomemos como exemplo os de Madrid, sacrificados pelo horror de resposta num 11 de Março. Os de Tel Aviv quando a resistência palestiniana decide exercer a vingança a tanta morta e tanta afronta sofrida. Ou os dos outros rincões inóspitos do mundo ocidental.

Parece que, graças à hipocrisia geral, há mortos de primeira neste mundo de quarta. Mortos que inspiram o Papa a convocar os seus crentes para enfrentar o terrorismo (nunca o terror dos Estados opressores, Santo Padre?), mas não incomodam nem um pouco o chefe do Vaticano quando os caídos são iraquianos, afegãos, ou inocentes cordeiros de um Terceiro Mundo que estala onde quer que se olhe.

Mortos com amplíssima cobertura mediática, com manifestações multitudinárias de aflição, onde marcham lado a lado os legionários da guerra que invadem países e massacram populações inteiras, com as vítimas das suas decisões despóticas de ir à guerra para continuar a acumular riquezas.

Faluja e Bagdad hoje, Cabul ontem, Belgrado antes. Palestina sempre, assim como Vietnam, Coreia, Argélia, Panamá. É a repartição equitativa do horror em nome da civilização das transnacionais, cobiçosas até o enfartamento.

Não mais mortos por culpa da loucura desencadeada pelos gringos, sejam estes ianques, ingleses, italianos ou espanhóis. Poderia ser uma palavra-de-ordem da hora para milhões de cidadãos de todos os nossos países, mas seriam palavras sem sentido se não as convertêssemos em acção.

Não mais hipocrisia na hora de contar e propagandear os mortos de um lado e minimizar e ocultar os mortos do outro, como se realmente houvesse diferenças dentro da tragédia compartilhada. Do contrário, com que fórmula poderíamos impugnar, mesmo que o façamos, as porções de terror que a cada momento nos cabem por desgraça neste lado da trincheira? Com que argumentos dizer aos "outros" que não nos façam o mesmo que eles sofrem quotidianamente ? 243 crianças assassinadas em Faluja! ? graças à bestialidade daqueles que dizem representar-nos?

Faluja, sua gente, seus resistentes heróicos, tem o direito conquistado de que se acabe com esta sensação de hipnose colectiva onde nós próprios, os que queremos, defendemos e apoiamos o valente povo do Iraque, por vezes somos presos por uma paralisia tão inexplicável como perigosa para o nosso futuro. Ou será que estamos a acostumar-nos ao genocídio?

Se não reagirmos hoje, quando nossos povos se convertem em Faluja por obra e graça da ambição de criminosos de guerra do porte de Bush, Blair, Berlusconi, Aznar ou Sharon, amanhã será demasiado tarde.

FALUJA. Repitamos esse nome, e façamos dele um símbolo de recusa planetária ao imperialismo mais brutal que já existiu na história da humanidade. Esse que se revolve em Washington entre os gritos de terror das suas vítimas.

Como Nagasaki e Hiroshima: FALUJA. Deve marcar um antes e um depois na nossa condição de seres humanos.

*Director de resumen latinoamericano (http://www.nodo50.org/resumen/)

este artigo encontra-se em http://resistir.info/