RC
10-03-2004, 22:56
Os Pássaros
Carlos Peixoto - Jornalista
Todas as grandes religiões têm seus místicos e nenhuma delas os vê com bons olhos. O esoterismo, ou melhor, a visão íntima de Deus costuma alargar a crença para além da simples aceitação das doutrinas e, nem sempre, as ortodoxias se sentem à vontade com a união entre fé e conhecimento. No Islã, a corrente mística que manteve sempre renovada a mensagem transmitida por Mohammad (s.a.a.s) foi o sufismo. Farid ud-Din Abu Hamad Mohammed, nasceu por volta de 1120, simultaneamente ao aparecimento das gandes ordens sufis (turuq, singular tariqah).
* * *
Perfumista ou farmacêutico como o pai, Farid ud-Din incorporou o ofício ao nome (Attar) e, além do ano e cidade de nascimento (Nischapur, nordeste da Pérsia, hoje o Irã), local e circunstância da morte (na região do Khorassan, durante a invasão mongol do século XIII), pouco se sabe diferenciar os fatos das lendas em sua biografia. Sobre a conversão dele à mística islâmica, conta-se que, certo dia, um dervixe apareceu em sua loja e logo se pôs a chorar. Incomodado, Attar pediu que ele se retirasse. ?A mim nada custa partir, nada tenho comigo a não ser um manto.? ? respondeu-lhe o dervixe. ?Mas, vejas: quanto te custará partir e deixar tudo o que tens? Farias bem em considerar teus preparativos para te pores a caminho.? Em outra versão, depois de olhar a loja, o dervixe perguntou a Attar como ele pensa morrer. ?Da mesma forma que tu?, respondeu Attar. Surpreso, ele viu o dervixe estirar-se à porta e exalar o último suspiro. Em qualquer das versões, a atitude do dervixe levou Farid ud-Din Attar a questionar à vida e entregar-se a um período de contemplação, retiro e orações. Do seu aprendizado, teria surgido uma obra que se conta em 100 mil versos. Os mais famosos deles estão na A Linguagem dos Pássaros.
* * *
Um grupo de pássaros desejava encontrar a seu rei. Então, pediram à poupa sábia que lhes ajudasse em sua busca. A poupa lhes disse que o rei que estavam procurando se chamava Simurgh ("Trinta Pássaros", em persa) e vivia escondido na montanha de Kaf. A viagem até lá, porém, era muito difícil e perigosa. Os pássaros imploraram à poupa que os guiasse. A poupa aceitou, mas antes começou a ensinar sobre a viagem.
* * *
Para alcançar o alto da montanha, disse a poupa, é preciso atravessar cinco vales e dois desertos; passado o segundo deserto, entraremos no palácio do rei. Os pássaros de vontade débil, temerosos da viagem, começaram a dar desculpas. O louro, egocêntrico e egoísta, disse que no lugar de ir em busca do rei, procuraria o Santo Gral. O pavão real, alegou ter sonhado que voltava ao céu e que iria esperar pacientemente esse dia. A pata lamentou que precisava estar próxima da água e morreria separada dela. A coruja declarou que preferia ficar e buscar um tesouro em algumas ruínas. O rouxinol considerou que não necessitava viajar, porque estava enamorado da rosa e este amor era suficiente para ele...
* * *
E assim, aqueles que temiam perder seus desejos e sonhos imaginários, diante da realidade da viagem, desistiram. Para os que ficaram, a poupa contou maravilhosas histórias daqueles que fizeram a perigosa viagem. Inspirados, os pássaros começaram a viajem até o primeiro vale. Entretanto, logo também começaram os problemas, e eles se deram conta de que o caminho seria mais difícil do que haviam imaginado. Alguns voltaram a por desculpas. Um afirmava que a poupa não era suficientemente sábia para conduzi-los. Outro se queixou de satanás lhe ter possuído e lhe está pondo as coisas difíceis. E outro expressava que mais fácil seria buscar dinheiro e as comodidades de uma vida de luxo. A poupa decidiu que a única forma para que os pássaros compreendam, era descrever-lhes os sete vales e desertos da viajem.
* * *
O primeiro é o Vale da Busca. Nele, se busca a Verdade com inquietude, diz a poupa. Com constância, se busca um significado maior ao propósito da vida. Só um buscador com dedicação pode atravessar a salvo o primeiro vale e ir ao segundo, o Vale do Amor, onde se sente um desejo ilimitado de ver o Rei Amado. Um fogo abrasador começa a crescer no coração e se faz devastador. O lugar é mais perigoso que o primeiro vale, porque há obstáculos no caminho para por a prova o amor. Entretanto esse mesmo amor impulsiona ao buscador sair do vale e ir até uma terra mais alta: o terceiro vale, o Vale do Conhecimento. Uma vez que se entra nesta terra, o coração se ilumina com a verdade. Se adquire o conhecimento interior do Amado. Deste lugar o viajante continua a viajem ao Vale do Desapego, onde perde seus desejos de possessões mundanas. Não existe ataduras com o mundo material para o viajante que atravessa esse vale; liberado dos desejos, agora, o aspirante é completamente independente. Cada novo lugar que o buscador encontra é mais perigoso que o anterior e deve ser explorado passo à passo, porque cada um contém suas próprias provas e dificuldades. Assim, cada encontro com uma terra diferente é uma experiência nova. O quinto e último vale é o Vale da Unidade. O viajante experimenta nele que todos os seres são unos em essência, que toda variedade de idéias, experiências e criaturas da vida tem realmente uma só fonte. Mas, transpostos os vales, eis que começam os desertos...
* * *
O primeiro é o Deserto do Medo, onde a existência de si mesmo e de todos os demais é esquecida. O viajante vê a luz, não com os olhos da mente, sim com os olhos do coração. A porta do divino tesouro, o segredo dos segredos, se abre. Nesta terra, o intelecto já não funciona. Aqui se pergunta ao viajante quem és e o que és, e ele responde: "Não sei nada." O segundo, é o Deserto do Aniquilamento e da Morte. Neste ponto, o viajante se sente como uma gota que se funde no oceano da unidade com o Amado. O destino da viajem para encontrar ao rei está próximo...
* * *
Depois de ouvir a descrição da poupa sobre o que lhes esperava, os pássaros se animam tanto que imediatamente continuam a viajem. No caminho alguns morrem pelo calor e se jogam no mar. Outros se cansam e não podem continuar; um grupo é caçado por animais selvagens e outros mais se distraem tanto pelo atrativo das terras que atravessam, que se perdem e ficam para trás. Só trinta alcançam seu destino - a montanha de Kaf ? e são conduzidos ao salão real. Ao entrar, olham tudo assustados. Não sabem o que ocorre, porque no lugar de ver a Simurgh, tudo o que vêm é ?Trinta Pássaros?. Aturdidos, finalmente compreendem que, olhando-se a si mesmos, têm encontrado ao rei, e que em sua busca do rei, têm encontrado a si mesmos.
Carlos Peixoto - Jornalista
Todas as grandes religiões têm seus místicos e nenhuma delas os vê com bons olhos. O esoterismo, ou melhor, a visão íntima de Deus costuma alargar a crença para além da simples aceitação das doutrinas e, nem sempre, as ortodoxias se sentem à vontade com a união entre fé e conhecimento. No Islã, a corrente mística que manteve sempre renovada a mensagem transmitida por Mohammad (s.a.a.s) foi o sufismo. Farid ud-Din Abu Hamad Mohammed, nasceu por volta de 1120, simultaneamente ao aparecimento das gandes ordens sufis (turuq, singular tariqah).
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Perfumista ou farmacêutico como o pai, Farid ud-Din incorporou o ofício ao nome (Attar) e, além do ano e cidade de nascimento (Nischapur, nordeste da Pérsia, hoje o Irã), local e circunstância da morte (na região do Khorassan, durante a invasão mongol do século XIII), pouco se sabe diferenciar os fatos das lendas em sua biografia. Sobre a conversão dele à mística islâmica, conta-se que, certo dia, um dervixe apareceu em sua loja e logo se pôs a chorar. Incomodado, Attar pediu que ele se retirasse. ?A mim nada custa partir, nada tenho comigo a não ser um manto.? ? respondeu-lhe o dervixe. ?Mas, vejas: quanto te custará partir e deixar tudo o que tens? Farias bem em considerar teus preparativos para te pores a caminho.? Em outra versão, depois de olhar a loja, o dervixe perguntou a Attar como ele pensa morrer. ?Da mesma forma que tu?, respondeu Attar. Surpreso, ele viu o dervixe estirar-se à porta e exalar o último suspiro. Em qualquer das versões, a atitude do dervixe levou Farid ud-Din Attar a questionar à vida e entregar-se a um período de contemplação, retiro e orações. Do seu aprendizado, teria surgido uma obra que se conta em 100 mil versos. Os mais famosos deles estão na A Linguagem dos Pássaros.
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Um grupo de pássaros desejava encontrar a seu rei. Então, pediram à poupa sábia que lhes ajudasse em sua busca. A poupa lhes disse que o rei que estavam procurando se chamava Simurgh ("Trinta Pássaros", em persa) e vivia escondido na montanha de Kaf. A viagem até lá, porém, era muito difícil e perigosa. Os pássaros imploraram à poupa que os guiasse. A poupa aceitou, mas antes começou a ensinar sobre a viagem.
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Para alcançar o alto da montanha, disse a poupa, é preciso atravessar cinco vales e dois desertos; passado o segundo deserto, entraremos no palácio do rei. Os pássaros de vontade débil, temerosos da viagem, começaram a dar desculpas. O louro, egocêntrico e egoísta, disse que no lugar de ir em busca do rei, procuraria o Santo Gral. O pavão real, alegou ter sonhado que voltava ao céu e que iria esperar pacientemente esse dia. A pata lamentou que precisava estar próxima da água e morreria separada dela. A coruja declarou que preferia ficar e buscar um tesouro em algumas ruínas. O rouxinol considerou que não necessitava viajar, porque estava enamorado da rosa e este amor era suficiente para ele...
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E assim, aqueles que temiam perder seus desejos e sonhos imaginários, diante da realidade da viagem, desistiram. Para os que ficaram, a poupa contou maravilhosas histórias daqueles que fizeram a perigosa viagem. Inspirados, os pássaros começaram a viajem até o primeiro vale. Entretanto, logo também começaram os problemas, e eles se deram conta de que o caminho seria mais difícil do que haviam imaginado. Alguns voltaram a por desculpas. Um afirmava que a poupa não era suficientemente sábia para conduzi-los. Outro se queixou de satanás lhe ter possuído e lhe está pondo as coisas difíceis. E outro expressava que mais fácil seria buscar dinheiro e as comodidades de uma vida de luxo. A poupa decidiu que a única forma para que os pássaros compreendam, era descrever-lhes os sete vales e desertos da viajem.
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O primeiro é o Vale da Busca. Nele, se busca a Verdade com inquietude, diz a poupa. Com constância, se busca um significado maior ao propósito da vida. Só um buscador com dedicação pode atravessar a salvo o primeiro vale e ir ao segundo, o Vale do Amor, onde se sente um desejo ilimitado de ver o Rei Amado. Um fogo abrasador começa a crescer no coração e se faz devastador. O lugar é mais perigoso que o primeiro vale, porque há obstáculos no caminho para por a prova o amor. Entretanto esse mesmo amor impulsiona ao buscador sair do vale e ir até uma terra mais alta: o terceiro vale, o Vale do Conhecimento. Uma vez que se entra nesta terra, o coração se ilumina com a verdade. Se adquire o conhecimento interior do Amado. Deste lugar o viajante continua a viajem ao Vale do Desapego, onde perde seus desejos de possessões mundanas. Não existe ataduras com o mundo material para o viajante que atravessa esse vale; liberado dos desejos, agora, o aspirante é completamente independente. Cada novo lugar que o buscador encontra é mais perigoso que o anterior e deve ser explorado passo à passo, porque cada um contém suas próprias provas e dificuldades. Assim, cada encontro com uma terra diferente é uma experiência nova. O quinto e último vale é o Vale da Unidade. O viajante experimenta nele que todos os seres são unos em essência, que toda variedade de idéias, experiências e criaturas da vida tem realmente uma só fonte. Mas, transpostos os vales, eis que começam os desertos...
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O primeiro é o Deserto do Medo, onde a existência de si mesmo e de todos os demais é esquecida. O viajante vê a luz, não com os olhos da mente, sim com os olhos do coração. A porta do divino tesouro, o segredo dos segredos, se abre. Nesta terra, o intelecto já não funciona. Aqui se pergunta ao viajante quem és e o que és, e ele responde: "Não sei nada." O segundo, é o Deserto do Aniquilamento e da Morte. Neste ponto, o viajante se sente como uma gota que se funde no oceano da unidade com o Amado. O destino da viajem para encontrar ao rei está próximo...
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Depois de ouvir a descrição da poupa sobre o que lhes esperava, os pássaros se animam tanto que imediatamente continuam a viajem. No caminho alguns morrem pelo calor e se jogam no mar. Outros se cansam e não podem continuar; um grupo é caçado por animais selvagens e outros mais se distraem tanto pelo atrativo das terras que atravessam, que se perdem e ficam para trás. Só trinta alcançam seu destino - a montanha de Kaf ? e são conduzidos ao salão real. Ao entrar, olham tudo assustados. Não sabem o que ocorre, porque no lugar de ver a Simurgh, tudo o que vêm é ?Trinta Pássaros?. Aturdidos, finalmente compreendem que, olhando-se a si mesmos, têm encontrado ao rei, e que em sua busca do rei, têm encontrado a si mesmos.