Osama
26-03-2004, 20:42
SOARES DIZ QUE O TERRORISMO NÃO TEM SAÍDA MILITAR
"É preciso haver a diplomacia, o diálogo e o conhecimento"
Isabel Teixeira da Mota
In Jornal do Notícias de 24.03.2004
As negociações levadas a cabo com as Brigadas Vermelhas, em Itália, o Baden Mein-Hoff, na Alemanha, o IRA, na Irlanda, e mesmo a ETA, em Espanha, foram lembradas por Mário Soares para justificar a sua teoria da negociação com organizações terroristas.
No programa "Sociedade Aberta", transmitido ontem à noite na SIC-Notícias, o ex-presidente da República manifestou a opinião de que, na actual ordem mundial, o terrorismo "não tem saída militar".
É deste ponto de partida que Soares arranca para dizer que "é preciso uma nova estratégia". E que esta convicção se está a generalizar nos meios políticos europeus. "O que se está a dizer agora em toda a Europa é que é preciso fazer uma grande reflexão sobre o terrorismo". Porém, para o ex-presidente da República, a inflexão de estratégia na luta contra o terrorismo só poderá ser feita quando mudar a Administração norte-americana. "Talvez tenhamos que esperar pela vitória de John Kerry", admitiu na conversa com o subdirector do JN, António José Teixeira.
A força da diplomacia
Para Mário Soares, "as forças armadas são necessárias, o poder militar é necessário, mas não são suficientes. É preciso haver a diplomacia, o diálogo e o conhecimento. É preciso cruzar informações".
A sua teoria assenta no pressuposto de que agir desta maneira (pelo diálogo) "não significa uma cedência" ao terrorismo. Significa, primeiro, "não diabolizar o inimigo" e, depois, "não bloquear todos os esforços para ver se entendemos algumas coisas, para poder suscitar neles as divisões, as clivagens ou linhas de fractura que nos podem levar a uma solução por meios que não sejam os de matar a todos, o que também não podemos".
Soares recusa que "dialogar" seja uma posição de fraqueza. "Eu não sou um pacifista. Nunca fui. Sou um amante da paz, mas não sacrifico ao pacifismo outros valores que para mim são mais altos ainda que o da paz, que é um valor imenso. Não sacrifico a minha liberdade, a minha pátria, a dignidade, o futuro...".
O eurodeputado também recusa a ideia de que negociar com terroristas seja uma cedência da liberdade. "Pode não ser. Por que é que negociar significa uma cedência?", interrogou. "O presidente Bush, quando negociou com um homem chamado Kadafi, que era acusado de proteger e financiar o terrorismo mundial, e agora o apresenta como um bom cidadão (...), está a ceder?". E respondeu em seguida: "Eu acho - e nisso faço-lhe justiça - que ele está a tentar evitar que ele (Kadafi) faça novos estragos".
Soares deu ainda outro exemplo: "Quando os americanos, perante a ameaça que faz um país como a Coreia do Norte, que tem a bomba atómica, entendem negociar e pedem apoio à China, o que é isso senão uma negociação? E isso é condenável?" Na linha da sua argumentação, o ex-chefe de Estado insistiu: "Dialogar, conversar, conhecer, negociar, não é ceder. Por que é que há-de ser ceder? Eu não sou um capitulacionista".
O diálogo com o Islão
Feito este esclarecimento, Soares passou a exemplificar outros canais extramilitares que, em seu entender, não devem ser desprezados.
"Tenho participado em muitos encontros ecuménicos organizados pela Comunidade de Santo Egídio, que é uma forma que a diplomacia do Vaticano tem para chegar a conversar e a discutir com o mundo islâmico" (...) "Pertenço à Academia do Reino de Marrocos, onde está muita gente que pertence ao mundo islâmico e com a qual se pode falar e discutir, porque estão tão preocupados, como nós, com esses problemas".
O amigo Bush pai
Como já tem dito várias vezes, Soares considera que "Bush é responsável por que tudo isto tenha corrido sempre mal". "Isto" refere-se à luta contra o terrorismo desde o ataque às Torres Gémeas, em 2001.
E defende que a estratégia do presidente norte-americano "nos está a levar para o buraco". "Ele está a tentar mudar mas não pelas boas razões. Está a tentar devolver o poder à ONU para poder chegar numa posição um pouco mais tranquila às eleições".
Na análise que faz à gestão que George W. Bush fez da crise no Iraque, o antigo líder socialista sublinha que o presidente norte-americano "mentiu". "Ele perdeu uma coisa importantíssima, que é a credibilidade. E quando as pessoas mentem ao povo, quem é que depois acredita nelas?", rematou.
Mas nem a sua cruzada contra Bush o impediu de mostrar um convite para participar no aniversário do pai Bush: "Trouxe aqui uma coisa cómica, interessante...Acabo de receber um convite para ir ao aniversário do pai Bush, com quem tenho relações realmente cordiais"...
É quando a questão do Médio Oriente é abordada que o actual eurodeputado eleva o tom e surge maior tensão.
Para o socialista, a atribuição do Prémio Nobel da Paz a Arafat pelo seu empenhamento nos acordos de paz é o exemplo de que "é possível" negociar com terroristas. "Foi por um fio que não houve a paz". E essa paz, acrescentou, "era fundamental para resolver os problemas do Médio Oriente".
Em seu entender, aquela zona do globo está em "desestabilização total" por causa do "espírito de querer levar tudo à bomba". "Eu não quero que o princípio (do diálogo) seja abolido. Não quero que se pense que só pela força é que se resolve o problema, que só despejando bombas sobre países inteiros... E, sublinhou, "é contra isso que eu me revolto. No fundo, foi por causa disso que eu falei de negociação. Eu estava a desenvolver que era preciso arranjar uma outra estratégia para a guerra e houve alguém que me perguntou: mas então o senhor está disposto a negociar? E eu respondi: Naturalmente, em determinadas condições, é possível admitir o princípio da negociação". Foi isto que desencadeou todo o processo.
"É preciso haver a diplomacia, o diálogo e o conhecimento"
Isabel Teixeira da Mota
In Jornal do Notícias de 24.03.2004
As negociações levadas a cabo com as Brigadas Vermelhas, em Itália, o Baden Mein-Hoff, na Alemanha, o IRA, na Irlanda, e mesmo a ETA, em Espanha, foram lembradas por Mário Soares para justificar a sua teoria da negociação com organizações terroristas.
No programa "Sociedade Aberta", transmitido ontem à noite na SIC-Notícias, o ex-presidente da República manifestou a opinião de que, na actual ordem mundial, o terrorismo "não tem saída militar".
É deste ponto de partida que Soares arranca para dizer que "é preciso uma nova estratégia". E que esta convicção se está a generalizar nos meios políticos europeus. "O que se está a dizer agora em toda a Europa é que é preciso fazer uma grande reflexão sobre o terrorismo". Porém, para o ex-presidente da República, a inflexão de estratégia na luta contra o terrorismo só poderá ser feita quando mudar a Administração norte-americana. "Talvez tenhamos que esperar pela vitória de John Kerry", admitiu na conversa com o subdirector do JN, António José Teixeira.
A força da diplomacia
Para Mário Soares, "as forças armadas são necessárias, o poder militar é necessário, mas não são suficientes. É preciso haver a diplomacia, o diálogo e o conhecimento. É preciso cruzar informações".
A sua teoria assenta no pressuposto de que agir desta maneira (pelo diálogo) "não significa uma cedência" ao terrorismo. Significa, primeiro, "não diabolizar o inimigo" e, depois, "não bloquear todos os esforços para ver se entendemos algumas coisas, para poder suscitar neles as divisões, as clivagens ou linhas de fractura que nos podem levar a uma solução por meios que não sejam os de matar a todos, o que também não podemos".
Soares recusa que "dialogar" seja uma posição de fraqueza. "Eu não sou um pacifista. Nunca fui. Sou um amante da paz, mas não sacrifico ao pacifismo outros valores que para mim são mais altos ainda que o da paz, que é um valor imenso. Não sacrifico a minha liberdade, a minha pátria, a dignidade, o futuro...".
O eurodeputado também recusa a ideia de que negociar com terroristas seja uma cedência da liberdade. "Pode não ser. Por que é que negociar significa uma cedência?", interrogou. "O presidente Bush, quando negociou com um homem chamado Kadafi, que era acusado de proteger e financiar o terrorismo mundial, e agora o apresenta como um bom cidadão (...), está a ceder?". E respondeu em seguida: "Eu acho - e nisso faço-lhe justiça - que ele está a tentar evitar que ele (Kadafi) faça novos estragos".
Soares deu ainda outro exemplo: "Quando os americanos, perante a ameaça que faz um país como a Coreia do Norte, que tem a bomba atómica, entendem negociar e pedem apoio à China, o que é isso senão uma negociação? E isso é condenável?" Na linha da sua argumentação, o ex-chefe de Estado insistiu: "Dialogar, conversar, conhecer, negociar, não é ceder. Por que é que há-de ser ceder? Eu não sou um capitulacionista".
O diálogo com o Islão
Feito este esclarecimento, Soares passou a exemplificar outros canais extramilitares que, em seu entender, não devem ser desprezados.
"Tenho participado em muitos encontros ecuménicos organizados pela Comunidade de Santo Egídio, que é uma forma que a diplomacia do Vaticano tem para chegar a conversar e a discutir com o mundo islâmico" (...) "Pertenço à Academia do Reino de Marrocos, onde está muita gente que pertence ao mundo islâmico e com a qual se pode falar e discutir, porque estão tão preocupados, como nós, com esses problemas".
O amigo Bush pai
Como já tem dito várias vezes, Soares considera que "Bush é responsável por que tudo isto tenha corrido sempre mal". "Isto" refere-se à luta contra o terrorismo desde o ataque às Torres Gémeas, em 2001.
E defende que a estratégia do presidente norte-americano "nos está a levar para o buraco". "Ele está a tentar mudar mas não pelas boas razões. Está a tentar devolver o poder à ONU para poder chegar numa posição um pouco mais tranquila às eleições".
Na análise que faz à gestão que George W. Bush fez da crise no Iraque, o antigo líder socialista sublinha que o presidente norte-americano "mentiu". "Ele perdeu uma coisa importantíssima, que é a credibilidade. E quando as pessoas mentem ao povo, quem é que depois acredita nelas?", rematou.
Mas nem a sua cruzada contra Bush o impediu de mostrar um convite para participar no aniversário do pai Bush: "Trouxe aqui uma coisa cómica, interessante...Acabo de receber um convite para ir ao aniversário do pai Bush, com quem tenho relações realmente cordiais"...
É quando a questão do Médio Oriente é abordada que o actual eurodeputado eleva o tom e surge maior tensão.
Para o socialista, a atribuição do Prémio Nobel da Paz a Arafat pelo seu empenhamento nos acordos de paz é o exemplo de que "é possível" negociar com terroristas. "Foi por um fio que não houve a paz". E essa paz, acrescentou, "era fundamental para resolver os problemas do Médio Oriente".
Em seu entender, aquela zona do globo está em "desestabilização total" por causa do "espírito de querer levar tudo à bomba". "Eu não quero que o princípio (do diálogo) seja abolido. Não quero que se pense que só pela força é que se resolve o problema, que só despejando bombas sobre países inteiros... E, sublinhou, "é contra isso que eu me revolto. No fundo, foi por causa disso que eu falei de negociação. Eu estava a desenvolver que era preciso arranjar uma outra estratégia para a guerra e houve alguém que me perguntou: mas então o senhor está disposto a negociar? E eu respondi: Naturalmente, em determinadas condições, é possível admitir o princípio da negociação". Foi isto que desencadeou todo o processo.