Murid
30-11-2003, 14:43
Sobre o trabalho "Genética Populacional do Noroeste Peninsular"
Fonte:Estudo Genético Confirma e Desafia a História
Por Andrea Cunha Freitas
Jornal: PÚBLICO - Lisboa, Portugal
Domingo, 18 de Março de 2001
Uma investigação na área da "arqueogenética" mostra as afinidades
entre o Norte de Portugal e a Galiza e as diferenças entre linhagens
femininas e masculinas.
Os filhos de escravas negras eram "tolerados" em Portugal. Já os dos
escravos não. Nas linhagens masculinas, a presença islâmica em
Portugal e na Galiza bate certo com a História. Nas maternas não.
Estes serão alguns dos resultados do estudo intitulado "Genética
Populacional do Noroeste Peninsular", desenvolvido pelo Instituto de
Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (Ipatimup),
em colaboração com outras entidades.
Há mapas nos vários cantos da sala no edifício da Alfândega, no Porto.
De um lado, os painéis explicativos de um estudo genético. Do outro,
alguns exemplares de vestígios desenterrados, protegidos atrás de
montras de vidro. Ali, uniu-se a história à ciência, o chão ao corpo.
Tudo se passa no território da "arqueogenética". "Não tenho certeza
se é um termo que eu inventei, mas significa que, tal como a
arqueologia vem pescar histórias através de vestígios materiais do
passado, também nós,através da genética, queremos desenterrar esses
passados, pesquisando nos nossos genomas", explicou ao PÚBLICO
António Amorim, responsável pelo estudo.
As novas tecnologias permitiram que se inventasse a palavra. Porque
hoje é possível "escavar" melhor na nossa história genética. Segundo
refere o responsável do Ipatimup, os resultados mais recentes deste
estudo,iniciado há cerca de cinco anos, têm como suporte, por um
lado, "a descoberta de marcadores que se transmitem só por linha
paterna ou só por linha materna" e, por outro, "com a vulgarização
das técnicas de acesso a esses marcadores".
Ou seja, a procura dos "sinais" que existem em nós faz-se nesta
investigação através do que permanece intacto na transmissão genética
entre gerações. "Há transmissão intacta do cromossoma Y no caso
masculino (de pais para filhos e não filhas) ou do DNA mitocondrial,
no caso feminino (de mães para filhos e filhas)", explica António
Amorim. Desta forma, através dos marcadores encontrados no cromossoma
Y ou no DNA mitocondrial, é possível fazer a traçagem das linhagens
masculina e feminina.
A pesquisa incide sobre o noroeste peninsular, reforçando-se a
amostragem a Norte do Douro, até porque a única linha que separa a
Galiza do Norte de Portugal parece ser a "recente" separação
política. O estudo mostra o reflexo nos nossos genes de uma evidência
conhecida: a de que, geográfica e historicamente, o Norte de Portugal
e a Galiza têm diferenças praticamente nulas.
Mas, o mais interessante surge no que é diferente. "As conclusões mais
engraçadas serão aquelas que têm a ver com linhagens que nós
conseguimos associar a geografias bem distintas das nossas", adianta
o investigador, que cita como exemplo o caso da África subsariana,
com populações bastante diferentes dos europeus. Assim, estas
linhagens subsarianas existem em Portugal só por via feminina, não
estão estruturadas geograficamente e são todas diferentes (o que quer
dizer que não houve uma linhagem fundadora). "O que dá a ideia de que
essas linhagens foram pescadas de uma população grande e já
diversificada. A explicação mais plausível é que representem
vestígios de reprodução com as antigas escravas africanas", diz,
avançando com a questão: "Então espera-se que do lado masculino
exista a mesma coisa?". A resposta é não. Não existem linhagens
subsarianas masculinas em Portugal. E, em "traços caricaturais",
interpreta-se: "Aquilo que permitiu às escravas reproduzir-se não foi
tão brando em relação aos escravos. Isto é, os filhos de escravas
eram tolerados e os filhos de escravos não".
Por outro lado, recordando o "romance histórico" decorrido quando
Portugal esteve sob a administração islâmica, sublinha-se que "nunca
houve domínio permanente a Norte do Douro". Um cenário que poderia
fazer prever um gradiente claro dessa influência. "Com marcadores
norte-africanos podíamos ver essa influência de Norte para Sul",
afirma António Amorim. Uma teoria que se confirma nos gráficos
marcados no mapa no que se refere às linhagens masculinas. No
entanto, quando a procura destes "sinais" se faz nas linhagens
femininas deparamos com uma presença importante no Norte de
Portugal. "Aqui, a explicação é mais difícil. Os historiadores vão
ter de matutar um pouco nisso. A minha hipótese é que tenha
acontecido algo de parecido com o que sucedeu no período da
escravatura negra, ou seja, possibilidade de reproduções
assimétricas, de acordo com o sexo".
O investigador não consegue esconder o fascínio com o projecto, mas,
acima de tudo, confessa: "O que eu acho mais fascinante é estar a
partilhar isso".
______________
Resultados Alargam-se ao Campo da Medicina
O estudo "Genética Populacional do Noroeste Peninsular" demonstrou que
um gene intermediário, causador de uma determinada doença, tem uma
frequência em Portugal que é quase cinco vezes superior à média
europeia. O investigador António Amorim transporta-nos para o mundo da
medicina e da deficiência Alfa 1-Antitripsina. Na sua forma mais
grave, que afecta um em cada dez mil indivíduos, esta deficiência
ataca os pulmões e causa problemas hepáticos, entre outros danos.
Mas, além deste gene quase restrito a populações de origem europeia,
existe um que causa uma deficiência intermediária, menos grave,
segundo António Amorim. E a incidência desta forma da deficiência é
cinco vezes maior do que a média europeia. "Estas pessoas vão ter uma
esperança de vida reduzida,situação que pode ser melhorada se
tivermos a prevenção de os afastarmos de factores de risco [tal como
fumar ou ambientes poluídos]", diz António Amorim. "É urgente fazer
um rastreio nacional disto", considera, adiantado que existem
técnicas já montadas para um diagnóstico fácil.
_______________
Exposição Mostra Vestígios no Corpo e no Chão
Primeiro que tudo, um aviso: "Todos estes nomes, a Galiza, Portugal, o
centro, o norte e o sul, são transitórios, histórica e geograficamente
muito frágeis". Depois, um alerta: "Não existe possibilidade de
interpretação absoluta, nem a genética nem a história são capazes de
dar todas as explicações". E, agora sim, é permitido entrar na
exposição Genética Populacional do Noroeste Peninsular, patente desde
anteontem no edifício da Alfândega, no Porto. A mostra foi organizada
pelo Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do
Porto, no âmbito do programa "Os outros em eu", integrado nas acções
da Sociedade Porto 2001.
No início, o contacto faz-se com as afinidades geográficas entre o
Norte de Portugal e a Galiza, nomeadamente a orografia, o clima, a
flora e a fauna. Logo a seguir, segue-se a História. "Só
politicamente é que estas duas regiões viveram separadas.
Nomeadamente, na época romana, a norte do Douro - e ao contrário, do
que nós gostamos miticamente de assumir - não era Lusitânia. Nunca
foi". António Amorim avança agora para o painel seguinte: "Colocados
estes problemas, chateio as pessoas com a genética". E, apontando
para o outro canto da sala, criado com a colaboração do Museu da
História Natural da Faculdade de Ciências, mostra o espaço de
vestígios materiais. "São peças arqueológicas, que ilustram os
grandes períodos que marcaram o formato genético. Paleolítico,
Neolítico, Períodos dos Metais e o Período Romano". O resto
é História.
___________________
Características Genéticas em Portugal e na Galiza
Linhagens maternas
- Ausência de claros gradientes geográficos. Maior mobilidade
feminina.
- Presença de sequências subsarianas. Indício da influência genética
da escravatura negra por via feminina.
- Sequências norte-africanas apenas presentes no Norte de Portugal e
na Galiza (em contradição com os registos históricos sobre a
importância da presença islâmica, maior a Sul que a Norte).
Linhagens masculinas
- Ausência de cromossomas Y subsarianos. A influência genética da
escravatura negra não foi mediada por via masculina.
- Gradiente Sul-Norte de cromossomas Y norte-africanos (de acordo com
os registos históricos sobre a importância da presença islâmica).
_________________
Texto enviado ao grupo "Mozarabismo-al-Andalus" em 30/11/03
Fonte:Estudo Genético Confirma e Desafia a História
Por Andrea Cunha Freitas
Jornal: PÚBLICO - Lisboa, Portugal
Domingo, 18 de Março de 2001
Uma investigação na área da "arqueogenética" mostra as afinidades
entre o Norte de Portugal e a Galiza e as diferenças entre linhagens
femininas e masculinas.
Os filhos de escravas negras eram "tolerados" em Portugal. Já os dos
escravos não. Nas linhagens masculinas, a presença islâmica em
Portugal e na Galiza bate certo com a História. Nas maternas não.
Estes serão alguns dos resultados do estudo intitulado "Genética
Populacional do Noroeste Peninsular", desenvolvido pelo Instituto de
Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (Ipatimup),
em colaboração com outras entidades.
Há mapas nos vários cantos da sala no edifício da Alfândega, no Porto.
De um lado, os painéis explicativos de um estudo genético. Do outro,
alguns exemplares de vestígios desenterrados, protegidos atrás de
montras de vidro. Ali, uniu-se a história à ciência, o chão ao corpo.
Tudo se passa no território da "arqueogenética". "Não tenho certeza
se é um termo que eu inventei, mas significa que, tal como a
arqueologia vem pescar histórias através de vestígios materiais do
passado, também nós,através da genética, queremos desenterrar esses
passados, pesquisando nos nossos genomas", explicou ao PÚBLICO
António Amorim, responsável pelo estudo.
As novas tecnologias permitiram que se inventasse a palavra. Porque
hoje é possível "escavar" melhor na nossa história genética. Segundo
refere o responsável do Ipatimup, os resultados mais recentes deste
estudo,iniciado há cerca de cinco anos, têm como suporte, por um
lado, "a descoberta de marcadores que se transmitem só por linha
paterna ou só por linha materna" e, por outro, "com a vulgarização
das técnicas de acesso a esses marcadores".
Ou seja, a procura dos "sinais" que existem em nós faz-se nesta
investigação através do que permanece intacto na transmissão genética
entre gerações. "Há transmissão intacta do cromossoma Y no caso
masculino (de pais para filhos e não filhas) ou do DNA mitocondrial,
no caso feminino (de mães para filhos e filhas)", explica António
Amorim. Desta forma, através dos marcadores encontrados no cromossoma
Y ou no DNA mitocondrial, é possível fazer a traçagem das linhagens
masculina e feminina.
A pesquisa incide sobre o noroeste peninsular, reforçando-se a
amostragem a Norte do Douro, até porque a única linha que separa a
Galiza do Norte de Portugal parece ser a "recente" separação
política. O estudo mostra o reflexo nos nossos genes de uma evidência
conhecida: a de que, geográfica e historicamente, o Norte de Portugal
e a Galiza têm diferenças praticamente nulas.
Mas, o mais interessante surge no que é diferente. "As conclusões mais
engraçadas serão aquelas que têm a ver com linhagens que nós
conseguimos associar a geografias bem distintas das nossas", adianta
o investigador, que cita como exemplo o caso da África subsariana,
com populações bastante diferentes dos europeus. Assim, estas
linhagens subsarianas existem em Portugal só por via feminina, não
estão estruturadas geograficamente e são todas diferentes (o que quer
dizer que não houve uma linhagem fundadora). "O que dá a ideia de que
essas linhagens foram pescadas de uma população grande e já
diversificada. A explicação mais plausível é que representem
vestígios de reprodução com as antigas escravas africanas", diz,
avançando com a questão: "Então espera-se que do lado masculino
exista a mesma coisa?". A resposta é não. Não existem linhagens
subsarianas masculinas em Portugal. E, em "traços caricaturais",
interpreta-se: "Aquilo que permitiu às escravas reproduzir-se não foi
tão brando em relação aos escravos. Isto é, os filhos de escravas
eram tolerados e os filhos de escravos não".
Por outro lado, recordando o "romance histórico" decorrido quando
Portugal esteve sob a administração islâmica, sublinha-se que "nunca
houve domínio permanente a Norte do Douro". Um cenário que poderia
fazer prever um gradiente claro dessa influência. "Com marcadores
norte-africanos podíamos ver essa influência de Norte para Sul",
afirma António Amorim. Uma teoria que se confirma nos gráficos
marcados no mapa no que se refere às linhagens masculinas. No
entanto, quando a procura destes "sinais" se faz nas linhagens
femininas deparamos com uma presença importante no Norte de
Portugal. "Aqui, a explicação é mais difícil. Os historiadores vão
ter de matutar um pouco nisso. A minha hipótese é que tenha
acontecido algo de parecido com o que sucedeu no período da
escravatura negra, ou seja, possibilidade de reproduções
assimétricas, de acordo com o sexo".
O investigador não consegue esconder o fascínio com o projecto, mas,
acima de tudo, confessa: "O que eu acho mais fascinante é estar a
partilhar isso".
______________
Resultados Alargam-se ao Campo da Medicina
O estudo "Genética Populacional do Noroeste Peninsular" demonstrou que
um gene intermediário, causador de uma determinada doença, tem uma
frequência em Portugal que é quase cinco vezes superior à média
europeia. O investigador António Amorim transporta-nos para o mundo da
medicina e da deficiência Alfa 1-Antitripsina. Na sua forma mais
grave, que afecta um em cada dez mil indivíduos, esta deficiência
ataca os pulmões e causa problemas hepáticos, entre outros danos.
Mas, além deste gene quase restrito a populações de origem europeia,
existe um que causa uma deficiência intermediária, menos grave,
segundo António Amorim. E a incidência desta forma da deficiência é
cinco vezes maior do que a média europeia. "Estas pessoas vão ter uma
esperança de vida reduzida,situação que pode ser melhorada se
tivermos a prevenção de os afastarmos de factores de risco [tal como
fumar ou ambientes poluídos]", diz António Amorim. "É urgente fazer
um rastreio nacional disto", considera, adiantado que existem
técnicas já montadas para um diagnóstico fácil.
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Exposição Mostra Vestígios no Corpo e no Chão
Primeiro que tudo, um aviso: "Todos estes nomes, a Galiza, Portugal, o
centro, o norte e o sul, são transitórios, histórica e geograficamente
muito frágeis". Depois, um alerta: "Não existe possibilidade de
interpretação absoluta, nem a genética nem a história são capazes de
dar todas as explicações". E, agora sim, é permitido entrar na
exposição Genética Populacional do Noroeste Peninsular, patente desde
anteontem no edifício da Alfândega, no Porto. A mostra foi organizada
pelo Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do
Porto, no âmbito do programa "Os outros em eu", integrado nas acções
da Sociedade Porto 2001.
No início, o contacto faz-se com as afinidades geográficas entre o
Norte de Portugal e a Galiza, nomeadamente a orografia, o clima, a
flora e a fauna. Logo a seguir, segue-se a História. "Só
politicamente é que estas duas regiões viveram separadas.
Nomeadamente, na época romana, a norte do Douro - e ao contrário, do
que nós gostamos miticamente de assumir - não era Lusitânia. Nunca
foi". António Amorim avança agora para o painel seguinte: "Colocados
estes problemas, chateio as pessoas com a genética". E, apontando
para o outro canto da sala, criado com a colaboração do Museu da
História Natural da Faculdade de Ciências, mostra o espaço de
vestígios materiais. "São peças arqueológicas, que ilustram os
grandes períodos que marcaram o formato genético. Paleolítico,
Neolítico, Períodos dos Metais e o Período Romano". O resto
é História.
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Características Genéticas em Portugal e na Galiza
Linhagens maternas
- Ausência de claros gradientes geográficos. Maior mobilidade
feminina.
- Presença de sequências subsarianas. Indício da influência genética
da escravatura negra por via feminina.
- Sequências norte-africanas apenas presentes no Norte de Portugal e
na Galiza (em contradição com os registos históricos sobre a
importância da presença islâmica, maior a Sul que a Norte).
Linhagens masculinas
- Ausência de cromossomas Y subsarianos. A influência genética da
escravatura negra não foi mediada por via masculina.
- Gradiente Sul-Norte de cromossomas Y norte-africanos (de acordo com
os registos históricos sobre a importância da presença islâmica).
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Texto enviado ao grupo "Mozarabismo-al-Andalus" em 30/11/03