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Vizualizar Versão Completa : Lembrete de Natal (de outro Olavo de Carvalho)


Murid
07-12-2003, 12:17
Segue um texto de outro Olavo de Carvalho, que não o visitante deste grupo, publicado em O Globo - 23 de dezembro de 2000


A coincidência do Natal e do Eid-al-Fitr (fim do jejum) muçulmano é
uma ocasião para lembrar que os pontos de contato entre as religiões
cristã e islâmica - e também a judaica - vão muito além do que as
fórmulas de bom-mocismo ecumênico podem sugerir.

Se há uma lição definitiva a tirar do estudo das religiões comparadas
é que elas são incomparáveis: não são espécies do mesmo gênero, que
possam ser avaliadas uma pela outra. São manifestações irredutíveis -
e irredutivelmente diversas - de uma luz intelectual supra-humana
que, derramando-se sobre objetos diferentes, produz diferentes
refrações. A comparação, aí, só pode tomar duas direções: ou o
confronto estéril do inconfrontável, ou a simples inspiração que nos
leva a erguer os olhos para a fonte comum, quer a imaginemos como
motor imóvel ou como a fonte eternamente silenciosa de todo Verbo.

Por isso o estudo comparativo das religiões, quando toma a forma do
confronto de doutrinas prontas, desemboca na disputa dos teólogos - e
esse tipo de discussão, dizia o profeta Maomé, leva indiscutivelmente
ao inferno. Muito mais frutífera é a aproximação dos símbolos, que
dizem a mesma coisa em linguagens diversas, mas de tal modo que a
mente, ao apreender a comunidade de sentido entre elas, não pode
traduzi-la numa terceira. Compreendida como disciplina contemplativa,
a ciência dos símbolos sacros é uma introdução à clareza do
indizível.

Talvez ainda mais significativa que a coincidência do Natal com o Eid-
al-Fitr seria a aproximação dele com a Laylat-al-Qadr, a noite em que
o Corão "desce" dos céus ao coração do profeta. Maomé é o analfabeto
que, no silêncio da noite, recebe em ditado angélico o mais belo
livro da língua árabe, livro que transcende as propriedades do idioma
ao ponto de sua recitação em voz alta afetar os animais, que se detêm
para ouvi-la. É também à noite que a Virgem, fecundada pelo Espírito,
dá à luz a mais nobre das criaturas humanas, indistinguível do
Criador mesmo. A analogia entre esses dois sublimes paradoxos é
evidente. E, enquanto os teólogos disputam nas trevas, cotejando
Cristo a Maomé, a narrativa, em si, é "luz sobre luz": Maomé não
corresponde a Cristo, mas a Maria, o portador humano do Verbo divino;
Cristo não é Maomé, é o Verbo divino, o Logos, Kalimat'ullah.

O espírito sopra onde quer, da forma que quer. Como diz o Corão, "há
nisto um sinal, para os que entendem". Isso não quer dizer que o Papa
esteja errado ao afirmar que o cristianismo é a única via de
salvação. Como poderia estar errado, se o conceito mesmo de "via de
salvação" não se aplica ao Islã ou ao judaísmo? O judaísmo é a lei, a
constituição divino-histórica do povo eleito, não a via de salvação
para as almas individuais, para os pecadores errantes e ovelhas
desgarradas. E a palavra mesma "religião" não corresponde ao árabe
din, que assim se traduz erroneamente. Din é o modo natural e
primordial do ser social humano, a constituição civil da sociedade
sacra - algo sem correspondência no evangelho, onde Deus fala às
almas individuais, alheio e indiferente ao que é de César.

Como, pois, comparar essas dimensões diferentes, achatando-as no
confronto doutrinal do certo e do errado?

As religiões, simplesmente, não falam da mesma coisa. É preciso ter
compreendido isto para atinar que é a mesma Voz que fala por meio de
todas elas. Os conflitos correm por conta da incompreensão humana,
angustiada pelos seus esforços vãos de reduzir à unidade doutrinal
algo que não é doutrina, mas que é a Presença mesma. O próprio Corão
ensina-nos o limite dessas especulações, e adverte judeus, cristãos e
muçulmanos: "Concorrei na prática do bem, que no juízo final Nós
dirimiremos as vossas divergências."

Anonymous
07-12-2003, 17:22
Quem compara arvore e arvore ignora a floresta.
Quem compara os convidados ignora toda a festa.
Quem compara nuvem e nuvem ignora o grande céu.
Quem compara as abelhas nunca provará o mel.

Divida o homem em três partes.
Membros cabeça e tronco.
E então compare as partes,
pois o todo estará esta morto.