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RC
21-03-2004, 13:20
Os argumentos falsos do terror

Carlos Peixoto - Jornalista

As atenções sobre o noticiário internacional, durante a semana passada, estiveram voltadas para os desdobramento das investigações, à comoção e a crise instaladas pelo atentado do dia 11 nos trens de Madrid. Um ato de covardia terrorista injustificável, sem dúvidas. A dor e a revolta marcaram as primeiras reações e também as manchetes nos jornais. Mas, se não *quisermos nos perder da racionalidade e desesperar da inspiração divina que fundam a nossa humanidade, é necessário resistir a tentação da ira e abandonar as interpretações reducionistas sobre o que aconteceu.

Os atentados em Madrid não são "mais um capítulo no choque de civilizações que opõem Ocidente e Oriente" ou mesmo uma prova da incompatibilidade cultural que separa o Islam e o resto do mundo. O terrorismo internacional e àqueles que o abraçam são um desafio a todos - muçulmanos, cristãos, judeus, adeptos de outras religiões e ateus - devido mesmo a sua natureza anti-religiosa, a falsidade das justificativas políticas que apregoa e desumanidade dos métodos que utiliza. O terror é o recurso de que se valem facções minoritárias para sabotarem o projeto de concórdia nacional e internacional a que chegaram as grandes correntes religiosas, povos e grupos ideológicos ao longo dos últimos dois milênios. Concórdia, como lembrou o jornalista Gilberto de Mello Kujawski (em artigo publicado no Estadão do dia 17 passado), no significado básico de crédito, boa fé, "disposição de conviver com o outro, aceitando sua singularidade e sua diferença na mesma medida em que ele aceita as nossas diferença e singularidade, classe com classe, grupo com grupo, região com região, religião com religião, maioria com minoria". Concórdia como ideal de coexistência.

É evidente que tal projeto é ainda incompleto, ainda falho e ainda frágil devido, sobretudo, às injustiças sociais, políticas e econômicas. Mas se constitui na única alternativa válida e possível de assegurar a continuidade da História humana. Somente o exercício de pressões legitimadas por todos - como o diálogo político, as eleições livres, o protesto público, as manifestações de rua etc. - poderão fazer avançar esse projeto nas particularidades de sua aplicação sem compromete-lo no todo dos seus objetivos. O terrorista, ao negar essa verdade óbvia e lógica, é um particularista ressentido que prefere "ser um todo à parte, que parte de um todo". Esse é o detalhe que esvazia os argumentos políticos do terror como "último recurso contra as injustiças". Ainda citando Kujawski, "os terroristas não querem justiça, eles querem assaltar o poder". Em todas as partes, os terroristas querem assumirem o controle político da sociedade e instalarem um modelo totalitário, onde o projeto de concórdia é anulado e a coexistência das diversidades étnicas, religiosas e ideológicas é impossível. É esse objetivo político que desmente as razões e motivações religiosas com que alguns grupos, particularmente dentro do Islam, pretendem mascarar seus crimes.

O sheikh Jihad Hassan, vice-presidente da Assembléia Mundial da Juventude Islâmica na América Latina (WAMY, sigla em inglês), deixou claro esta semana, em comunicado público, o que a maioria da comunidade muçulmana pensa a respeito do terrorismo. "A Comunidade Islâmica no Brasil lamenta e condena o atentado de 11 de março na cidade de Madrid, independentemente dos autores, sendo muçulmanos ou não, pois, o Islam proíbe tirar a vida de inocentes, ou mesmo, colocá-la em risco, sendo estes inocentes muçulmanos ou não, da mesma forma como condenamos o assassinatos e o massacre de inocentes na Palestina, Iraque, no Afeganistão, em Angola, Burundi, Chechênia, etc (...) Não podemos somente assistir e lamentar, mas temos que mostrar o que o Islam de fato nos ensina, como justiça, paz, amor, fraternidade, solidariedade, igualdade e todos os valores e qualidades que qualquer sociedade, pessoa ou mesmo religião tenta aplicar e divulgar ..." (o grifo é nosso).

Além da condenação ao terror, é possível estender a leitura do comunicado da WAMY à uma outra conclusão: a concordância religiosa do Islam em relação a esse projeto de coexistência com a diversidade. Ao lado do cristianismo e do judaismo, o Islam é uma das três religiões surgidas a partir de uma revelação positiva de Deus a profetas escolhidos. Ao lado do cristianismo e do budismo, o Islam é uma das três únicas religiões universais - cujas mensagens não se restringem a um povo ou a uma nação. Ao lado de cristãos e judeus, os muçulmanos podem se dirigir ao mesmo Deus pessoal e pedirem, em uma oração comum e inter-religiosa, pela paz e pelo entendimento mundial.