Osama
06-03-2004, 17:40
ALGUNS PONTOS INFORMATIVOS SOBRETUDO PARA AMERICANOS
O fundamentalismo Islâmico (ou o que alguns, incluindo Lou Dobbs da CNN Moneyline, chamam de "Islamismo", referindo-se a um Islão especificamente político), historicamente, NÃO representa grande ameaça para os interesses Ocidentais (com os quais quero dizer corporação, petróleo e interesses geográficos), tem antes sido explorado de modo a servir esses interesses. Lembram-se do Lawrence da Arábia? Que outro objectivo era o seu, que não o de conseguir estabelecer, durante a I Guerra Mundial, uma aliança Britânica com os Hashemitas, os quais, certamente, os padrões de Lou Dobbs qualificariam de "Islamitas"? Mais tarde, os Britânicos ajudaram a família real Saudita (protectores da escola Wahabita do Islão, geralmente descrita como encontrando-se entre as escolas mais conservadoras, seguida tanto por Osama bin Laden, como pelos Sauditas em geral) a alcançar o poder. Após a II Guerra Mundial, os EUA herdaram a Arábia Saudita como cliente, e todos nós sabemos que, desde então, as companhias petrolíferas americanas têm aí construído imensos poços de petróleo. (Só Aramco, antes da sua nacionalização em meados dos anos 80, produziu uns 3 trilhões das reservas Árabes.).
Os EUA ajudaram a criar, a recrutar e a financiar os fundamentalistas Mujahadin, incluindo uns 30.000 jovens voluntários provenientes de todo o mundo Muçulmano, os quais, nos anos 80, vinham combater o "Comunismo ateu" no Afeganistão. Os EUA encorajaram-nos a encararem a guerra em que se envolviam, como tratando-se de uma jihad (no sentido de uma "Guerra Santa", um significado que, usualmente, a palavra NÃO possui), e colocou muitos em contacto com o jovem Osama bin Laden, então um aliado. A administração Reagan estava apaixonada pelo Islão fundamentalista, desde que este servisse às suas intenções.
A companhia Unocal, com base na Califórnia, manteve negociações cordiais com os Taliban do Afeganistão exactamente até ao 11 de Setembro, negociações essas que tinham como objectivo a construção de um oleoduto através do território Afegão; o representante do Departamento de Estado e o empresário do petróleo, Zalmay Khalilzad, argumentaram até 1998 que os Taliban eram potenciais parceiros de negócios amigáveis, que "não praticavam o mesmo estilo fundamentalista anti-americano praticado no Irão".
Muçulmanos de todo o mundo possuem imensas razões LEGÍTIMAS para se ressentirem da política norte-americana. A saber: a concessão de apoio quase absoluto ao sionista estado estabelecido de Israel, no seu relacionamento com o povo Palestiniano indígena; a imposição de brutais sanções ao Iraque, contrárias à lógica e à moralidade; a manutenção de bases por todo o Golfo Pérsico, em oposição às sensibilidades e interesses locais; o apoio a regimes brutais, incluindo os do Xá do Irão e o de Suharto na Indonésia (o qual, inquestionavelmente, tem mais sangue a sujar-lhe as mãos do que o grande vilão e antigo amigo dos EUA, Saddam Hussein).
Tipicamente, os Muçulmanos NÃO odeiam os EUA enquanto conceito abstracto, NÃO rejeitam a sua cultura no total e NEM pretendem a destruição da civilização Americana. Na verdade, muitos sentem-se incomodados com alguns aspectos do comportamento Americano, tal como também se sentem várias pessoas, desde a América Central ao Japão. Mas uma apuração internacional da Zogby, liberada a 11 de Junho deste ano, mostra que, em nove países Muçulmanos, incluindo o Bangladesh e a Malásia, o país estrangeiro que mais admiram são os EUA.
Os Muçulmanos e os Judeus da Palestina e de Israel NEM SEMPRE se odiaram uns aos outros, e o actual conflito do Médio Oriente NÃO é um conflito com vários séculos de existência. Pelo contrário, começou com o influxo de Judeus estrangeiros para a região após a I Guerra Mundial, influxo esse que se transformou numa inundação como resultado do Holocausto e que, com a ajuda internacional, resultou na formação de Israel como um estado especificamente Judeu, em 1948. A colonização Judaica e o terrorismo (tão bem documentado pelo historiador Israelita Judeu, Ilan Paper), resultou no deslocamento de 750. 000 Árabes Palestinos (incluindo quer Cristãos, quer Muçulmanos). O conflito Israelo-Árabe não é, essencialmente, um conflito que tem por base o Islão, ou um confronto entre o Islão e outros credos; é, sim, um conflito que tem por base esta apropriação indevida de terras, esta colonização, esta desapropriação e opressão, a qual enfureceu o mundo Muçulmano, como enfureceria também qualquer ser humano pensante e moral. Infelizmente, alguns Cristãos fundamentalistas residentes neste país tendem a descrever esta injustiça como tratando-se da concretização da profecia Bíblica, e não toleram qualquer divergência no que respeita à causa Sionista, visto terem-na adoptado como se deles mesmo fosse. ("Deus deu-lhes a terra, pelo que não me incomodem com pormenores históricos, e fim da discussão."). É difícil de conceber uma ilusão mais prejudicial à paz mundial e à causa da justiça.
Por fim: na sua compreensão do Islão, os Americanos deveriam pensar um pouco num dos principais episódios da história mundial, as Cruzadas, ou as Guerras da Cruz, as quais dilaceraram a Terra Santa entre 1096 e 1291. Durante estes dois séculos, os Cristãos Europeus procuraram recuperar o território Cristão que haviam perdido para os Muçulmanos Turcos ? de qualquer modo, território esse que era governado pelos Muçulmanos desde princípios do século sétimo, de uma maneira geralmente agradável tanto para Judeus e Cristãos, como para Muçulmanos ? e cometeram atrocidades indescritíveis. Em Julho de 1099 Jerusalém foi conquistada, e os soldados Católicos Romanos massacraram todos os habitantes Muçulmanos e Judeus, incluindo mulheres e crianças. E nem o fervor dos Cruzados se esgotou com os não-Cristãos; frustrados com o insucesso sofrido na Palestina em 1204, saquearam Constantinopla (a actual Istambul), em seguida o centro da Ortodoxia Oriental. Comparativamente, o comportamento (historicamente conhecido) dos exércitos Muçulmanos era cortês, tendo o líder curdo do século XII, Saladino, recebido altos elogios tanto de Cristãos, como de Muçulmanos, devido ao seu espírito humanitário.
O mundo Islâmico recorda-se das Cruzadas; George Bush, tal como muitos Americanos, não possui a mínima ideia a seu respeito. Daí a sua referência assombrosamente imbecil à "Guerra do Terrorismo" como uma "Cruzada", proferida no dia 16 de Setembro de 2001 ? referência, essa, que originou um escândalo imediato e que se espalhou por todo o mundo Muçulmano. Sem dúvida alguma, referência proferida sem qualquer intenção de ofender. Mas uma tal ignorância em acção, num mundo onde o preconceito religioso conduz a acções idiotas, que vão desde Belfast, às Balcãs, de Gujarat, às Molucas, é, de facto, uma ignorância perigosa.
[align=right:9e2c260dd8]Por Gary Leupp
Gary Leupp é um professor associado, do Departamento de História, da Universidade de Tufts,
e coordenador do Programa de Estudos Asiáticos. Pode ser consultado em: gleupp tuffs.edu[/align:9e2c260dd8].
[align=right:9e2c260dd8]Cortesia: Revista Al Furqán, nº. 136[/align:9e2c260dd8].
O fundamentalismo Islâmico (ou o que alguns, incluindo Lou Dobbs da CNN Moneyline, chamam de "Islamismo", referindo-se a um Islão especificamente político), historicamente, NÃO representa grande ameaça para os interesses Ocidentais (com os quais quero dizer corporação, petróleo e interesses geográficos), tem antes sido explorado de modo a servir esses interesses. Lembram-se do Lawrence da Arábia? Que outro objectivo era o seu, que não o de conseguir estabelecer, durante a I Guerra Mundial, uma aliança Britânica com os Hashemitas, os quais, certamente, os padrões de Lou Dobbs qualificariam de "Islamitas"? Mais tarde, os Britânicos ajudaram a família real Saudita (protectores da escola Wahabita do Islão, geralmente descrita como encontrando-se entre as escolas mais conservadoras, seguida tanto por Osama bin Laden, como pelos Sauditas em geral) a alcançar o poder. Após a II Guerra Mundial, os EUA herdaram a Arábia Saudita como cliente, e todos nós sabemos que, desde então, as companhias petrolíferas americanas têm aí construído imensos poços de petróleo. (Só Aramco, antes da sua nacionalização em meados dos anos 80, produziu uns 3 trilhões das reservas Árabes.).
Os EUA ajudaram a criar, a recrutar e a financiar os fundamentalistas Mujahadin, incluindo uns 30.000 jovens voluntários provenientes de todo o mundo Muçulmano, os quais, nos anos 80, vinham combater o "Comunismo ateu" no Afeganistão. Os EUA encorajaram-nos a encararem a guerra em que se envolviam, como tratando-se de uma jihad (no sentido de uma "Guerra Santa", um significado que, usualmente, a palavra NÃO possui), e colocou muitos em contacto com o jovem Osama bin Laden, então um aliado. A administração Reagan estava apaixonada pelo Islão fundamentalista, desde que este servisse às suas intenções.
A companhia Unocal, com base na Califórnia, manteve negociações cordiais com os Taliban do Afeganistão exactamente até ao 11 de Setembro, negociações essas que tinham como objectivo a construção de um oleoduto através do território Afegão; o representante do Departamento de Estado e o empresário do petróleo, Zalmay Khalilzad, argumentaram até 1998 que os Taliban eram potenciais parceiros de negócios amigáveis, que "não praticavam o mesmo estilo fundamentalista anti-americano praticado no Irão".
Muçulmanos de todo o mundo possuem imensas razões LEGÍTIMAS para se ressentirem da política norte-americana. A saber: a concessão de apoio quase absoluto ao sionista estado estabelecido de Israel, no seu relacionamento com o povo Palestiniano indígena; a imposição de brutais sanções ao Iraque, contrárias à lógica e à moralidade; a manutenção de bases por todo o Golfo Pérsico, em oposição às sensibilidades e interesses locais; o apoio a regimes brutais, incluindo os do Xá do Irão e o de Suharto na Indonésia (o qual, inquestionavelmente, tem mais sangue a sujar-lhe as mãos do que o grande vilão e antigo amigo dos EUA, Saddam Hussein).
Tipicamente, os Muçulmanos NÃO odeiam os EUA enquanto conceito abstracto, NÃO rejeitam a sua cultura no total e NEM pretendem a destruição da civilização Americana. Na verdade, muitos sentem-se incomodados com alguns aspectos do comportamento Americano, tal como também se sentem várias pessoas, desde a América Central ao Japão. Mas uma apuração internacional da Zogby, liberada a 11 de Junho deste ano, mostra que, em nove países Muçulmanos, incluindo o Bangladesh e a Malásia, o país estrangeiro que mais admiram são os EUA.
Os Muçulmanos e os Judeus da Palestina e de Israel NEM SEMPRE se odiaram uns aos outros, e o actual conflito do Médio Oriente NÃO é um conflito com vários séculos de existência. Pelo contrário, começou com o influxo de Judeus estrangeiros para a região após a I Guerra Mundial, influxo esse que se transformou numa inundação como resultado do Holocausto e que, com a ajuda internacional, resultou na formação de Israel como um estado especificamente Judeu, em 1948. A colonização Judaica e o terrorismo (tão bem documentado pelo historiador Israelita Judeu, Ilan Paper), resultou no deslocamento de 750. 000 Árabes Palestinos (incluindo quer Cristãos, quer Muçulmanos). O conflito Israelo-Árabe não é, essencialmente, um conflito que tem por base o Islão, ou um confronto entre o Islão e outros credos; é, sim, um conflito que tem por base esta apropriação indevida de terras, esta colonização, esta desapropriação e opressão, a qual enfureceu o mundo Muçulmano, como enfureceria também qualquer ser humano pensante e moral. Infelizmente, alguns Cristãos fundamentalistas residentes neste país tendem a descrever esta injustiça como tratando-se da concretização da profecia Bíblica, e não toleram qualquer divergência no que respeita à causa Sionista, visto terem-na adoptado como se deles mesmo fosse. ("Deus deu-lhes a terra, pelo que não me incomodem com pormenores históricos, e fim da discussão."). É difícil de conceber uma ilusão mais prejudicial à paz mundial e à causa da justiça.
Por fim: na sua compreensão do Islão, os Americanos deveriam pensar um pouco num dos principais episódios da história mundial, as Cruzadas, ou as Guerras da Cruz, as quais dilaceraram a Terra Santa entre 1096 e 1291. Durante estes dois séculos, os Cristãos Europeus procuraram recuperar o território Cristão que haviam perdido para os Muçulmanos Turcos ? de qualquer modo, território esse que era governado pelos Muçulmanos desde princípios do século sétimo, de uma maneira geralmente agradável tanto para Judeus e Cristãos, como para Muçulmanos ? e cometeram atrocidades indescritíveis. Em Julho de 1099 Jerusalém foi conquistada, e os soldados Católicos Romanos massacraram todos os habitantes Muçulmanos e Judeus, incluindo mulheres e crianças. E nem o fervor dos Cruzados se esgotou com os não-Cristãos; frustrados com o insucesso sofrido na Palestina em 1204, saquearam Constantinopla (a actual Istambul), em seguida o centro da Ortodoxia Oriental. Comparativamente, o comportamento (historicamente conhecido) dos exércitos Muçulmanos era cortês, tendo o líder curdo do século XII, Saladino, recebido altos elogios tanto de Cristãos, como de Muçulmanos, devido ao seu espírito humanitário.
O mundo Islâmico recorda-se das Cruzadas; George Bush, tal como muitos Americanos, não possui a mínima ideia a seu respeito. Daí a sua referência assombrosamente imbecil à "Guerra do Terrorismo" como uma "Cruzada", proferida no dia 16 de Setembro de 2001 ? referência, essa, que originou um escândalo imediato e que se espalhou por todo o mundo Muçulmano. Sem dúvida alguma, referência proferida sem qualquer intenção de ofender. Mas uma tal ignorância em acção, num mundo onde o preconceito religioso conduz a acções idiotas, que vão desde Belfast, às Balcãs, de Gujarat, às Molucas, é, de facto, uma ignorância perigosa.
[align=right:9e2c260dd8]Por Gary Leupp
Gary Leupp é um professor associado, do Departamento de História, da Universidade de Tufts,
e coordenador do Programa de Estudos Asiáticos. Pode ser consultado em: gleupp tuffs.edu[/align:9e2c260dd8].
[align=right:9e2c260dd8]Cortesia: Revista Al Furqán, nº. 136[/align:9e2c260dd8].