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Vizualizar Versão Completa : Islam e Democracia


RC
10-02-2004, 08:56
Islam e Democracia - Um Confronto de Civilizações é Inevitável?
Eu não creio que um confronto de civilizações seja inevitável, mas eu acho que existem muitas pessoas no mundo que querem um confronto de civilizações. Pelos últimos 50 anos o ocidente em geral e os Estados Unidos em particular, tem se envolvido em uma abordagem fundamentalmente cínica, ilusória e incorreta em seu relacionamento com países em todo o mundo islâmico.

Essa abordagem tem sido muito simples. Nós apoiamos qualquer ditador independente de quão cruel ele seja, desde que ele prometesse que não era um comunista e depois, quando a ameaça do Comunismo pareceu diminuir, que ele manteria sob controle o potencial radicalismo surgindo de seu povo. Isso foi feito em nome de um ideal conhecido como estabilidade, para evitar uma revolução islâmica nos moldes da que ocorreu no Irã. Os Estados Unidos e a maioria do resto do Ocidente falhou em viver os valores da democracia, devido ao seu apoio a regimes autocráticos, mas o Islam não tem disputas com a democracia como um fenômeno se apenas a democracia for propriamente expressada.

Existem pessoas no mundo islâmico que tem adotado a posição de que a democracia em sua essência é incompatível com o Islam. Um argumento padrão é o seguinte: O Islam se apóia na soberania de Deus e a democracia se apóia na soberania do povo ? o que pode ser mais incompatível que isso? Parece um argumento poderoso.

É verdade que no Islam a soberania absoluta está em Deus, mas aplicar a lei requer esforço humano. O ato de fiqh, a interpretação e aplicação da lei divina para casos particulares, tem que ser feito pelos humanos. Se tivéssemos uma revelação contínua poderia ser diferente, mas não temos. O processo de moldar o governo é a responsabilidade do ser humano tentando ser fiel e responsável aos valores de suas tradições e crenças.

Do lado da democracia, a afirmação de que na democracia a soberania do povo é fundamental é um mal-entendido do que nós pretendemos por democracia hoje. Ninguém em uma democracia constitucional liberal crê que todos os nossos direitos e liberdades fundamentais são determinados pelo povo, porque se fossem, toda vez que uma maioria quisesse prejudicar uma minoria não haveria nada errado com isso. Mas nós acreditamos que temos certos direitos fundamentais que existem independentemente do que a maioria diz. De onde eles vêm? Algumas pessoas acham que eles vem da natureza, outras acreditam que vem de Deus.

De fato, os autores da Declaração de Independência dos Estados Unidos disseram explicitamente que eles vieram de Deus. Isso significa que as pessoas fazem leis enquanto elas forem compatíveis com alguns valores fundamentais que transcendem o processo de decisão humano. Existem sábios no mundo islâmico que estão dizendo que uma vez propriamente compreendida a democracia não existe razão para concluir que ela demanda uma noção de soberania que é incompatível com a soberania absoluta de Deus.

A crença absoluta de muitos fanáticos dentro do ocidente secular e tradições ocidentais religiosas é de que devemos todos nos tornar ocidentais. O que eu considero difícil sobre essa tese é um incrível ato de negação no qual é assumido que algo está inerentemente errado com os muçulmanos.

Existem 1.2 bilhões de pessoas nesse planeta que são muçulmanas, com níveis variados de educação, mas elas acreditam que o Islam é uma revelação de Deus. O mujtahid sempre reconhece que ele não está falando em nome de Deus e que a grande maioria das leis na tradição islâmica não são vistas como teocráticas mas como leis que são derivadas dos esforços de seres humanos tentando compreender a vontade divina. Então é importante para os muçulmanos reconhecerem que ao invés de olharem para a lei islâmica como um sistema teocrático monolítico, ela deve ser reconhecida como princípios divinos que nos foram dados.

Nós diferiremos em particularidades, mas no geral os princípios que regem a lei constitucional ocidental são os mesmos princípios legais atuando na lei islâmica. O que eu acho muito desolador é que a maioria dos nossos juristas muçulmanos são quase que totalmente ignorantes das teorias e sistemas legais ocidentais. O Islam é um sistema legal que pode absorver muito do que nós temos de caro no ocidente em termos de nossos ideiais democráticos.

Se por democracia entendemos uma cidadania na qual os seres humanos participam em alcançar a qualidade de vida que desejam para si mesmos, seus filhos e para os outros, então eu diria que a democracia é absolutamente compatível com a tradição islâmica.

Um tirano não adere a lei mas segue seus desejos pessoais e essa tem sido a norma por muito tempo nos países muçulmanos, e existem muitas razões para isso. Esse fato tem levado a condições sociais no mundo muçulmano que são ao mesmo tempo degradantes e debilitantes. Elas causam uma enervação na vontade e no espírito do povo.

Quando perguntarmos ?o que deu errado?, devemos reconhecer que os muçulmanos provaram estar entre as mentes mais produtivas de nossa atual civilização, mantendo posições destacadas em corporações, na medicina e na engenharia. Nós tivemos ganhadores do Prêmio Nobel e contribuímos para fazer desse mundo um lugar melhor quando o ar da liberdade esteve lá para nutri-lo, mas frequentemente o espírito foi perdido.

(Trecho de um diálogo entre Noah Feldman, professor na Universidade de Nova York e autor do livro ?After Jihad: America and the Struggle for Islamic Democracy? e sheikh Hamza Yusuf. Sheikh Hamza Yusuf se converteu ao Islam aos 17 anos (hoje tem 43), se formou em Teologia Islâmica nos Emirados Árabes e viajou pelo Oriente Médio para complementar seus estudos, sendo orientado pelos melhores sheikhs da atualidade. É graduado em 2 cursos universitários por universidades americanas.)

islamicchat.blogspot (http://islamicchat.blogspot.com/)

Tayeb
10-02-2004, 16:54
Amigo Ricardo:

É interessante a hiprocrisia da França, apoiada por todos os paísies Ocientais, aquando das eleições democráticas na Argélia, resultados que foram roubados à FIS pelos militares.

Quero ver até que ponto os EUA, e os seus aliados incluindo o governo de coligação da direita em Portugal, quererão que haja um homem, um voto no Iraque. Aceitarão o risco da democracia básica resultar num regime semelhante ao do Irão?

Enquanto a hipocrisia reinar, com a democracia ao "meu gosto" proposto pelos países que se dizem democráticos, os muçulmanos nunca confiarão no que lhes é dito. Até agora, a "democracia" que se oferece aos muçulmanos é em forma de ditaduras sanguinárias apoiadas pelo Ocidente.

Salaams - Paz!
Tayeb

RC
11-02-2004, 12:53
salaam Tayeb

O Ocidente defende os seus interesses, coloca no poder quem bem entende, e se o ocidente decide que essa pessoa é democratica, assim fica arrumada a questão.

França e Alemanha, só não atacaram o Iraque por questões de interesses própios, no fundo não são melhores que os outros.

Porquê estes países não se importaram de atacar a Jugoslávia sem mandato da ONU, para resolver a questão do Kosovo :?:

Ricardo Correia


Fica ainda em baixo o texto:

Palestina: a solução final e José Saramago

As imagens da força militar israelense vêm se transmitindo a todo o
mundo. Soldados disparando na cabeça dos feridos. Tanques desmoronando as
paredes das casas, dos escritórios e do quartel de Arafat. Centenas de
crianças e homens com a cabeça coberta com capuchas enquanto são levados
para campos de concentração à ponta de rifles. Helicópteros de combate
destruindo mercados; tanques arrasando oliveiras, laranjeiras e limoeiros.
As ruas de Ramallah devastadas. Mesquitas e escolas cheias de impactos de
balas; os desenhos das crianças feitos em pedaços, crucifixos despedaçados,
paredes com os grafites dos meliantes.

Milhares de palestinos cercados por tanques; com eletricidade cortada,
água, serviço telefônico e comida. As tropas de assalto derrubam portas e
destroçam móveis e utensílios de cozinha, tudo que for indispensável para a
vida. Alguém pode ignorar que os israelenses estão praticando o genocídio
contra um povo inteiro, amontoado nos porões sob as ruínas de suas casas?
Aos sobreviventes, entre feridos e moribundos, deliberadamente são negados
toda assistência médica, devido à decisão sistemática e metódica do Alto
Comando israelense de bloquear todas as ambulâncias, prender, e inclusive
disparar contra seus motoristas e médicos de emergência. Os descendentes do
Holocausto reivindicam para si, com hipocrisia e rancor, o monopólio deste
termo, que melhor descreve o ataque a todo um povo com a cumplicidade da
maioria dos israelenses. Temos o duvidoso privilegio de ver e ler enquanto
este horror ocorre e salvar algumas poucas almas valentes.


O público israelense, seus meios de comunicação, intelectuais e
jornalistas se escandalizaram quando o autor português José Saramago,
ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, enfrentou-os com uma verdade
histórica: "o que está sucedendo na Palestina é um crime que podemos
comparar com o que ocorreu em Auschwitz".

Em lugar de refletir acerca de suas ações violentas, a opinião pública
de Tel Aviv se voltou contra Saramago por ter se atrevido a compará-la com
os nazistas. Em sua cegueira moral, Amoz Oz, escritor israelense e algumas
vezes pacifista (qualidade que subsiste até que seu país entre em guerra),
acusou Saramago de "anti-semita" e de ter uma "incrível cegueira moral". A
profunda imoralidade de uma guerra contra toda uma população é um crime
contra a humanidade. Não há exceções. São precisamente aqueles intelectuais
israelenses e da diáspora, que dizem ser "progressistas", que têm exposto
sua própria cegueira nacional e covardia moral, encobrindo a apologia do
terror israelense atual com os sudários das vítimas do Holocausto de 50 anos
atrás.

Só há que se ler a imprensa israelense para entender a validez da
analogia histórica de Saramago. Todos os dias, líderes respeitáveis e
proeminentes, eleitos pelos eleitores israelenses, "bestializam" seus
adversários palestinos, sobretudo para justificar sua própria violência
desmedida. De acordo com o jornal Ma'ariv, citado por Robert Fisk, um
oficial do exército sugere que suas tropas estudem as táticas adotadas pelos
nazistas durante a Segunda Guerra Mundial: "se nosso trabalho é tomar campos
de refugiados densamente povoados ou nos apoderar da Casbah de Nablus, um
oficial deve tomar em conta as lições das batalhas passadas, inclusive
analisar a maneira em que os alemães atuaram no gueto de Varsóvia".

Quando a imprensa de Israel tachou Saramago de anti-semita, estava
disposta a estender essa calúnia aos oficiais de seu exército, às suas
tropas, por elas se basearem nas mesmas analogias? Acaso os oficiais
israelenses dirão meramente que "cumpriam ordens" ao explodirem as
edificações com mulheres, crianças e idosos dentro?

Nos foros mundiais, desde a União Européia até as Nações Unidas e o
terceiro mundo, condena-se Israel por seus atos contra a humanidade. Os
defensores de Tel Aviv verão que qualificar os críticos como "anti-semitas"
já não intimida a ninguém. A opinião pública mundial tem visto e lido muito.
Estamos nos dando conta que as vítimas podem se converter em vitimários; que
a ocupação militar leva à limpeza étnica e às expulsões em massa; que os
arranhões podem acabar em gangrena.

Como era previsível, Washington serve às organizações judias e aos
militaristas da extrema direita; é o único governo no mundo que acolhe o
terror do Estado israelense contra os líderes de confissão muçulmana e
cristã, e que é contrario aos interesses das maiores companhias petrolíferas
e seus aliados sauditas e kuwaitianos.

Embora grupos reduzidos de dissidentes israelenses protestem e muitos
reservistas se recusem a servir no exército de ocupação, o comentário de
Saramago acerca do público em geral de Israel também se aplica à maioria da
diáspora que defende este país: "Um sentido de impunidade caracteriza hoje
em dia a população israelense e seu exército. Tornaram-se financiadores do
Holocausto". Como um bom Estado-polícia, o governo de Tel Aviv retirou os
livros de Saramago das livrarias e bibliotecas. Igualmente importante para
empreender uma política de genocídio é proibir, como têm feito, a entrada de
qualquer jornalista nos guetos palestinos, salvo os encarregados de escrever
os boletins de imprensa do exército israelense.

Como na Alemanha nazista, juntam todos os homens palestinos entre 16 e
60 anos; a muitos arrancam as roupas até deixá-los nus, os algemam,
interrogam, e torturam. Famílias dos combatentes da resistência palestina
são seqüestradas e privadas de água, comida e eletricidade. Soldados
israelenses saqueiam casas e roubam objetos de valor, destruindo os móveis.
Como sucedia no regime nazista, deixam centenas de feridos palestinos
morrerem, um vez que proíbem a passagem das ambulâncias. Centenas de
milhares enfrentam a ameaça da desidratação e a morte por inanição, já que o
fornecimento de comida e água foi cortado. Tropas, tanques e helicópteros
israelenses irromperam nos povoados, cidades e campos de refugiados
principais: Tulkarem, Al Bireh, Belém, Beit Jala, Qalqilya, Hebron.

Bastam descobrir um só combatente da resistência para culparem e
castigarem de maneira coletiva: pais, filhos, tios e vizinhos são cercados e
levados a estádios de futebol e parques de diversão para crianças,
acondicionados como campos de concentração.

É evidente que a indignação israelense e judia provocada pela analogia
que Saramago fez do terrorismo de Tel Aviv com Auschwitz tocou no ponto
fraco: o ódio a si mesmos, dos verdugos que sabem que são discípulos de seus
perseguidores do passado e que, a toda custa, devem negar isso. Até agora,
todos os chamados dos moderados árabes a que Bush intervenha e ponha um fim
ao massacre têm sido inúteis. Washington reiterou seu apoio a Sharon e à
invasão e guerra contra os palestinos. Ninguém nos Estados Unidos pode
alguma coisa contra o dinheiro e a influência do lobby israelense e seus
poderosos aliados judeus. Em outras partes, no entanto, há esperança. Via
Campesina e os seguidores de José Bové pediram o boicote internacional aos
bens e serviços de Tel Aviv, cuja economia depende amplamente de suas
exportações para a União Européia. Reduções nas transações de petróleo por
parte dos países exportadores, particularmente Arábia Saudita, Kuwait,
Iraque, Irã e Líbia poderiam provocar uma alta importante nos preços do
petróleo e uma crise econômica nos Estados Unidos, Europa e Japão. Isto
poderia produzir calafrios nos europeus e despertar a consciência do público
estadunidense. O que está absolutamente claro é que enquanto Tel Aviv
conserve seu peso no lobby judeu em Washington e com o apoio de Bush, as
resoluções das Nações Unidas, as convenções de Genebra e os apelos da Europa
continuarão sendo completamente ignorados.

Na mentalidade obtusa de Sharon e seus paranóicos seguidores, todos
eles são anti-semitas, seguidores dos Protocolos de Sião, que tentam
desmoralizá-los para impedir que realizem a missão bíblica da Grande Israel,
de um povo, uma nação, um Deus, e expulsem a todos os palestinos de sua
Terra Prometida. A opinião pública mundial não deve permanecer na
passividade e permitir que a tragédia do Holocausto do século XX se repita
no XXI. Ainda há tempo. Porém, quanto tempo mais consegue um povo, por mais
heróico que seja, resistir sem água nem comida? A oferta que Sharon fez a
Arafat "liberdade de ir embora sem possibilidade de volta" está projetada
para todo o povo palestino.

www.jornada.unam.mx/index.html