Osama
12-03-2004, 01:04
PECAR É HUMANO, PERSEVERAR NO PECADO É DIABÓLICO
(Esta carta foi parcialmente publicada no jornal "Público" do dia 28/5/03)
Stº. Antº. dos Cavaleiros, 17.Maio.2003
Exmº. Sr. Dr. José Manuel Fernandes
Il. Director do Jornal "Público"
Lisboa
ASSUNTO: Resposta/Comentário ao artigo ?O Direito ao Pecado? da autoria de Helena Matos, publicado no ?Público? do dia 17/05/03, no ?Espaço Público?, pág. 5.
Com os meus cordiais cumprimentos, sobre o assunto em epígrafe, junto envio, com pedido de publicação no mesmo espaço, o meu Comentário intitulado: PECAR É HUMANO, PERSEVERAR NO PECADO É DIABÓLICO
O direito de liberdade e de expressão não é dizer ou fazer o que lhe der na real gana. É ser responsável, equilibrado. É ter bases educativas e princípios morais e éticos. A humanidade tem regras sadias. O pensamento, no coração do homem, deve ser uma água profunda, límpida, transparente, saudável, e o homem inteligente (sobretudo religioso) aí deverá beber.
Como islâmico, sou solidário, sim, com o cardeal D. Saraiva Martins, católico, quando afirma: ?é preocupante a perda do sentido do pecado?, pois sem esse sentido não haverá delicadeza de carácter, inquietação de consciência, inspirada pelo receio de praticar um acto menos correcto; logo não haverá o conceito do bem e do mal:
(«Bendito seja Aquele que enviou do céu a Distinção (do bem e do mal) ao Seu servo, para que este seja um advertidor na Terra!» [Alcorão, 25:1]).
É no problema da educação que jaz o grande segredo do aperfeiçoamento da humanidade. Pecar é humano, mas perseverar no pecado é diabólico. Todo o homem recebe duas espécies de educação: aquela que lhe é dada pelos outros, e aquela, muito mais importante, que se dá a si mesmo, com consciência e razão.
O homem piedoso-religioso e o ateu falam sempre de religião; um fala daquilo que ama, o outro daquilo que teme. A religião pode, eventualmente, não nos fazer bons, mas impede-nos de nos tornarmos maus.
A Helena Matos tem a liberdade obsessiva do discurso do direito ao pecado. Pode até viver eterna e exclusivamente no pecado. Ninguém tem o direito de criticá-la. Mas ?o uso do véu que aquelas islâmicas levam para as aulas, na escola laica, em França,? pode ser, e é, posta em causa; elas não têm direito nem liberdade de praticarem isso (nem como direito ao bem, nem como direito ao mal). O próprio primeiro-ministro francês, Jean-Pierre Raffarin, ?já se viu forçado a declarar que ?as diferentes religiões têm de aceitar o princípio superior de organização republicana que é laicidade??. Em Portugal a escola também é laica; no entanto há salas de aulas que estão oficialmente decoradas com crucifixos. Onde está, afinal, a laicidade, o direito à liberdade? Que democracia é essa? Só interessa reivindicar o direito ao pecado e aos maus costumes? Não foi em vão que Fouillée, um dia, disse que:
?Um dos perigos da democracia, que é contudo um progresso, é assegurar o triunfo dos medíocres, e até dos inferiores. Um dos perigos da aprovação universal é o de eliminar os capazes e os sinceros, em proveito dos incapazes e dos velhacos?.
Quanto à afirmação da Helena Matos ?entre os quais apesar de tudo ele escolheu viver!?, referindo-se, certamente, a eu ter escolhido Portugal, devo dizer que não escolhi; os meus avós e pais já viviam em Portugal (na época, afirmava-se que ?Moçambique é Moçambique, porque é Portugal? ? até um selo de correio foi impresso com esses dizeres); eu nasci português e vivi sempre em Portugal ? embora seja considerado por alguns, talvez como Helena Matos, português de segunda ou terceira. Vivi também na ditadura salazarista (não escolhi) onde, não obstante a ditadura, que não era nada agradável, havia decência, respeito, segurança, etc? Vivo hoje na democracia, pela qual os da minha geração lutaram para adquiri-la, mas onde, muitas das vezes, a liberdade é insana, irresponsável, perigosa ? dando origem a crise de valores e de identidade, questões que também deviam ser questionadas. Uma nação é forte quando as suas leis são fortes e saudáveis.
De resto, a minha referência à Meca e Medina foi, sobretudo, por estes serem lugares sagrados onde os Muçulmanos vão purificar os seus pecados; por conseguinte, aí a malignidade e outras indecências jamais poderiam ter lugar descarada e publicamente, como têm lugar nas democracias ocidentais. Um exemplo só: recentemente, uma escola para prostitutas, aberta oficialmente em Amesterdão, com o objectivo de ensinar as especialistas da mais antiga profissão do mundo a ganhar mais dinheiro, jamais poderia ser criada em Meca e Medina, na Arábia Saudita.
Termino, citando dois pensamentos a respeito do pecado, título fantasmagórico do artigo de Helena Matos:
? ?Se amais o vosso pecado, de nada vos serve ser sacrificado por ele, e todas as vossas lágrimas são vãs: esta é a lei?. ? François Mauriac.
? ?O pecado não é horrível, é vazio. Tudo é vazio. Mesmo o arrepender-se e o ser perdoado não são desejáveis?. ? Jules Romains.
Mahomed Yiossuf Mohamed Adamgy
Director de Al Furqán
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(Esta carta foi parcialmente publicada no jornal "Público" do dia 28/5/03)
Stº. Antº. dos Cavaleiros, 17.Maio.2003
Exmº. Sr. Dr. José Manuel Fernandes
Il. Director do Jornal "Público"
Lisboa
ASSUNTO: Resposta/Comentário ao artigo ?O Direito ao Pecado? da autoria de Helena Matos, publicado no ?Público? do dia 17/05/03, no ?Espaço Público?, pág. 5.
Com os meus cordiais cumprimentos, sobre o assunto em epígrafe, junto envio, com pedido de publicação no mesmo espaço, o meu Comentário intitulado: PECAR É HUMANO, PERSEVERAR NO PECADO É DIABÓLICO
O direito de liberdade e de expressão não é dizer ou fazer o que lhe der na real gana. É ser responsável, equilibrado. É ter bases educativas e princípios morais e éticos. A humanidade tem regras sadias. O pensamento, no coração do homem, deve ser uma água profunda, límpida, transparente, saudável, e o homem inteligente (sobretudo religioso) aí deverá beber.
Como islâmico, sou solidário, sim, com o cardeal D. Saraiva Martins, católico, quando afirma: ?é preocupante a perda do sentido do pecado?, pois sem esse sentido não haverá delicadeza de carácter, inquietação de consciência, inspirada pelo receio de praticar um acto menos correcto; logo não haverá o conceito do bem e do mal:
(«Bendito seja Aquele que enviou do céu a Distinção (do bem e do mal) ao Seu servo, para que este seja um advertidor na Terra!» [Alcorão, 25:1]).
É no problema da educação que jaz o grande segredo do aperfeiçoamento da humanidade. Pecar é humano, mas perseverar no pecado é diabólico. Todo o homem recebe duas espécies de educação: aquela que lhe é dada pelos outros, e aquela, muito mais importante, que se dá a si mesmo, com consciência e razão.
O homem piedoso-religioso e o ateu falam sempre de religião; um fala daquilo que ama, o outro daquilo que teme. A religião pode, eventualmente, não nos fazer bons, mas impede-nos de nos tornarmos maus.
A Helena Matos tem a liberdade obsessiva do discurso do direito ao pecado. Pode até viver eterna e exclusivamente no pecado. Ninguém tem o direito de criticá-la. Mas ?o uso do véu que aquelas islâmicas levam para as aulas, na escola laica, em França,? pode ser, e é, posta em causa; elas não têm direito nem liberdade de praticarem isso (nem como direito ao bem, nem como direito ao mal). O próprio primeiro-ministro francês, Jean-Pierre Raffarin, ?já se viu forçado a declarar que ?as diferentes religiões têm de aceitar o princípio superior de organização republicana que é laicidade??. Em Portugal a escola também é laica; no entanto há salas de aulas que estão oficialmente decoradas com crucifixos. Onde está, afinal, a laicidade, o direito à liberdade? Que democracia é essa? Só interessa reivindicar o direito ao pecado e aos maus costumes? Não foi em vão que Fouillée, um dia, disse que:
?Um dos perigos da democracia, que é contudo um progresso, é assegurar o triunfo dos medíocres, e até dos inferiores. Um dos perigos da aprovação universal é o de eliminar os capazes e os sinceros, em proveito dos incapazes e dos velhacos?.
Quanto à afirmação da Helena Matos ?entre os quais apesar de tudo ele escolheu viver!?, referindo-se, certamente, a eu ter escolhido Portugal, devo dizer que não escolhi; os meus avós e pais já viviam em Portugal (na época, afirmava-se que ?Moçambique é Moçambique, porque é Portugal? ? até um selo de correio foi impresso com esses dizeres); eu nasci português e vivi sempre em Portugal ? embora seja considerado por alguns, talvez como Helena Matos, português de segunda ou terceira. Vivi também na ditadura salazarista (não escolhi) onde, não obstante a ditadura, que não era nada agradável, havia decência, respeito, segurança, etc? Vivo hoje na democracia, pela qual os da minha geração lutaram para adquiri-la, mas onde, muitas das vezes, a liberdade é insana, irresponsável, perigosa ? dando origem a crise de valores e de identidade, questões que também deviam ser questionadas. Uma nação é forte quando as suas leis são fortes e saudáveis.
De resto, a minha referência à Meca e Medina foi, sobretudo, por estes serem lugares sagrados onde os Muçulmanos vão purificar os seus pecados; por conseguinte, aí a malignidade e outras indecências jamais poderiam ter lugar descarada e publicamente, como têm lugar nas democracias ocidentais. Um exemplo só: recentemente, uma escola para prostitutas, aberta oficialmente em Amesterdão, com o objectivo de ensinar as especialistas da mais antiga profissão do mundo a ganhar mais dinheiro, jamais poderia ser criada em Meca e Medina, na Arábia Saudita.
Termino, citando dois pensamentos a respeito do pecado, título fantasmagórico do artigo de Helena Matos:
? ?Se amais o vosso pecado, de nada vos serve ser sacrificado por ele, e todas as vossas lágrimas são vãs: esta é a lei?. ? François Mauriac.
? ?O pecado não é horrível, é vazio. Tudo é vazio. Mesmo o arrepender-se e o ser perdoado não são desejáveis?. ? Jules Romains.
Mahomed Yiossuf Mohamed Adamgy
Director de Al Furqán
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