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Osama
12-03-2004, 00:34
1300 ANOS DE BAGHADAD NA MEMÓRIA DOS MUÇULMANOS

Coord. por: M. Yiossuf Adamgy
in Al Furqán, nº. 134 -Julho/Agosto.2003

Quando os Muçulmanos pensam em Baghdad, não pensam em Saddam Hussain. Ditadores como ele vão e vêm.

Quando os Muçulmanos pensam em Baghdad, pensam no seu glorioso passado: nas lendas do Califa Harun Rashid; nas bibliotecas desta grande cidade, as quais eram as maiores do mundo; em clássicos da literatura, tais como as 1001 Noites; em letrados como al-Kindi, al-Razi, Al-Farabi, e num dos maiores eruditos Islâmicos de todos os tempos, o Imame Abu Hanifa.

Recordam-se também do bem-aventurado Profeta Abraão, que a paz esteja com ele, assim como do neto do Profeta Muhammad, que a paz e as benções estejam com ele, o qual enfrentou corajosamente a tirania dos reis.

Para a maioria dos Ocidentais, Baghdad simboliza uma terra de despotismo, de tirania, de sofrimento, de atraso, e de perigo. Apesar de, tristemente, a maioria dos Muçulmanos reconhecer que estas características podem actualmente ser encontradas nesta grandiosa cidade, as suas memórias encontram-se muito mais longe.
Baghdad está para além do presente.

Não encontrei ainda um Muçulmano que se importe com Saddam Hussain ou com o seu regime. Mas as grandiosas memórias da civilização Islâmica que têm por base Baghdad, são parte da consciência e da identidade histórica Muçulmana em todo o mundo Islâmico contemporâneo.

Depois da sua destruição pelos Mongóis, Baghdad nunca recuperou completamente o seu glorioso passado. Mas as memórias sobrevivem, não apenas como histórias, mas como um exemplo de uma sociedade cosmopolita ideal, a qual os Muçulmanos aspiram alcançar uma vez mais.
Neste contexto histórico, e embora os Muçulmanos do mundo Islâmico estejam relativamente silenciosos acerca do último ataque Americano ao Iraque, os seus corações e as suas mentes encontram-se devastados. Esta é a primeira ?Guerra por TV? Árabe desde o advento da televisão por satélite independente Al-Jazeerah. A guerra e a ocupação não serão apenas interpretadas como a continuada impugnação Ocidental dos interesses Árabes, o ressentimento conceder-lhe-á também um fundo histó- rico, o qual resultará nas piores interpretações dos verdadeiros motivos para o ataque.

Quando a cidade foi fundada há cerca de 1300 anos atrás pelo primeiro Califa Abbassida, foi chamada de Daras-Salam, ou Casa de Paz. Existiam muitas pequenas aldeias nessa área. Uma dessas pequenas aldeias tinha o nome de Baghdad, o qual, eventualmente, se tornou no nome desta cidade histórica.

Baghdad era onde, segundo o erudito e professor de Estudos Islâmicos da Universidade de Georgetown, Dr. Seyyed Hossein Nasr, ?o Islão se tornou herdeiro da herança intelectual da maior das civilizações que o antecederam, com excepção da do Extremo Oriente, e se transformou num abrigo dentro do qual várias tradições intelectuais encontraram um novo recomeço de vida?.

A sua beleza e esplendor podem ser inferidos dos contos das famosas 1001 Noites, as histórias são uma reflexão de Baghdad no seu auge, durante o reinado do Califa Harun al-Rashid, o qual mantinha relações diplomáticas com Carlos Magno e com o Imperador da China.


Baghdad era a cidade onde se localizava a famosa Baitul Hikmah (Casa da Sabedoria), a qual era um conhecido instituto de pesquisa, para onde foram levados livros e manuscritos da China, da Índia e da Grécia, entre outras civilizações, e aí foram traduzidos, discutidos, debatidos e republicados. Muitos dos clássicos Ocidentais chegaram ao Ocidente devido ao trabalho de tradução feito por Baitul Hikmah, durante os séculos VIII e IX.

De facto, Baghdad foi o principal elo de transmissão entre o conhecimento Grego Alexandrino e os actuais tempos modernos Ocidentais. Hipócrates, conhecido em Arábico como Buqrat, continua a ser um nome de família nas culturas Árabe, Persa e Urdu.

Baghdad foi onde os Muçulmanos construíram o primeiro Hospital. Foi a cidade onde foi fundado o primeiro Supremo Tribunal da História da Humanidade.

Aquando da fundação de Baghdad, em 762 D.C., o Imame Abu Hanifa foi o auditor do material empregue na sua construção. Abu Hanifa era um industrial, um banqueiro, que financiou sozinho o instituto de pesquisa da Lei Islâmica, sem quaisquer subsídios ou apoio governamentais. Os estudantes deste instituto tornaram-se nos primeiros presidentes do Supremo Tribunal da História da Humanidade.

O instituto de Abu Hanifa incluía, pelo menos, 40 dos maiores eruditos da época, de diferentes disciplinas Islâmicas do saber. Abu Hanifa nunca pretendeu ser funcionário do governo, enquanto que o Califa queria que ele fosse juiz. Como recusou, foi castigado, tendo sido designado para a contagem do material destinado à construção de Baghdad. Abu Hanifa estabeleceu também uma grande tradição em Baghdad, a de resistir contra a tirania.

Assim nomeada depois do Imame Abu Hanifa, a escola Hanafita do pensamento Islâmico tornou-se a lei da terra. Durante séculos, quase todos os governos Muçulmanos seguiram as leis Islâmicas desenvolvidas por este instituto de pesquisa. Actualmente, a maioria dos 1,3 biliões de Muçulmanos do mundo segue o modo de vida da escola Hanafita, tanto em questões sagradas como profanas, desde a oração e a caridade aos negócios e aos assuntos familiares.

Os Muçulmanos recordam-se também de Baghdad e, consequentemente, do Iraque, como sendo o local onde teve início a luta do Profeta Abraão pelo monoteísmo. Embora Cristãos e Judeus acreditem no Profeta Abraão e o respeitem, a maioria das pessoas não sabe o quão central ele é para o Islão. As mais importantes festas Islâmicas, Hajj e Eid-ul-Adha, não dizem respeito ao Profeta Muhammad, que a paz e as benções estejam com ele. Estão, sim, relacionadas com o patriarca dos três credos religiosos. Os ritos e os rituais da fantástica viagem da Hajj, que todos os Muçulmanos devem esforçar-se em fazer, possui uma conexão directa, histórica e ritualista com o Profeta Abrãao e com a sua família.

Todos os anos os Muçulmanos revivem a luta do patriarca e Profeta das três maiores religiões reveladas.

Karbala, uma outra cidade do Iraque, é conhecida pela posição tomada pelo neto do Profeta Muhammad, que a paz e as benções estejam com ele, Hussain, contra a realeza ilegítima de Yazid. Muçulmanos de todo o mundo admiram Hussain, e interpretam o seu martírio como tratando-se de uma luta de princípios contra a tirania de governos ilegítimos.

Ironicamente, a última Guerra do Golfo teve início precisamente no mês em que Hussain foi assassinado. Que Allah esteja satisfeito com ele.

Mas a beleza, a civilização e o esplendor de Baghdad, tal como todas as coisas neste mundo transitório, tiveram um fim. E os Muçulmanos lembram-se disso também.

A destruição de Baghdad pelos Mongóis em 1258 D.C. foi uma perda, não apenas para os Muçulmanos, mas para o mundo em geral. As suas grandiosas bibliotecas foram incendiadas, enquanto que os seus cidadãos foram assassinados. Diz-se que, naqueles dias, as águas dos rios de Dajla e de Farat estavam, ora enegrecidas, devido às cinzas dos livros queimados, ora vermelhas, devido ao sangue das pessoas assassinadas. Após o ataque Mongol, o dinamismo e a grandiosidade de Baghdad, enquanto centro de saber, nunca mais foram recuperados.

O último califa Abbassida da cidade, al-Mustasim, foi embrulhado num tapete e pisado até à morte por cavalos. Quase todos os do mundo Muçulmano sabem o que os invasores fizeram a Baghdad.

Podemos encontrar o eco da civilização de Baghdad, assim como da sua destruição, em toda a literatura do mundo Muçulmano. É especialmente verdade quando os Muçulmanos lutaram para se libertar do domínio colonialista Europeu. Pode ser ouvido na poesia de Hall e de Iqbal, em Persa e em Urdu. E pode ser encontrado na ficção de Naseem Hijazi. Está presente nos trabalhos de Ibn Khaldun, o primeiro sociólogo do mundo, e nos trabalhos de Ibn Taymiyyah, um erudito Islâmico dessa época. Os seus trabalhos ainda hoje são lidos pelos Muçulmanos.

E isto traz-nos para a actualidade, quase oito séculos depois da destruição da bela Baghdad.

Perguntem a qualquer Muçulmano quem foi o último califa Abbassida morto pelos Mongóis, e apenas uns poucos conseguirão dizer o seu nome sem o pesquisar primeiro. É isto o que sucederá com Saddam Hussain. Nenhum Muçulmano se importa com ele hoje e, amanhã, ele será esquecido.

Mas, actualmente, o perigo é o de que, na mente e na memória da História Muçulmana, os Americanos possam surgir como os novos destruidores de Baghdad, isto segundo a percepção dos Muçulmanos. Os Americanos podem ser acusados de ser os Mongóis do século XXI pelos colunistas Árabes, pessoas instruídas, mas que, nesta guerra, acreditam mais na TV Árabe Al-jazeerah, do que na BBC ou na CNN. Isto contrasta com a percepção do Médio Oriente de que, sob a ditadura fascista de Saddam Hussain, Baghdad recuperou, pela primeira vez depois dos Mongóis a terem destruído, a sua posição entre as cidades do Médio Oriente. O Iraque tornou-se, também, no primeiro país Árabe com quase 100 % de alfabetizados antes da primeira Guerra do Golfo. Em 1989, a percentagem de alfabetizados era de 95%; e 93 % da população tinha livre acesso aos modernos cuidados de saúde. Depois da primeira Guerra do Golfo, todos estes números mudaram para pior, embora a percentagem de mulheres alfabetizadas seja 20 % superior à dos homens. A questão é que, a ?Operação Iraque Livre?, pode não ser vista por Muçulmanos e Árabes, tal como os EUA gostariam que estes a vissem. Nem sequer vimos as calorosas boas-vindas de um ?povo Iraquiano grato?, o qual era suposto dar saltos perante a perspectiva de ser libertado pelo exército Americano.

Historicamente, os eruditos Muçulmanos têm considerado o Iraque como sendo um dos países mais difíceis de governar. Se é difícil para os Árabes governar o Iraque, para os Americanos pode ser ainda mais difícil. Os Curdos, com a sua ainda forte lembrança histórica de Salahuddin Ayubi ou Saladino, o libertador Curdo de Jerusalém, e com as recentes memórias do abandono a que foram sujeitos por parte dos Americanos às armas químicas Iraquianas durante a primeira Guerra do Golfo, não serão uns aliados permanentes. Os Xiitas, que constituem a maioria da população Iraquiana, possuem ligações emocionais e espirituais com o Irão, o qual possui as suas próprias memórias amargas de intervenções Americanas passadas. Eles não serão uns aliados gratos. Quanto aos seguidores de Saddam Hussain e aos Sunitas Iraquianos, os quais estão a ser perseguidos, serão os mais amargos. Como irão aí permanecer os Americanos? Estas tensões são já evidentes, visto os dissidentes Iraquianos apoiantes dos EUA discordarem já com as estratégias Americanas.

Depois do 11 de Setembro, a América perguntou, ?porque é que eles nos odeiam??. Com esta última destruição de Baghdad, outrora origem da civilização e do esplendor Islâmicos, deu-se aos Muçulmanos e ao Médio Oriente uma outra razão para odiarem os Americanos. E com quase todo o mundo a opor-se-lhes no primeiro movimento para a paz da era da Internet, perdeu-se toda a simpatia que a América ganhara com o 11 de Setembro. É tempo de repensar o modo como a Administração Americana lida com as outras nações. É muito provável que, mais cedo ou mais tarde, os EUA ganhem esta longa guerra de já 12 anos contra Iraque .... Mas, se não mudarem a sua maneira de lidar com os outros, poderão perder muito no futuro. Uma vez que é conhecida a dificuldade económica dos EUA para os seus assuntos domésticos, não lhes é possível financiar um plano Marechal para o Iraque, isto enquanto o presidente Afegão começa a achar complicado receber o dinheiro que lhe prometeram.

?Apesar de toda a minha experiência, odeio a guerra. A guerra nada resolve?, disse um dia o Presidente Dwight D. Eisenhower, o General que orientou a conclusão da II Guerra Mundial. Quanto mais cedo os EUA concordarem com o seu Presidente Guerreiro, melhor.
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