Lay
24-01-2004, 07:14
Os 40 dias de um prisioneiro
Mohamed passou 40 dias numa prisão americana na Iraque após a sua prisão em Agosto quando conduzia nas ruas de Bagdad. Com 44 anos de idade e proprietário de uma lojeca de comida pronta para levar, ele nunca foi um personagem criminoso. Ninguém esperaria que a sua prisão fosse anunciada numa conferência de imprensa com as palavras: "Senhoras e senhores, nós o capturámos". Mas a história de Mohammed é um excelente exemplo daquilo a que prisioneiros menos importantes do que Saddam Hussein estão sujeitos nas mãos dos ocupantes.
Simplesmente não era o seu dia. Mohamed não fazia ideia do que o esperava quando conduzia na área de Karada, em Bagdad, a 7 de Agosto. Ele corria no habitual congestionamento de tráfego na rua principal do comércio, mas o que Mohamed não sabia era que uma patrulha americana havia caído numa emboscada a apenas dois quilómetros rua abaixo. Dois solados haviam sido mortos; os atacantes haviam escapado e os americanos haviam montado o habitual bloqueio das ruas ? portanto, o congestionamento de tráfego.
Inconsciente da situação, Mohamed saiu da rua principal para uma rua lateral, e a armadilha foi disparada. "Cerca de meia dúzia de soldados correram em direcção ao carro apontando armas à minha cara", relembra ele. "Eu estava aterrorizado e permaneci no carro. Eles então arrancaram-me para fora do carro, jogaram-me no chão e algemaram-me". No calor do momento, enquanto jazia no chão, ele sussurrou a infame palavra americana "f" para os soldados. Alguém bateu-lhe nas costas. Ele foi deixado de rastros sobre o chão com armas apontadas sobre si cerca de meia hora. O seu carro foi investigado mas não foram descobertas quaisquer armas. Tudo o que foi encontrado era uma garrafa de whisky Johnny Walker, a qual acabaria por desempenhar um grande papel na sua detenção e prisão.
Mohamed foi levado para a sede americana no Palácio Sajud, uma antiga residência de Saddam Hussein, e foi largado fora do edifício, no campo de ténis, com outros presos recentes durante seis horas antes do seu primeiro interrogatório. Durante a entrevista, um oficial americano perguntou-lhe acerca do seu relacionamento com os terroristas. A conversação aqueceu rapidamente quando Mohamed, que fala inglês, percebeu que o tradutor libanês não estava a traduzir as suas respostas adequadamente. Mohamed foi batido na parte de trás da cabeça e vomitou sobre a mesa do oficial: o interrogatório continuou por mais duas horas.
Em certa altura, ele pediu permissão para telefonar à sua família. "Nestes dias, se não voltarmos para casa depois de uma certa hora a pessoas ficam preocupadas", disse ele. Falando em inglês ele explicou ao oficial que "na América os detidos têm o direito de fazer um telefonema". Ele aprendeu isto ao assistir filmes americanos, disse ao oficial. "Isto não é a América e a lei aqui é a lei da ocupação", replicou ele.
Mohamed foi depois levado para o aeroporto. Um dos dois terminais cuida dos poucos voos que chegam, e o outro é utilizado como uma prisão de alta segurança onde é mantida a maior parte dos antigos altos responsáveis do governo anterior ? as caras no infame baralho de cartas. Mohamed foi mantido ali no acampamento durante três dias. "Era odioso", disse ele, "ter de passar o tempo do lado de fora no calor de Agosto. Havia 30 a 40 prisioneiros em cada tenda, e a água de beber nos contentores de metal estava praticamente a ferver".
Ele foi interrogado muitas vezes, perguntaram acerca do seu relacionamento com os islamistas, e quais os membros do partido Baath ele conhecia na sua vizinhança. Em várias ocasiões foi visitado por jovens amistosos vestidos com roupas civis que levaram-se para um passeio, um cigarro e uma conversa. "Interrogadores da CIA, suspeito", disse Mohamed.
Finalmente acabou por ser transportado num camião militar para a Prisão Abu Ghreib, no ocidente de Bagdad, o maior e mais famoso centro de detenção do país durante o reinado de Saddam, o qual ainda é utilizado pelos ocupantes. Mohamed nunca estivera dentro de uma prisão iraquiana durante os longos anos do reinado de Saddam. Ele sempre se esforçou por manter uma atitude discreta, e agora, no Iraque pós-Saddam, foi lançado na gaiola pela primeira vez.
A cada prisioneiro é dado um cartão na chegada ao presídio, e Mohamed finalmente pôde saber a razão da sua prisão: "bebedeira enquanto conduzia um veículo e resistência à prisão", dizia o cartão. Mas não se mencionava o período de detenção em Abu Ghreib. Mohamed não foi acusado nem compareceu perante um juiz, seja iraquiano ou americano. Sua família não foi informada do seu paradeiro.
"Eu estava convencida de que o meu marido estava morto", afirma sua esposa, com toda a família reunida junto no seu lar modesto em Bagdad. Ela tentou mesmo preparar as suas duas filhas, Iman e Rania, para a notícia de que o seu pai poderia não voltar. Mohamed finalmente conseguiu dar o número de telefone da sua esposa a um prisioneiro libertado. "Fiquei aliviado por descobrir que ele ainda estava vivo", contou. Mas ela incapaz de fazer o que quer que fosse para ajudar o seu marido. Na é permitido nem a visitantes, nem a conselheiros legais nem a membros da famílias terem acesso à prisão americana de Abu Ghreib.
Mohamed passou os 36 dias seguintes num terreiro no canto da prisão junto com 500 prisioneiros, cercado por muros, arame farpado e torres de observação. Ele partilhou uma tenda com uma dúzia de assassinos, saqueadores e violadores, bem como outros que haviam sido presos sob circunstâncias tão estranhas como a sua. Periodicamente podiam ouvir-se tiros do lado de fora e em duas ocasiões o campo foi atacado pela guerrilha iraquiana, convencida de que a prisão era um campo militar americano.
Quando o campo ficou debaixo do fogo de morteiros, os guardas americanos esconderam-se dentro do edifício ? deixando os prisioneiros nas tendas entregues ao seu destino. Foi um dia que Mohamed nunca esquecerá. "Carregámos os feridos para o portão e implorámos aos americanos para os levarem dali", recordou. Mas os americanos estavam refugiados no edifício. Uns poucos dias depois o campo foi atacado mais uma vez, e os ataques da guerrilha só pararam depois de os prisioneiros terem conseguido enviar uma mensagem à aldeia vizinha a informar que por trás do muro estavam prisioneiros iraquianos e não soldados americanos.
Mohamed, o único prisioneiro que falava inglês, tornou-se logo o tradutor oficial do campo, e ele também ficou amigo de alguns dos soldados. "Um bocado deles tinha saudades de casa", foi como descreveu o seu estado de espírito. Um dos soldados havia acabado de perder o seu pai, e a esposa de um outro havia dado à luz, e nenhum deles tinha a possibilidade de voltar para casa. "Quando eu voltar", disse um sargento a Mohamed, "nunca votarei outra vez no George Bush". O mesmo sargento, agora em termos amistosos com Mohamed, procurava regularmente no computador por quaisquer pormenores acerca da sua libertação. E finalmente a notícia chegou. "Amanhã você será libertado, e será mais livre do que qualquer soldado americano aqui".
"Tudo de bom, e desculpe pela situação desagradável", disse um oficial a Mohamed quando ele deixava a prisão. E acrescentou, "não havia realmente qualquer razão para você passar o último mês aqui".
Mohamed era um homem mudado quando voltou para casa, um facto confirmado pela sua esposa. Agora ele tem medo de conduzir e passa a maior parte do seu tempo em casa com a família. "O único meio de garantir que nada semelhante possa acontecer-me outra vez é emigrar", considera ele. Está a pensar em mudar-se com a família para um dos Estados do Golfo, mas está um tanto relutante pois não quer "ter de começar tudo outra vez a partir do zero".
E como ele resume a sua experiência numa única sentença? Mohamed demora um pouco para responder. "A coisa mais bizarra foi ser aprisionado pelas próprias pessoas que afirmam serem as nossas salvadoras".
O original encontra-se em http://weekly.ahram.org.eg/2004/672/re6.htm
Mohamed passou 40 dias numa prisão americana na Iraque após a sua prisão em Agosto quando conduzia nas ruas de Bagdad. Com 44 anos de idade e proprietário de uma lojeca de comida pronta para levar, ele nunca foi um personagem criminoso. Ninguém esperaria que a sua prisão fosse anunciada numa conferência de imprensa com as palavras: "Senhoras e senhores, nós o capturámos". Mas a história de Mohammed é um excelente exemplo daquilo a que prisioneiros menos importantes do que Saddam Hussein estão sujeitos nas mãos dos ocupantes.
Simplesmente não era o seu dia. Mohamed não fazia ideia do que o esperava quando conduzia na área de Karada, em Bagdad, a 7 de Agosto. Ele corria no habitual congestionamento de tráfego na rua principal do comércio, mas o que Mohamed não sabia era que uma patrulha americana havia caído numa emboscada a apenas dois quilómetros rua abaixo. Dois solados haviam sido mortos; os atacantes haviam escapado e os americanos haviam montado o habitual bloqueio das ruas ? portanto, o congestionamento de tráfego.
Inconsciente da situação, Mohamed saiu da rua principal para uma rua lateral, e a armadilha foi disparada. "Cerca de meia dúzia de soldados correram em direcção ao carro apontando armas à minha cara", relembra ele. "Eu estava aterrorizado e permaneci no carro. Eles então arrancaram-me para fora do carro, jogaram-me no chão e algemaram-me". No calor do momento, enquanto jazia no chão, ele sussurrou a infame palavra americana "f" para os soldados. Alguém bateu-lhe nas costas. Ele foi deixado de rastros sobre o chão com armas apontadas sobre si cerca de meia hora. O seu carro foi investigado mas não foram descobertas quaisquer armas. Tudo o que foi encontrado era uma garrafa de whisky Johnny Walker, a qual acabaria por desempenhar um grande papel na sua detenção e prisão.
Mohamed foi levado para a sede americana no Palácio Sajud, uma antiga residência de Saddam Hussein, e foi largado fora do edifício, no campo de ténis, com outros presos recentes durante seis horas antes do seu primeiro interrogatório. Durante a entrevista, um oficial americano perguntou-lhe acerca do seu relacionamento com os terroristas. A conversação aqueceu rapidamente quando Mohamed, que fala inglês, percebeu que o tradutor libanês não estava a traduzir as suas respostas adequadamente. Mohamed foi batido na parte de trás da cabeça e vomitou sobre a mesa do oficial: o interrogatório continuou por mais duas horas.
Em certa altura, ele pediu permissão para telefonar à sua família. "Nestes dias, se não voltarmos para casa depois de uma certa hora a pessoas ficam preocupadas", disse ele. Falando em inglês ele explicou ao oficial que "na América os detidos têm o direito de fazer um telefonema". Ele aprendeu isto ao assistir filmes americanos, disse ao oficial. "Isto não é a América e a lei aqui é a lei da ocupação", replicou ele.
Mohamed foi depois levado para o aeroporto. Um dos dois terminais cuida dos poucos voos que chegam, e o outro é utilizado como uma prisão de alta segurança onde é mantida a maior parte dos antigos altos responsáveis do governo anterior ? as caras no infame baralho de cartas. Mohamed foi mantido ali no acampamento durante três dias. "Era odioso", disse ele, "ter de passar o tempo do lado de fora no calor de Agosto. Havia 30 a 40 prisioneiros em cada tenda, e a água de beber nos contentores de metal estava praticamente a ferver".
Ele foi interrogado muitas vezes, perguntaram acerca do seu relacionamento com os islamistas, e quais os membros do partido Baath ele conhecia na sua vizinhança. Em várias ocasiões foi visitado por jovens amistosos vestidos com roupas civis que levaram-se para um passeio, um cigarro e uma conversa. "Interrogadores da CIA, suspeito", disse Mohamed.
Finalmente acabou por ser transportado num camião militar para a Prisão Abu Ghreib, no ocidente de Bagdad, o maior e mais famoso centro de detenção do país durante o reinado de Saddam, o qual ainda é utilizado pelos ocupantes. Mohamed nunca estivera dentro de uma prisão iraquiana durante os longos anos do reinado de Saddam. Ele sempre se esforçou por manter uma atitude discreta, e agora, no Iraque pós-Saddam, foi lançado na gaiola pela primeira vez.
A cada prisioneiro é dado um cartão na chegada ao presídio, e Mohamed finalmente pôde saber a razão da sua prisão: "bebedeira enquanto conduzia um veículo e resistência à prisão", dizia o cartão. Mas não se mencionava o período de detenção em Abu Ghreib. Mohamed não foi acusado nem compareceu perante um juiz, seja iraquiano ou americano. Sua família não foi informada do seu paradeiro.
"Eu estava convencida de que o meu marido estava morto", afirma sua esposa, com toda a família reunida junto no seu lar modesto em Bagdad. Ela tentou mesmo preparar as suas duas filhas, Iman e Rania, para a notícia de que o seu pai poderia não voltar. Mohamed finalmente conseguiu dar o número de telefone da sua esposa a um prisioneiro libertado. "Fiquei aliviado por descobrir que ele ainda estava vivo", contou. Mas ela incapaz de fazer o que quer que fosse para ajudar o seu marido. Na é permitido nem a visitantes, nem a conselheiros legais nem a membros da famílias terem acesso à prisão americana de Abu Ghreib.
Mohamed passou os 36 dias seguintes num terreiro no canto da prisão junto com 500 prisioneiros, cercado por muros, arame farpado e torres de observação. Ele partilhou uma tenda com uma dúzia de assassinos, saqueadores e violadores, bem como outros que haviam sido presos sob circunstâncias tão estranhas como a sua. Periodicamente podiam ouvir-se tiros do lado de fora e em duas ocasiões o campo foi atacado pela guerrilha iraquiana, convencida de que a prisão era um campo militar americano.
Quando o campo ficou debaixo do fogo de morteiros, os guardas americanos esconderam-se dentro do edifício ? deixando os prisioneiros nas tendas entregues ao seu destino. Foi um dia que Mohamed nunca esquecerá. "Carregámos os feridos para o portão e implorámos aos americanos para os levarem dali", recordou. Mas os americanos estavam refugiados no edifício. Uns poucos dias depois o campo foi atacado mais uma vez, e os ataques da guerrilha só pararam depois de os prisioneiros terem conseguido enviar uma mensagem à aldeia vizinha a informar que por trás do muro estavam prisioneiros iraquianos e não soldados americanos.
Mohamed, o único prisioneiro que falava inglês, tornou-se logo o tradutor oficial do campo, e ele também ficou amigo de alguns dos soldados. "Um bocado deles tinha saudades de casa", foi como descreveu o seu estado de espírito. Um dos soldados havia acabado de perder o seu pai, e a esposa de um outro havia dado à luz, e nenhum deles tinha a possibilidade de voltar para casa. "Quando eu voltar", disse um sargento a Mohamed, "nunca votarei outra vez no George Bush". O mesmo sargento, agora em termos amistosos com Mohamed, procurava regularmente no computador por quaisquer pormenores acerca da sua libertação. E finalmente a notícia chegou. "Amanhã você será libertado, e será mais livre do que qualquer soldado americano aqui".
"Tudo de bom, e desculpe pela situação desagradável", disse um oficial a Mohamed quando ele deixava a prisão. E acrescentou, "não havia realmente qualquer razão para você passar o último mês aqui".
Mohamed era um homem mudado quando voltou para casa, um facto confirmado pela sua esposa. Agora ele tem medo de conduzir e passa a maior parte do seu tempo em casa com a família. "O único meio de garantir que nada semelhante possa acontecer-me outra vez é emigrar", considera ele. Está a pensar em mudar-se com a família para um dos Estados do Golfo, mas está um tanto relutante pois não quer "ter de começar tudo outra vez a partir do zero".
E como ele resume a sua experiência numa única sentença? Mohamed demora um pouco para responder. "A coisa mais bizarra foi ser aprisionado pelas próprias pessoas que afirmam serem as nossas salvadoras".
O original encontra-se em http://weekly.ahram.org.eg/2004/672/re6.htm