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RC
19-03-2004, 13:09
18/03/2004 - 12h39 (gmt -3h) "Mundo ficou mais perigoso após invasão do Iraque", diz Chomsky, PAULO CABRAL
da BBC, em Washington

O filósofo e lingüista Noam Chomsky diz acreditar que o mundo se tornou um "lugar bem mais perigoso" por conta da invasão americana no Iraque.

Mas para ele, as dificuldades que os Estados Unidos estão encontrando na ocupação do país é uma das poucas coisas que impediram a "superpotência" de iniciar novas ações militares em outros cantos do planeta.

"A minha expectativa era de que a ocupação e o controle do Iraque pelos Estados Unidos seriam coisas fáceis, mas estão sendo surpreendentemente difíceis para a superpotência. A demonstração de incompetência e ignorância na ocupação iraquiana foi tamanha que reduziu muito a possibilidade de uso da força em outras situações", disse à BBC Brasil o filósofo, tido como um dos mais agressivos críticos das políticas americanas dentro dos círculos intelectuais do país.

"Se a ocupação (do Iraque) tivesse sido bem sucedida, eles poderiam estar agora aumentando a presença militar nos Andes. Há uma grande atenção do governo americano à situação na Colômbia, na Bolívia e na Venezuela."

Carta branca

O professor nota que a doutrina de segurança estabelecida após a guerra do Iraque dá aos Estados Unidos "carta branca" para atacar qualquer outra nação.

"Inicialmente, os Estados Unidos se basearam na doutrina da guerra preventiva, argumentando que o Iraque tinha armas de destruição em massa. Como elas não foram encontradas, a doutrina foi mudada, e (o secretário de Estado) Colin Powell já deixou claro que basta um país ter a habilidade de produzir armas e a intenção de usá-las para ser candidato a um ataque", diz.

"A habilidade e a capacidade quase qualquer país pode ter. E a intenção está nos olhos de quem julga."

Chomsky observa que, embora sem declarar uma guerra aberta, os Estados Unidos estão aumentando a pressão sobre outros países do Oriente Médio.

"Os Estados Unidos enviaram mais de cem bombardeiros F16 para Israel e fizeram algumas declarações sobre a capacidade de eles voarem até o Irã e voltarem sem necessidade de reabastecimento. Os Estados Unidos também estão fornecendo a Israel algum tipo não especificado de armamento especial", comenta.

Madrid

Para Chomsky, os ataques em Madrid provam que a estratégia americana acabando criando e fortalecendo os laços que supostamente pretendia combater.

"Antes, especialistas concordavam que não havia qualquer relação entre terrorismo internacional, Al Qaeda e o Iraque, apesar de o governo americano ter feito essa afirmação repetidas vezes. Agora, sim, o Iraque se tornou um campo de trabalho para a Al Qaeda e um elemento na estratégia dela."

O intelectual diz que concorda que o Iraque está melhor sem Saddan Hussein mas ressalva que "o ponto não é esse e, sim, o desejo dos Estados Unidos de controlar os recursos energéticos da região e do estabelecimento de um equilíbrio de forças mais favorável ao país no Oriente Médio".

"Se as sanções (contra o Iraque) tivessem sido planejadas de modo a atingir o governo e não o povo, os próprios iraquianos já teriam se livrado do tirano há muito tempo", diz.

Eleições americanas

O filósofo acha que o impacto da guerra nas eleições ainda é incerto.

"A opinião pública mundial é majoritariamente contra a guerra, mas aqui nos Estados Unidos a maioria do grande público ainda acredita que o Iraque estava desenvolvendo armas de destruição em massa e que o ataque era necessário", diz.

"Mas é importante lembrar que, por algum tempo, até a Guerra do Vietnã (1965-75) teve grande popularidade nos Estados Unidos."

Chomsky observa que as principais figuras do governo Bush já estavam em postos-chave nos anos 80, durante os governos de Ronald Reagan e George W. Bush.

"Esse pessoal de tempos em tempos tem de apertar o botão do pânico", diz.

"Nos anos 80, eles colocaram o país em estado de emergência nacional pelo risco à segurança apresentado pela Nicarágua. É o tipo de coisa que nenhum observador leva a sério."

Chomsky diz que o poder econômico das campanhas vai definir o que os americanos vão pensar a respeito do Iraque.

"A campanha de George W. Bush tem uma enorme quantidade de dinheiro em caixa (estimativas vão de US$ 100 milhões a US$ 170 milhões) para inundar a mídia deste país com informações favoráveis a respeito da guerra no Iraque e o governo Bush."


http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u29858.shtml

RC
20-03-2004, 13:27
SÉRGIO DÁVILA
da Folha de S.Paulo


Há um ano, durante a Guerra do Iraque, quando Bagdá abrigava os cerca
de 80 jornalistas que tinham permanecido na cidade sob bombas, não era
raro ver repórteres carregando, entre colete e capacete à prova de
balas e máscara antigás, um exemplar de capa mole (mais leve para
carregar na mochila) de um livro de Dilip Hiro.

De nome curioso e sonoro, este indiano radicado em Londres é uma das
autoridades em Oriente Médio, Iraque e Saddam Hussein, não
necessariamente nesta ordem, mas necessariamente três assuntos
cabeludos, que ele destrincha e explica em títulos como "Iraq - In The
Eye of The Storm" (Iraque, no olho da tempestade), o mais recente,
"Secrets and Lies -Operation Iraqi Freedom" (segredos e mentiras,
operação liberdade iraquiana), e outros.

Colaborador de jornais que vão do norte-americano "The New York Times"
ao britânico "The Guardian", o escritor e jornalista liberal deu
entrevista à Folha de S.Paulo por e-mail, uma conversa que começou há
duas semanas e teve diversos complementos diante dos últimos
acontecimentos em Madri.
Sua opinião? O Iraque está pior do que há um ano, a guerra poderia ter
sido evitada e o ataque terrorista na Espanha é o governo George W.
Bush colhendo os primeiro frutos do que Dilip Hiro chama de "guerra
sem fim".

Folha - O Iraque está melhor ou pior do que um ano atrás?
Dilip Hiro - Melhor ou pior em que sentido? Econômica, social e
politicamente? Economicamente, o desemprego está entre 60% e 75%. Ao
dissolver integralmente as Forças Armadas, a polícia e o serviço
público, o comando norte-americano da ocupação, a Autoridade
Provisória da Coalizão [APC], não só criou imenso desemprego, mas
também um vácuo na administração da segurança que permite aos
insurgentes operarem com latitude muito mais ampla do que seria o caso
se a APC tivesse procedido de forma mais gradual --como a ONU fez na
Bósnia, por exemplo.

Politicamente, nada está definido ainda. Antes da invasão
anglo-americana, o Departamento de Estado dos EUA estabeleceu diversos
comitês para estudar diferentes aspectos do Iraque pós-Saddam. O
comitê cujo tema era a democracia concluiu em seu relatório que o
processo de transição para a democracia no país levaria três anos, ou
36 meses.

Agora, o processo foi comprimido para sete meses. Por quê? Para que se
encaixe no calendário eleitoral norte-americano. Assim, qual deveria
ser a prioridade: a estratégia de curto prazo de Bush para se reeleger
ou o bem-estar do povo iraquiano no longo prazo? Que os leitores decidam.

Folha - O sr. acha que uma nova Constituição iraquiana, com valores
ocidentais, "pegaria"?
HiroQuem fala sobre influência e valores norte-americanos na Lei
Administrativa de Transição (LAT), a Constituição interina ora em
vigor no Iraque, deveria ler a Constituição da República Islâmica do
Irã, da qual consta uma longa lista de direitos do cidadão.

Os pontos principais são o papel do islã e os poderes da Presidência.
Quanto a isso, vemos que o islamismo é a religião oficial da LAT --o
que não é o caso na vizinha Síria, onde não existe religião oficial.
Segundo, a importância da sharia --ou lei islâmica-- como fonte
primária das leis iraquianas: fonte única ou apenas influência? Por
enquanto, eles optaram por tomar a sharia apenas como influência, mas
por quanto tempo?

Pesquisas demonstram que 56% da população deseja uma República
Islâmica do Iraque. Mas Paul Bremer, que comanda a APC, já afirmou
publicamente que vetaria um documento que contivesse artigos nesse
sentido. É essa a "liberação" concedida aos iraquianos, que nem sequer
podem exercer seu direito à autodeterminação. Quanto à Presidência, os
xiitas desejam que a chefia de governo caiba ao presidente, mas os
demais grupos não concordam e preferem conceder a maior parte dos
poderes executivos a um primeiro-ministro.

Folha - O mais provável é que o próximo líder seja xiita. Isso não
levaria a uma aliança com o Irã?
Hiro - Como disse, a maioria deseja uma República islâmica no Iraque.
Há três modelos na região: Arábia Saudita, Irã e Turquia. Ainda não se
sabe que modelo o Iraque escolherá. Mas não há qualquer dúvida de que
será no mínimo amistoso para com o Irã --ou talvez até um aliado
estreito. Quanto à influência, temos Irã e EUA, com cartas igualmente
fortes, e é provável que o jogo continue até as eleições presidenciais
dos EUA, em novembro.

Folha - Bem ou mal, a invasão anglo-americana livrou o Iraque de um
ditador. O sr. acredita que havia alternativa à guerra?
Hiro - Você presume que os anglo-americanos tenham invadido o Iraque
para livrar o país da ditadura. Mas que sistema prevalece na Arábia
Saudita ou em qualquer outro Estado rico em petróleo do golfo Pérsico,
agora? A democracia liberal? A questão é: por que o Iraque? E por que
agora? A razão primordial que os anglo-americanos deram para a invasão
era o fato de que Saddam estaria equipado com armas de destruição em
massa que poderiam ser disparadas em 45 minutos. Assim, os EUA e o
Reino Unido corriam "perigo claro e iminente". Mas a ameaça não
existia de fato.

Se a questão fosse introduzir a democracia no Iraque sem a invasão
anglo-americana, Saddam ofereceu um acordo. De acordo com o "New York
Times" e com o "Guardian" de 7 de novembro de 2003 --e contrariando as
alegações de Bush e do primeiro-ministro britânico, Tony Blair, de que
todas as abordagens para uma resolução pacífica da crise iraquiana já
se haviam esgotado--, Saddam Hussein ofereceu em fevereiro daquele ano
um acordo que satisfaria Bush e Blair quanto a todos os aspectos
importantes da crise: armas de destruição em massa no Iraque, o
processo de paz no Oriente Médio, acesso das empresas petroleiras
norte-americanas ao petróleo e a democratização do Iraque.

De acordo com as reportagens nesses jornais [confirmadas pelas partes
envolvidas], a proposta de Saddam era a de que 2.000 agentes da CIA e
do FBI fossem enviados ao Iraque para procurar armas de destruição em
massa em qualquer lugar do país. Saddam prometeu que acataria qualquer
acordo definido entre Israel e as principais lideranças palestinas.
Prometeu dar às corporações petroleiras norte-americanas uma fatia na
prospecção e na extração de petróleo. E prometeu eleições livres e
pluripartidárias no Iraque, sob supervisão internacional, em prazo de
dois anos.

Mas Bush estava tão determinado a invadir o Iraque que recusou de
primeira qualquer consideração da oferta de Saddam e uma solução
pacífica para a crise.

Folha - O sr. acha que é possível um regime democrático no país?
Hiro - Imagine Bush discursando aos norte-americanos: "Quero fazer do
Iraque um país democrático, e isso implicaria gastar US$ 166 bilhões,
com mais US$ 1 bilhão por semana durante 25 semanas, bem como o
sacrifício de mais de 550 soldados americanos --além de 10 mil civis e
13 mil soldados iraquianos--, e a destruição de US$ 100 bilhões de
infra-estrutura". Quem aprovaria?

Uma estatística monumentalmente importante da qual o Comando Central
norte-americano deve dispor, mas ainda não divulgou, é o custo dos
danos causados à infra-estrutura do Iraque pelas seis semanas de
guerra e pela semana de saques e incêndios generalizados que se seguiu
ao final do conflito. Meu palpite _com base nos US$ 200 bilhões de
danos causados à infra-estrutura iraquiana pela Guerra do Golfo, em
1991_ é de US$ 100 bilhões. E quanto Washington reservou para a
reconstrução? Míseros US$ 16 bilhões, em três anos.

Folha - O ataque terrorista em Madri já seria efeito do que o sr.
chama de "guerra sem fim"?
Hiro -Uma das marcas da estratégia da Al Qaeda é montar mais de um
ataque ao mesmo tempo para criar o máximo de confusão e causar o maior
número possível de baixas. O raciocínio deles em Madri estaria
vinculado à presença de um grande número de soldados espanhóis entre
as forças de ocupação do Iraque.

Escrevi que "enquanto houver alguém aterrorizando os governos
estabelecidos, é preciso que haja guerra, o que é uma receita para uma
guerra sem fim". Meu conceito se baseia na definição frouxa de
terrorismo que o governo Bush cunhou e adotou. Para começar, o
terrorismo não é uma ideologia --é uma metodologia, uma tática, que
não é monopólio de qualquer grupo e também é usada por governos.

De fato, as pessoas que vivem na América Latina experimentaram
terrorismo de Estado em proporção bem maior do que a maior parte dos
demais povos. Além disso, se descrevermos o assassinato político como
método terrorista, é preciso admitir que existe há milhares de anos na
história da humanidade. Será que a "guerra contra o terrorismo" de
Bush porá fim aos assassinatos políticos nos EUA e em outros países?

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