Tayeb
09-10-2008, 12:47
Yvonne Ridley é editora política do canal Islam Channel Tv, em Londres e co-autora de " In the Hands of Taliban : Her Extraordinary Story ". Muçulmana, convertida ao Islam após ter sido capturada pelo Taliban em 2001.
COMO PASSEI A AMAR O VÉU
por Yvonne Ridley
Eu costumava olhar as mulheres em seus véus como criaturas oprimidas - até que fui capturada pelo Taliban. Em Setembro de 2001, apenas 15 dias após os ataques aos EUA, eu entrei furtivamente no Afeganistão, coberta por uma burca azul que ia dos pés a cabeça. Tinha como intenção escrever um relato para um jornal contando como seria a vida sob um regime repreensivo. Ao invés disto, fui descoberta, presa, detida por dez dias. Eu cuspi e xinguei meus captores, eles me chamaram de mulher "má", mas me deixaram ir após prometer ler o Quran (Al Corão) e estudar o Islam. (Francamente, não sei quem estava mais feliz quando liberta - eles ou eu).
De volta para casa, Londres. Mantive minha palavra sobre estudar o Islam - E fiquei espantada com o que descobri. Eu esperava encontrar no Quran capítulos que apresentariam "Como bater em suas esposas e oprimir suas filhas". Mas ao invés disto, encontrei partes que incentivavam a liberação das mulheres.
Dois anos e meio depois da minha captura, me converti ao Islam, provocando uma mistura de assombro, decepção e encorajamento entre meus parentes e amigos. Agora, é com desgosto e consternação que vejo, aqui na Inglaterra, o ex-secretário de exterior Jack Straw descrever o nikab - véu que deixa a mostra só os olhos - como uma barreira à integração, tendo o primeiro ministro Tony Blair, o escritor Salman Rushdie e até mesmo o primeiro ministro italiano Romano Prodi correndo em sua defesa.
Já tendo estado em ambos os lados do véu, posso lhes dizer que muitos homens, no Ocidente, políticos e jornalistas que lamentam a opressão das mulheres no mundo muçulmano, não têm idéia do que estão dizendo. Eles falam sobre véus, casamentos infantis, circuncisão feminina, mortes, casamentos forçados, e erroneamente culpam o Islam por isto.
Sua ignorância só é superada pela sua própria ignorância. Estas questões culturais, em nada têm haver com Islam. Uma lida cuidadosa no Quran mostra que tudo o que foi reivindicado pelas feministas nos anos 70 estava á disposição das mulheres muçulmanas há 1400 anos.
As mulheres no Islam são consideradas iguais aos homens na educação, espiritualmente, e em valor, e o dom em cuidar de uma criança, no seu desenvolvimento, é visto como um atributo positivo.
Enquanto o Islam oferece às mulheres tanto, por que os homens ocidentais estariam tão obcecados com as vestimentas das muçulmanas? Até os ministros de governo Gordon Brown e John Reid fizeram comentários desastrosos sobre o nikab e eles vêm da fronteira com a Escócia, onde homens vestem saias.
Quando me converti ao Islam e comecei a usar o véu, as repercussões foram enormes ? Tudo o que fiz foi cobrir minha cabeça e cabelos - mas instantaneamente virei cidadã de segunda classe. Sabia disto ouvindo de islamofóbicos, mas, não esperava tanta hostilidade de estranhos. Táxis passavam por mim sem parar. Um motorista após deixar um passageiro bem na minha frente, olhou-me com raiva. Quando cheguei até sua janela, partiu em seguida. Em outra ocasião ouvi : "Não deixe uma bomba no assento traseiro". Perguntei: "Cadê o Bin Laden"?
Sim, é uma obrigação da mulher muçulmana se vestir modestamente, mas a maioria das muçulmanas que conheço, gostam de usar o hijab, que deixa o rosto descoberto, outras preferem o nikab. É uma decisão pessoal.
Minha roupa diz que sou uma muçulmana e que espero ser tratada respeitosamente, assim como um banqueiro de Wall Street diria que seu terno o define como um executivo sério. E especialmente entre os convertidos, como eu, homens que tratam suas mulheres de maneira inapropriada, não são tolerados. Eu fui uma feminista por muitos anos, mas descobri que as muçulmanas feministas são mais "radicais" do que as seculares ocidentais.
Não gostamos daqueles desfiles de beleza medonhos, e tentamos parar de rir quando em 2003 os juízes do Miss Mundo consideraram uma afegã, Vida Samadzai, vestido um biquíni, como um gigante avanço na liberação das mulheres. Eles a deram um prêmio por representar "A vitória dos direitos femininos".
Algumas jovens feministas consideram o hijab e o nikab, símbolos políticos também. Uma maneira de rejeitar os excessos da civilização ocidental como bebidas, sexo casual e drogas.
O que é mais liberal? Ser julgada pelo tamanho da sua saia ou o tamanho dos seus seios (cirurgicamente adquiridos) ? Ou ser julgada pelo seu caráter e inteligência? No Islam superioridade é atingida pela piedade, não beleza, riqueza, poder, posição ou sexo.Eu não sei se ria ou gritava quando o primeiro ministro italiano Prodi se juntou ao debate, semana passada declarando ser de "senso comum" não usar o nikab por que isto faz com que as relações sociais se tornem mais "difíceis". Sem sentido. Neste caso, então por que telefones celulares, e-mails, mensagens de texto e aparelhos de fax são tão usados? E ninguém desliga o rádio por que não vê a face do apresentador?
No Islam sou respeitada. O Islam me diz que eu tenho direito à educação e que meu dever é procurar o conhecimento, não importa se casada ou não. Em nenhum lugar entre os pilares do Islam está estabelecido que uma mulher deva lavar, limpar e cozinhar para os homens, ou aos homens ser permitido a bater em suas mulheres. Isto não é verdade.
Críticos do Islam irão citar os versos do Quran ou hadith (ditos do Profeta (sws)), mas geralmente fora de contexto. Se um homem levanta um dedo contra sua esposa, ele não pode deixar nela nenhuma marca, é como se o Quran dissesse: "Não bata na sua esposa seu estúpido". Não são somente os homens muçulmanos que deveriam reavaliar o tratamento dispensado ás mulheres. De acordo com uma pesquisa nacional sobre violência doméstica, em uma média de 12 meses, 4 milhões de mulheres americanas são agredidas por seus parceiros, Mais de três mulheres são assassinadas por seus maridos, namorados, todos os dias. O que é próximo á 5.500 desde 11 de setembro de 2001.
Homens violentos não vêm de nenhuma tradição religiosa ou cultural em particular. Uma em cada três mulheres ao redor do mundo é espancada, forçadas a terem relações sexuais e outros tipos de abuso, de acordo com a mesma pesquisa. Este problema global transcende a religião, classe, cultura. Mas isto também é real no Ocidente, os homens ainda crêem serem superiores ás mulheres, não importa o quanto dizem não. Eles ainda recebem os melhores salários em condições de trabalho "iguais", e mulheres ainda são tratadas como mercadorias, sexualizadas. Seu poder e influência ainda se originam na sua aparência.
E para aqueles que ainda estão tentando bradar que o Islam oprime as mulheres, recordo-me do pronunciamento do Rev. Pat Robertson, em 1992, oferecendo seu ponto de vista sobre as mulheres : "feminismo é um socialismo, um movimento político anti-família que encoraja as mulheres a abandonarem seus maridos, matar suas crianças, praticar bruxaria, destruir o capitalismo e tornarem-se lésbicas".
Agora me diga quem é o "civilizado", quem não o é ?
Publicado no Washington Post em 22 de outubro de 2006
Tradução portuguesa: http://muculmano.wordpress.com/2007/05/04/como-passei-a-amar-o-veu-yvonne-ridley/
COMO PASSEI A AMAR O VÉU
por Yvonne Ridley
Eu costumava olhar as mulheres em seus véus como criaturas oprimidas - até que fui capturada pelo Taliban. Em Setembro de 2001, apenas 15 dias após os ataques aos EUA, eu entrei furtivamente no Afeganistão, coberta por uma burca azul que ia dos pés a cabeça. Tinha como intenção escrever um relato para um jornal contando como seria a vida sob um regime repreensivo. Ao invés disto, fui descoberta, presa, detida por dez dias. Eu cuspi e xinguei meus captores, eles me chamaram de mulher "má", mas me deixaram ir após prometer ler o Quran (Al Corão) e estudar o Islam. (Francamente, não sei quem estava mais feliz quando liberta - eles ou eu).
De volta para casa, Londres. Mantive minha palavra sobre estudar o Islam - E fiquei espantada com o que descobri. Eu esperava encontrar no Quran capítulos que apresentariam "Como bater em suas esposas e oprimir suas filhas". Mas ao invés disto, encontrei partes que incentivavam a liberação das mulheres.
Dois anos e meio depois da minha captura, me converti ao Islam, provocando uma mistura de assombro, decepção e encorajamento entre meus parentes e amigos. Agora, é com desgosto e consternação que vejo, aqui na Inglaterra, o ex-secretário de exterior Jack Straw descrever o nikab - véu que deixa a mostra só os olhos - como uma barreira à integração, tendo o primeiro ministro Tony Blair, o escritor Salman Rushdie e até mesmo o primeiro ministro italiano Romano Prodi correndo em sua defesa.
Já tendo estado em ambos os lados do véu, posso lhes dizer que muitos homens, no Ocidente, políticos e jornalistas que lamentam a opressão das mulheres no mundo muçulmano, não têm idéia do que estão dizendo. Eles falam sobre véus, casamentos infantis, circuncisão feminina, mortes, casamentos forçados, e erroneamente culpam o Islam por isto.
Sua ignorância só é superada pela sua própria ignorância. Estas questões culturais, em nada têm haver com Islam. Uma lida cuidadosa no Quran mostra que tudo o que foi reivindicado pelas feministas nos anos 70 estava á disposição das mulheres muçulmanas há 1400 anos.
As mulheres no Islam são consideradas iguais aos homens na educação, espiritualmente, e em valor, e o dom em cuidar de uma criança, no seu desenvolvimento, é visto como um atributo positivo.
Enquanto o Islam oferece às mulheres tanto, por que os homens ocidentais estariam tão obcecados com as vestimentas das muçulmanas? Até os ministros de governo Gordon Brown e John Reid fizeram comentários desastrosos sobre o nikab e eles vêm da fronteira com a Escócia, onde homens vestem saias.
Quando me converti ao Islam e comecei a usar o véu, as repercussões foram enormes ? Tudo o que fiz foi cobrir minha cabeça e cabelos - mas instantaneamente virei cidadã de segunda classe. Sabia disto ouvindo de islamofóbicos, mas, não esperava tanta hostilidade de estranhos. Táxis passavam por mim sem parar. Um motorista após deixar um passageiro bem na minha frente, olhou-me com raiva. Quando cheguei até sua janela, partiu em seguida. Em outra ocasião ouvi : "Não deixe uma bomba no assento traseiro". Perguntei: "Cadê o Bin Laden"?
Sim, é uma obrigação da mulher muçulmana se vestir modestamente, mas a maioria das muçulmanas que conheço, gostam de usar o hijab, que deixa o rosto descoberto, outras preferem o nikab. É uma decisão pessoal.
Minha roupa diz que sou uma muçulmana e que espero ser tratada respeitosamente, assim como um banqueiro de Wall Street diria que seu terno o define como um executivo sério. E especialmente entre os convertidos, como eu, homens que tratam suas mulheres de maneira inapropriada, não são tolerados. Eu fui uma feminista por muitos anos, mas descobri que as muçulmanas feministas são mais "radicais" do que as seculares ocidentais.
Não gostamos daqueles desfiles de beleza medonhos, e tentamos parar de rir quando em 2003 os juízes do Miss Mundo consideraram uma afegã, Vida Samadzai, vestido um biquíni, como um gigante avanço na liberação das mulheres. Eles a deram um prêmio por representar "A vitória dos direitos femininos".
Algumas jovens feministas consideram o hijab e o nikab, símbolos políticos também. Uma maneira de rejeitar os excessos da civilização ocidental como bebidas, sexo casual e drogas.
O que é mais liberal? Ser julgada pelo tamanho da sua saia ou o tamanho dos seus seios (cirurgicamente adquiridos) ? Ou ser julgada pelo seu caráter e inteligência? No Islam superioridade é atingida pela piedade, não beleza, riqueza, poder, posição ou sexo.Eu não sei se ria ou gritava quando o primeiro ministro italiano Prodi se juntou ao debate, semana passada declarando ser de "senso comum" não usar o nikab por que isto faz com que as relações sociais se tornem mais "difíceis". Sem sentido. Neste caso, então por que telefones celulares, e-mails, mensagens de texto e aparelhos de fax são tão usados? E ninguém desliga o rádio por que não vê a face do apresentador?
No Islam sou respeitada. O Islam me diz que eu tenho direito à educação e que meu dever é procurar o conhecimento, não importa se casada ou não. Em nenhum lugar entre os pilares do Islam está estabelecido que uma mulher deva lavar, limpar e cozinhar para os homens, ou aos homens ser permitido a bater em suas mulheres. Isto não é verdade.
Críticos do Islam irão citar os versos do Quran ou hadith (ditos do Profeta (sws)), mas geralmente fora de contexto. Se um homem levanta um dedo contra sua esposa, ele não pode deixar nela nenhuma marca, é como se o Quran dissesse: "Não bata na sua esposa seu estúpido". Não são somente os homens muçulmanos que deveriam reavaliar o tratamento dispensado ás mulheres. De acordo com uma pesquisa nacional sobre violência doméstica, em uma média de 12 meses, 4 milhões de mulheres americanas são agredidas por seus parceiros, Mais de três mulheres são assassinadas por seus maridos, namorados, todos os dias. O que é próximo á 5.500 desde 11 de setembro de 2001.
Homens violentos não vêm de nenhuma tradição religiosa ou cultural em particular. Uma em cada três mulheres ao redor do mundo é espancada, forçadas a terem relações sexuais e outros tipos de abuso, de acordo com a mesma pesquisa. Este problema global transcende a religião, classe, cultura. Mas isto também é real no Ocidente, os homens ainda crêem serem superiores ás mulheres, não importa o quanto dizem não. Eles ainda recebem os melhores salários em condições de trabalho "iguais", e mulheres ainda são tratadas como mercadorias, sexualizadas. Seu poder e influência ainda se originam na sua aparência.
E para aqueles que ainda estão tentando bradar que o Islam oprime as mulheres, recordo-me do pronunciamento do Rev. Pat Robertson, em 1992, oferecendo seu ponto de vista sobre as mulheres : "feminismo é um socialismo, um movimento político anti-família que encoraja as mulheres a abandonarem seus maridos, matar suas crianças, praticar bruxaria, destruir o capitalismo e tornarem-se lésbicas".
Agora me diga quem é o "civilizado", quem não o é ?
Publicado no Washington Post em 22 de outubro de 2006
Tradução portuguesa: http://muculmano.wordpress.com/2007/05/04/como-passei-a-amar-o-veu-yvonne-ridley/