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RC
10-03-2004, 22:59
TARIQ RAMADAN

Um Islão moderno

Filósofo islâmico suíço ataca a proibição do véu aprovada na França e se diz contra a formação de um Estado palestino

ERIKA CAMPELO
(Revista Época - 08/03/2004 - ed. 303)


A França debateu acaloradamente o véu das meninas muçulmanas. No mês passado, em defesa do caráter laico do Estado, o Parlamento francês proibiu o uso de 'símbolos religiosos ostensivos' nas escolas públicas. 'Na verdade, é uma lei contra o véu, todo o mundo sabe disso, essa discussão é uma hipocrisia', diz Tariq Ramadan, que se tornou uma espécie de celebridade intelectual ao longo desse debate. Professor de Filosofia em Friburgo, de 41 anos, esse suíço de origem egípcia que carrega como sobrenome a designação do mês sagrado muçulmano reivindica um Islã moderno e esclarecido. A favor de os muçulmanos terem visibilidade pública na França, Ramadan sustenta posições polêmicas. Ele é contra a criação de um Estado palestino e acha que 'os atentados suicidas contra os israelenses são condenáveis em si, mas explicáveis no contexto atual'. Além de de declarar que as muçulmanas têm o direito de usar o véu em público na França, posição atacada como retrógrada por parte da intelectualidade francesa, Ramadan propõe uma moratória, e não o fim, do apedrejamento de adúlteras nos países islâmicos.
Para muitos na França, por trás do discurso moderado de Ramadan, esconde-se um integrista islâmico. Sua origem fala contra ele. Ramadan é neto de Hassan al-Banna, fundador dos Irmãos Muçulmanos, o mais antigo grupo radical islâmico ainda em ativi-dade, criado no Egito na década de 1920. Mas ele se defende: 'Na França, existe uma vontade grande de procurar ambigüidades no que eu digo'.


ÉPOCA - O conflito no Oriente Médio traz tensões, mesmo na França. O senhor vê uma saída?
Tariq Ramadan - Vejo duas saídas. A primeira é a intervenção da comunidade internacional através de uma pressão sobre Is-rael. Bloqueio econômico, por exemplo. É preciso reconhecer que o Estado israelense produz terrorismo e repressão tanto quanto os grupos palestinos. O problema é que, hoje em dia, não se pode mais criticar Israel que logo se é acusado de anti-semitismo. Agindo assim, a comunidade internacional é responsável pelo desespero do povo palestino e pela morte de inocentes. Durante 50 anos, eles não cometeram nenhum atentado suicida. E o têm feito nestes últimos anos porque não há mais esperança.
ÉPOCA - O senhor não condena esses atentados?
Ramadan - Os atentados suicidas são condenáveis em si, mas explicáveis no contexto atual. A segunda solução de que falava é um desbloqueio psicológico. Falar da criação de dois Estados é uma utopia. Israelenses e palestinos não falam da mesma coisa quando se referem a dois Estados. Para os israelenses, um Estado de Israel será armado, superprotegido e fechado, um Estado judeu. Do outro lado, os palestinos jamais terão o Estado que pensam, porque, na consciência israelense, um Estado palestino só é viável como meio de protegê-los dos próprios palestinos. É preciso que o cidadão palestino pare de pensar que a cidadania israelense é ex-clusivamente judaica, e que cristãos e muçulmanos pertencem à segunda zona. Eles precisam compreender que um Estado único não significa a separação e a rejeição dos judeus. É, ao contrário, a aceitação de que todos são cidadãos dentro de um Estado co-mum. Com a criação de dois Estados, estaríamos consolidando a idéia de que judeus e palestinos não poderão nunca aceitar um ao outro.
ÉPOCA - O muro que Israel está construindo para isolar a Cisjordânia é a materialização disso?
Ramadan - É o Muro de Berlim revisto e corrigido. Colocaram um muro entre o homem do campo e sua plantação, isso é de-cretar sua morte. Para mim também é uma forma de terrorismo. Debati numa rede de TV australiana com um funcionário do Esta-do de Israel e ele disse que terrorismo é ter o objetivo de matar inocentes. Quando o Exército israelense lança uma bomba em cima de uma casa para matar uma pessoa e mata dez, podemos chamar isso de quê? Ele me respondeu que essa pessoa poderia ter pro-vocado a morte de 20 israelenses, então é normal matar dez palestinos. A comunidade internacional vê isso, sabe o que está aconte-cendo no Oriente Médio e ainda afirma que é uma solução que deve ser encontrada por dois parceiros em torno de uma mesa de discussão. Não é verdade. Quando um elefante discute com um rato, dizer que somos neutros é ficar do lado do elefante.
ÉPOCA - O senhor é favorável ao uso do véu e propôs uma moratória do apedrejamento das mulheres adúlteras. Essas posi-ções não são contraditórias com sua proposta de um Islã moderno?
Ramadan - Para a maioria dos sábios reconhecidos pelo Islã, o véu é uma prescrição, quer dizer, ele faz parte dos elementos da prática religiosa. Mas, segundo eles, nós não podemos obrigar uma mulher a utilizá-lo. Eu acredito na prescrição, mas o importante é saber o que eu proponho socialmente. Acredito que temos de deixar as mulheres livres, é proibido impor a uma mulher o uso do véu contra sua consciência. Foi por isso que eu me posicionei contra o Irã em 1979. Em relação à moratória, é impressionante a in-compreensão francesa. No Alcorão, o apedrejamento não diz respeito somente às mulheres, mas também aos homens. Os castigos corporais, apedrejamento, mão cortada e pena de morte estão nos textos sagrados. Existem, então, duas soluções. Podemos ficar aqui na Europa dizendo que não aceitamos. E ninguém vai nos escutar no mundo muçulmano, porque, se não aceitamos os textos sagrados, estamos jogando fora a religião. Sou favorável a uma segunda solução, que é lançar um apelo a uma moratória absoluta contra todos os castigos corporais e contra a pena de morte no mundo muçulmano, afirmando que eles fazem, sim, parte dos textos, mas que o contexto social no qual vivemos hoje torna essas práticas inaplicáveis. Somente assim podemos fazer progredir as men-talidades.
ÉPOCA - O senhor criticou a lei francesa que proíbe o uso de símbolos religiosos. Mas, numa sociedade ocidental, a religião não deve se limitar ao espaço da vida privada?
Ramadan - Não podemos obrigar as mulheres a usar o véu, mas também é contrário ao Islã e aos direitos humanos obrigá-las a tirá-lo. Por isso, essa lei é uma estupidez. Eu sou pelo princípio de liberdade, mas, quando digo isso na França, passo por retrógrado. Na França, há essa visão que reduz a escola a um santuário, uma espécie de nova igreja, na qual temos de tirar tudo quando entra-mos. Mas tudo o que é da ordem do religioso, pois Nike, Coca-Cola e toda a propaganda política podem entrar. Na verdade, é uma lei contra o véu, e não contra todos os símbolos religiosos. Todo o mundo sabe disso. Essa discussão é uma hipocrisia.
ÉPOCA - Mas não é preciso preservar a laicidade?
Ramadan - A escola é um espaço público como a rua. Quem representa o Estado tem a obrigação de ser neutro, não o aluno. Segundo a Constituição, minha liberdade de consciência deve ser respeitada. Não podemos deixar que as crenças pessoais de al-guns alunos interfiram no conteúdo das disciplinas e na escolha dos cursos a que vão assistir. Com essa lei estão privatizando o espa-ço escolar, transformando-o em santuário.
ÉPOCA - Seria possível a coabitação entre laicidade e crença?
Ramadan - Claro que é possível, os 5 milhões de muçulmanos que vivem na França, dos quais mais da metade é de franceses, nos provam isso todos os dias. Para explicar a utilidade dessa nova lei, o ministro do Interior francês, Nicolas Sarkosy, fez uma com-paração dizendo que, quando entra em uma mesquita, tira os sapatos, então é normal que uma aluna, quando entra na sala de aula, tire o véu. A diferença é que a mesquita pertence aos muçulmanos, é um lugar de culto. A escola é um lugar para todos, um lugar para os cidadãos com todas as suas especificidades. A laicidade não pede aos indivíduos que percam sua identidade. Ela as aceita com a condição de que se respeitem as regras comuns. E não há nada na prática religiosa que vá contra as regras comuns. Atual-mente, o que existe são os anticlericais, que estão transformando a idéia da laicidade em religião laica. Podemos chamá-los de inte-gristas. São eles que estão criando o problema.
ÉPOCA - O senhor é acusado por intelectuais franceses de fazer um discurso para a Europa e outro para o mundo muçulmano.
Ramadan - O que digo aqui digo também no mundo muçulmano de maneira firme. Eu digo, hoje, que a aplicação das penas corporais é unilateral: elas só são utilizadas contra as mulheres e os pobres. Falo isso na França, mas também na Jordânia, no Marro-cos, na Arábia Saudita e na Indonésia. Os que me interpelam na televisão, como Sarkosy, denunciam a Nigéria, mas ficam quietos em relação à Arábia Saudita. Lá também eles cortam mãos e apedrejam mulheres, mas ninguém denuncia, por causa do petróleo.
ÉPOCA - O senhor é teólogo, orador sem título religioso, porta-voz de alguns movimentos de jovens das periferias e também representante de um Islã dito de 'esquerda'. Como o senhor se definiria?
Ramadan - Como um intelectual. É assim que nós falamos no Ocidente, não é? Tenho formação em Filosofia e Letras France-sas e um doutorado em Islamologia Árabe. Sou professor de Islamologia na Universidade de Friburgo (Suíça).
ÉPOCA - Nos anos 80, o senhor viajou pelo Brasil e encontrou dom Hélder Câmara. Qual é seu interesse pela Teologia da Li-bertação? Uma Teologia da Libertação versão muçulmana é possível?
Ramadan - Li Leonardo Boff (o teólogo boliviano criador da Teologia da Libertação) e Gustavo Gutierrez. Existe uma conver-gência que me interessa muito em relação à libertação dos povos, eu me sinto muito à vontade com eles. Desde o século XIX, a tra-dição reformista muçulmana desenvolveu uma leitura das fontes pelas quais somente através da educação o povo será livre. Não se trata de teologia, porque não existe teologia no Islã. É uma leitura do direito, uma leitura das referências muçulmanas com o objetivo de libertação social. É exatamente a mesma tendência. Não podemos acreditar que o que aconteceu nos anos 1960 na tradição cató-lica depois do Vaticano II seja exclusivamente cristão. Há uma convergência com o mundo muçulmano e hoje eu trabalho com teólogos da Teologia da Libertação, seja nos Estados Unidos, seja na América do Sul. Nós temos todo esse trabalho de convergir às mesmas questões: saber o que significa uma ruptura, o que quer dizer a religiosidade. Em abril, vou trabalhar na universidade católi-ca Notre-Dame na Califórnia. Serei responsável por um programa que se chama Religião, Conflito e Promoção da Paz. É uma forma de trazer o diálogo para a base. Por acaso, nessa mesma universidade em que trabalharei, estará também Gutierrez.
ÉPOCA - Em alguns países, como os Estados Unidos, Estados árabes, a Índia, o Brasil, estamos assistindo a uma mistura cada vez maior entre o político e o religioso. Isso não é perigoso para a democracia?
Ramadan - Acredito que, se as sociedades rejeitam as escolhas religiosas de seus cidadãos, essas voltam como reivindicação sectária. É muito importante deixarmos bem claro o espaço público, do coletivo, mas, ao mesmo tempo, também é importante dei-xarmos as pessoas exprimir suas crenças. Em todas as sociedades em que o religioso foi aceito como forma de contribuição para uma nova percepção do mundo, o sectarismo é menor. Mas, quando o Estado quer negar o religioso, criam-se as seitas políticas. O ideal é abrir o espaço público, para o qual cada pessoa possa contribuir. Isso é muito difícil, demanda muito diálogo e conhecimento mútuo, mas é o único meio de não deixar o espaço público virar um novo campo de batalha para os sectários. Temos de encontrar o equilíbrio entre uma cidadania alimentada por sua identidade e um espaço público que deixa o privado viver, porque você não pode estar com Deus no domingo e com o diabo durante a semana.
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TARIQ RAMADAN

Trajetória
Nascido em Genebra há 41 anos, filho de pais egípcios. Professor de Islamologia em Friburgo e de Filosofia em Genebra, onde estudou. Sua pós-graduação em Ciências Islâmicas foi realizada na Universidade do Cairo

Livros recentes
Os Muçulmanos na Laicidade (em francês, 1995); Ser um Muçulmano Europeu (em francês, 1998); Muçulmanos na França (em francês, 1999); O Islã e o Ocidente (em alemão, 2000)

RC
12-05-2006, 20:32
reload 8)

RC
12-05-2006, 23:33
w3 irmão Ricardo,

Excelente entrevista. Obrigado irmão por o publicar aqui.

Uma só coisa para si e todos os membros. Uma regra que temos no congénere portal em inglês é a obrigatoriedade de citar a fonte de tudo que se publica, talvez um link se está na Net. Devem-se respeitar as fontes.

Ma'a-salaama,


s3 irmão Tayeb,

Recuperei do fundo do baús dos artigos publicados no forum


Já não sei onde encontrei o texto :lol:

contudo o texto tem a seguinte referência:

ERIKA CAMPELO
(Revista Época - 08/03/2004 - ed. 303)

Tayeb
12-05-2006, 23:34
s3,

O artigo penso que foi publicado originalmente por um movimento laico na França, o qual propositadamente não explica que Tariq Ramadan é bisneto maternal de Hassan al Banna, fundador da Irmandade Islâmica do Egipto. Creio que este facto dá-lhe uma maior credibilidade aos olhos de muçulmanos. Além de um brilhante académico, Tariq Ramadan é um muçulmano convicto.

RC
13-05-2006, 00:00
s3


Irmão Tayeb,

O ser praticante leva a isto:

boicote a Tariq Ramadan (http://www.metimes.com/articles/normal.php?StoryID=20060508-035831-8136r)


Ao contrários dos franceses os ingleses viram em Tariq uma mais valia...