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RC
22-03-2004, 12:14
Espanha: quem são os assassinos
por Robert Fisk

. Foram advertidos. Os Aznar, Blair e Bush foram advertidos pelos que
eram seus aliados. - França, Alemanha e muitos outros, para não os
árabes - de que a sua cruzada contra a Al Qaeda poderia ser revertida
da maneira mais cruel.

As explosões de Madrid são não só uma vingança terrível pela
participação espanhola na "segunda parte" da "guerra ao terrorismo" -
a invasão ilegal do Iraque - como um ataque impiedoso e extremamente
doloroso da Al Qaeda contra civis.

Se os neoconservadores americanos acreditam na "guerra das
civilizações", também a Al Qaeda nela acredita. Que outro efeito
poderia ter a matança de Madrid sobre o Ocidente se não voltar a
sublinhar a noção, por ridícula que seja numa perspectiva histórica,
de que o Islão e o Ocidente estão em conflito? Hoje perecem civis na
Europa com a mesma brutalidade com que morreram em Bali, em Túnis e em
Istambul e - por um momento vejamos o mundo através de outro prisma -
com a que foram explodidos em pedaços por bombas no Afeganistão e no
Iraque.

Fontes próximas à organização de Osama Bin Laden exprimem perplexidade
pela estranha mensagem, supostamente dos atacantes, que foi publicada
no jornal árabe Al Quds al Arabi. Dava a entender que a resposta
inicial à ingerência da Espanha no Iraque era o ataque às forças
italianas em Kerbala, o qual, se fosse correcto, certamente referia-se
ao assassinato de sete oficiais espanhóis de inteligência perto de
Hilla. Utilizar uma declaração pública para ordenar às suas "células"
que cometam mais ataques não mostra a desesperada discrição que
caracteriza as comunicações da Al Qaeda. Mas as apreensões na Espanha,
a chamadas por telefone móvel, a própria escala do bombismo nos
comboios mostra a Al Qaeda tão confiante e impiedosa como sempre, e
desta vez decidida a atacar a Europa.

Se o pé direito pisou em Istambul e o esquerdo em Madrid, onde, em
termos geográficos, o pé direito dará o passo seguinte? Podemos
apanhar um atlas e um régua e deduzir por nós mesmos.

Não creio que seja a terceira guerra mundial. Tão pouco é uma "guerra
ao terrorismo", nem uma "guerra de civilizações". Mas os nossos
governantes agora nos conduzem de forma deliberada para um período de
tremendo sofrimento porque não querem atender às verdadeiras causas da
injustiça no mundo islâmico. Várias vezes foram advertidas das
consequências da participação na demente aventura norte-americana no
Iraque.

Mentiram-nos. Falaram-nos de armas de destruição maciça que não
existiam, de vínculos entre o Iraque o 11 de Setembro de 2001 que tão
pouco existiam. Agora, atolados no Iraque, estamos desesperados por
sair dali, por pôs os pés a andar, deixando atrás uma força
colaboracionista de polícia semi-treinada que supostamente derramará o
seu sangue ao invés do nosso.

Não, os assassinos não são os que colocam bombas: os assassinos são
todos os que matam, e isso inclui nossos pilotos tanto como os
atacantes suicidas deles. Não, nós não queremos matar civis, mas
sabemos que as nossas guerras o farão e o fizeram, e que a morte não
vem da maneira mais agradável, menos dolorosa, porque as vítimas são
assassinadas pelo supostamente benévolo Ocidente ao invés do
supostamente cruel Oriente.

Começámos a pagar o preço. Será verdade que tudo começou a 11 de
Setembro de 2001? Não, começou muito antes. E nenhum discurso
trapalhão, nenhuma homilia sincera de qualquer prelado pode disfarçar
até que pontos nossos governantes nos conduziram neste conflito demencial.
16/Mar/2004
A versão em espanhol encontra-se no jornal mexicano La Jornada .

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .