RC
10-03-2004, 23:10
A Nova Intolerância
Carlos Peixoto - Jornalista (publicado na Tribuna do Norte em 29/02/2004)
Contaminada por preconceitos étnicos, a França acaba de abrir espaço para a mais perigosa das interpretações absolutistas do que deva ser uma sociedade igualitária: o poder governamental de proibir o direito à diferença. Foi aprovada, há cerca de duas semanas na Assembléia Nacional, a proibição para o uso de símbolos religiosos nas escolas públicas do país. A medida não faz distinção entre crucifixos cristãos, solidéus judaicos e véus islâmicos, mas sabe-se, com certeza, que a comunidade muçulmana é o alvo principal dos legisladores franceses.
A "lei do "véu", como a medida vem sendo chamada, ainda precisa ser votada no Senado para entrar em vigor a partir de setembro, início do ano letivo francês. Apresentada pelo governo, em nome da preservação do laicismo nas escolas públicas, a lei da proibição ao uso de símbolos religiosos encobre ? sem nenhum trocadilho ? outros interesses. O maior deles é o desejo do conservadorismo francês de agradar aos anglo-americanos, após a oposição popular à nova cruzada sobre o Oriente. O mais urgente, inviabilizar qualquer avanço no debate para a implantação de uma sociedade verdadeiramente pluralista e multicultural, como prevê o anteprojeto de constituição para a União Européia. A velha França, que já foi a pátria da "Liberdade, Igualdade e Fraternidade", é hoje o berço da intolerância necessária à preservação da nova ordem econômica mundial.
Entre os três principais argumentos apresentados em defesa da nova lei ? preservação do laicismo, proibição de propaganda religiosa e apoio à integração social de jovens imigrantes nas escolas ? nenhum se sustenta diante de análises que levem em consideração os aspectos culturais, os direitos civis e as liberdades democráticas envolvidas na questão. O primeiro deles ? a natureza laica do ensino público ? sequer deveria ser mencionado, uma vez que se trata do uso de símbolos religiosos pelos estudantes, não pelos professores (o que também seria legitimamente discutível) ou da adoção de conceitos e interpretações religiosas no conteúdo das aulas a ser ministrado (o que realmente importa ser evitado em escolas públicas). Ao verdadeiro laicismo, como concebido pelos idealizadores da República, interessa a transmissão das ciências exatas e humanas sem interferências e livre dos dogmas religiosos, mas não a uniformização de comportamento e/ou pensamento dos jovens que recebem estes conhecimentos.
Quanto à acusação de propaganda religiosa, pretender que meninas muçulmanas usando véus cobrindo os cabelos, meninos da renovação carismática católica com crucifixos ao pescoço e jovens judeus usando solidéus são "fundamentalistas religiosos" e, por isso, representam uma ameaça ao entendimento e à aprendizagem é o mesmo que sustentar que o uso de camisetas com estampas do Che Guevara faz de qualquer um que a use um revolucionário, que todos que preferem roupas pretas são psicopatas depressivos ou, ainda, que cabelos e barbas grandes são sinais de desajuste social... As generalizações são sempre perigosas por se prestarem aos interesses de ocasião. Véus, crucifixos, solidéus, camisetas com estampas, roupas pretas e cabelos grandes são, para todos àqueles que os usam e mais ainda entre os jovens, símbolos de uma identidade cultural própria. Identidade herdada da coletividade no seio da qual nascemos ou aos quais aderimos por vontade pessoal.
A reivindicação do direito a manter uma identidade própria não interessa apenas aos muçulmanos da Europa (e de outras partes do globo, onde o Islam não é predominante), mas a todos aqueles que têm consciência da necessidade de opor-se aos avanços dos interesses desumanizantes da globalização e da escravatura do consumismo. No caso específico do véu, tratando-se de uma prescrição contida no Alcorão, estão enganados os que o consideram "elemento de opressão" para as mulheres islâmicas. Tarik Ramadan, professor suíço e uma das vozes muçulmanas modernizantes do Islam na Europa, alerta que, como tudo o mais na religião, "o véu nunca pode nem deve ser um objeto de coerção". Jovens muçulmanas, dentro e fora da Europa, que questionam a orientação da família e as tradições em assuntos tão íntimos e pessoais quanto o casamento e a escolha de uma carreira profissional, optam livremente pelo uso do véu como afirmação da sua individualidade.
É esse desconhecimento quanto ao direito de expressar sua própria identidade cultural, da qual a profissão de fé é um aspecto importante, que faz da iniciativa dos deputados franceses um perigosos precedente para o futuro democrático da Europa. As escolas públicas são concebidas para oferecer condições de acesso e tratamento iguais a quem as procura em busca de educação, independentes de credo, raça, cor ou classe social. É o mesmo princípio válido para o direito de circular nas ruas e avenidas, usar o sistema de transportes coletivos, contar com a proteção policial, se fazer representar nas assembléias legislativas e recorrer aos tribunais. Em uma sociedade democrática, no entanto, esse conceito de igualdade não significa que para ter direito a tudo isso o indivíduo deva se despersonalizar.
Milhões de filhos da segunda e terceira geração de imigrantes, não obstante terem nascidos em solo europeu, ainda são considerados "residentes temporários", uma denominação que leva em conta apenas às origens dos pais e que configura racismo. Intentar integrá-los à força neste tipo de sociedade, destituindo-os de suas identidades pessoais para tentar apagar as diferenças culturais e legais a que ainda estão submetidos, é subverter o próprio conceito de integração que deve se basear na aceitação das diferenças e na proteção às individualidades.
Projetos de sociedades que pretendem instalar comportamentos e pensamentos monolíticos e impessoais aos seus cidadãos se caracterizam como absolutistas. Para uma sociedade como a européia, que nunca foi homogênea e nasceu de um verdadeiro cadinho de povos, ignorar a importância que símbolos religiosos, culturais e políticos têm para a identificação de cada grupo ou indivíduo é, no mínimo, cinismo e hipocrisia para com a História. Ou então, a concretização de uma nova versão do Big Brother denunciado por George Orwell.
Carlos Peixoto - Jornalista (publicado na Tribuna do Norte em 29/02/2004)
Contaminada por preconceitos étnicos, a França acaba de abrir espaço para a mais perigosa das interpretações absolutistas do que deva ser uma sociedade igualitária: o poder governamental de proibir o direito à diferença. Foi aprovada, há cerca de duas semanas na Assembléia Nacional, a proibição para o uso de símbolos religiosos nas escolas públicas do país. A medida não faz distinção entre crucifixos cristãos, solidéus judaicos e véus islâmicos, mas sabe-se, com certeza, que a comunidade muçulmana é o alvo principal dos legisladores franceses.
A "lei do "véu", como a medida vem sendo chamada, ainda precisa ser votada no Senado para entrar em vigor a partir de setembro, início do ano letivo francês. Apresentada pelo governo, em nome da preservação do laicismo nas escolas públicas, a lei da proibição ao uso de símbolos religiosos encobre ? sem nenhum trocadilho ? outros interesses. O maior deles é o desejo do conservadorismo francês de agradar aos anglo-americanos, após a oposição popular à nova cruzada sobre o Oriente. O mais urgente, inviabilizar qualquer avanço no debate para a implantação de uma sociedade verdadeiramente pluralista e multicultural, como prevê o anteprojeto de constituição para a União Européia. A velha França, que já foi a pátria da "Liberdade, Igualdade e Fraternidade", é hoje o berço da intolerância necessária à preservação da nova ordem econômica mundial.
Entre os três principais argumentos apresentados em defesa da nova lei ? preservação do laicismo, proibição de propaganda religiosa e apoio à integração social de jovens imigrantes nas escolas ? nenhum se sustenta diante de análises que levem em consideração os aspectos culturais, os direitos civis e as liberdades democráticas envolvidas na questão. O primeiro deles ? a natureza laica do ensino público ? sequer deveria ser mencionado, uma vez que se trata do uso de símbolos religiosos pelos estudantes, não pelos professores (o que também seria legitimamente discutível) ou da adoção de conceitos e interpretações religiosas no conteúdo das aulas a ser ministrado (o que realmente importa ser evitado em escolas públicas). Ao verdadeiro laicismo, como concebido pelos idealizadores da República, interessa a transmissão das ciências exatas e humanas sem interferências e livre dos dogmas religiosos, mas não a uniformização de comportamento e/ou pensamento dos jovens que recebem estes conhecimentos.
Quanto à acusação de propaganda religiosa, pretender que meninas muçulmanas usando véus cobrindo os cabelos, meninos da renovação carismática católica com crucifixos ao pescoço e jovens judeus usando solidéus são "fundamentalistas religiosos" e, por isso, representam uma ameaça ao entendimento e à aprendizagem é o mesmo que sustentar que o uso de camisetas com estampas do Che Guevara faz de qualquer um que a use um revolucionário, que todos que preferem roupas pretas são psicopatas depressivos ou, ainda, que cabelos e barbas grandes são sinais de desajuste social... As generalizações são sempre perigosas por se prestarem aos interesses de ocasião. Véus, crucifixos, solidéus, camisetas com estampas, roupas pretas e cabelos grandes são, para todos àqueles que os usam e mais ainda entre os jovens, símbolos de uma identidade cultural própria. Identidade herdada da coletividade no seio da qual nascemos ou aos quais aderimos por vontade pessoal.
A reivindicação do direito a manter uma identidade própria não interessa apenas aos muçulmanos da Europa (e de outras partes do globo, onde o Islam não é predominante), mas a todos aqueles que têm consciência da necessidade de opor-se aos avanços dos interesses desumanizantes da globalização e da escravatura do consumismo. No caso específico do véu, tratando-se de uma prescrição contida no Alcorão, estão enganados os que o consideram "elemento de opressão" para as mulheres islâmicas. Tarik Ramadan, professor suíço e uma das vozes muçulmanas modernizantes do Islam na Europa, alerta que, como tudo o mais na religião, "o véu nunca pode nem deve ser um objeto de coerção". Jovens muçulmanas, dentro e fora da Europa, que questionam a orientação da família e as tradições em assuntos tão íntimos e pessoais quanto o casamento e a escolha de uma carreira profissional, optam livremente pelo uso do véu como afirmação da sua individualidade.
É esse desconhecimento quanto ao direito de expressar sua própria identidade cultural, da qual a profissão de fé é um aspecto importante, que faz da iniciativa dos deputados franceses um perigosos precedente para o futuro democrático da Europa. As escolas públicas são concebidas para oferecer condições de acesso e tratamento iguais a quem as procura em busca de educação, independentes de credo, raça, cor ou classe social. É o mesmo princípio válido para o direito de circular nas ruas e avenidas, usar o sistema de transportes coletivos, contar com a proteção policial, se fazer representar nas assembléias legislativas e recorrer aos tribunais. Em uma sociedade democrática, no entanto, esse conceito de igualdade não significa que para ter direito a tudo isso o indivíduo deva se despersonalizar.
Milhões de filhos da segunda e terceira geração de imigrantes, não obstante terem nascidos em solo europeu, ainda são considerados "residentes temporários", uma denominação que leva em conta apenas às origens dos pais e que configura racismo. Intentar integrá-los à força neste tipo de sociedade, destituindo-os de suas identidades pessoais para tentar apagar as diferenças culturais e legais a que ainda estão submetidos, é subverter o próprio conceito de integração que deve se basear na aceitação das diferenças e na proteção às individualidades.
Projetos de sociedades que pretendem instalar comportamentos e pensamentos monolíticos e impessoais aos seus cidadãos se caracterizam como absolutistas. Para uma sociedade como a européia, que nunca foi homogênea e nasceu de um verdadeiro cadinho de povos, ignorar a importância que símbolos religiosos, culturais e políticos têm para a identificação de cada grupo ou indivíduo é, no mínimo, cinismo e hipocrisia para com a História. Ou então, a concretização de uma nova versão do Big Brother denunciado por George Orwell.