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Murid
02-11-2003, 22:25
Portugal - Ecos de um Passado Árabe
Autor: Adalberto Alves


Islão, Cultura Portuguesa e Sentido Ecuménico

Variadíssimas razões existem para que a realidade islâmica
não devesse escapar ao interesse de quem pretenda fazer uma
abordagem humanística do mundo contemporâneo.
O ecumenismo hoje, apesar de todos os dramas que ainda
afligem o homem, vai-se lentamente afirmando nas consciências
como expressão de um pressentido denominador
comum de todas as religiões.
Tal ecumenismo deve ir mais longe, e tender a expressarse
através da fraternidade entre os seres e as nações.
Só o reforço dessa solidariedade essencial, em todos os
aspectos e momentos da vida quotidiana, poderá libertar o
homem dos perigos que o ameaçam: o pesadelo da guerra, o
espectro da fome endémica em tantas regiões do globo,
perante a nossa indiferença, e a destruição da natureza.
Ora o ecumenismo, se assumido com os olhos do coração
e do intelecto, deverá impelir-nos fatalmente ao
conhecimento do outro, entendido este como pessoa, religião,
cultura ou civilização. Isto pela simples razão de que, utilizando
o sentido bíblico, conhecer é amar. Hostilizamos e
tememos, na verdade, apenas aquilo que, de todo,
desconhecemos.
Eis porque o homem de hoje, qualquer que seja a sua
nacionalidade, filosofia ou religião, terá do mundo uma visão
fragmentária e incompleta se não conhecer, ao menos
sumariamente, as grandes linhas de força do mundo islâmico:
o Alcorão é, para dezenas de países e milhões de seres,
código espiritual e ético e base fundadora das respectivas
sociedades.
Mas esse imperativo de conhecer é tanto mais forte
quanto é certo que talvez nenhuma revelação metafísica
tenha sido mais incompreendida, distorcida e ignorada que o
Islão. O comum dos ocidentais, ainda hoje, tomando o todo
pela parte, figura-o em conceitos mal avaliados como, por
exemplo a jihad, que habitualmente se traduz equivocamente
"por guerra santa". Essa visão preconceituosa, a que não são
alheias mistificações históricas e religiosas, levadas a cabo
através dos tempos por espíritos perturbados, foi e é causa de
imensos ódios e inúmeros sofrimentos.
Ora o Islão, na sua intemporalidade e também na sua
modernidade, é um credo fraterno. O seu conceito de Ahl al-
Kitab, abraçando os povos das religiões reveladas como
irmandade de todo o ser humano na entrega a Deus, bem
como a altura metafísica da vertente mística sufi, são expressão
do mais explícito ecumenismo.
O Islão não pode ser caracterizado pelo fanatismo oportunista
de alguns, tal como o cristianismo não se revela nas
fogueiras da Inquisição.
Voltando à jihad, que etimologicamente se radica no
conceito de "esforço", uma tradição (hadith) do Profeta, que
regressava de uma campanha contra inimigos exteriores, distingue
entre a "grande guerra" e a "pequena guerra" privilegiando
a primeira, enquanto luta que o homem trava contra as
paixões vis da alma, em direcção ao Criador.
Diz ela: "Rajana min al-Jihadi-l-Asghar ila-l-Jihadi-l-
Akbar", ou seja, "voltamos da pequena guerra para a maior
das guerras".
O Islão não pode, pois seria um terrível erro fazê-lo, ser
responsabilizado pelos trágicos acidentes, filhos do desespero
e da injustiça, que ocorrem no Mundo Árabe e que enlutam
as nossa consciências. Pelo contrário, através da observância
do seu código ético, com o afastamento de influências malsãs
que interferem na região e fomentam divisões para mais
facilmente reinarem, a Umma (comunidade dos crentes)
saberia por certo encontrar o caminho que conduz aos oásis
da paz.
Que os cristãos possam visualizar o Islão como a religião
onde Jesus e Maria são venerados como símbolos do amor!
Todavia, Portugal, se todas as considerações de ordem geral
expostas não fossem já suficientes, tem razões adicionais para
olhar com especial interesse para o mundo Árabe-Islâmico. É
que, ao fazê-lo, olha para si próprio. O povo, na sua
autenticidade, não esqueceu a herança árabe e o seu
imaginário, de que as lendas são o melhor repositório.
Continuou a perpetuar, de pais para filhos, as histórias árabes
que perduram ainda entre nós, através da tradição.
Todavia, e lamentavelmente, continua por fazer o balanço
etnográfico e cultural da presença árabe-berbere e islâmica no
nosso país.
O que já foi feito mal mostra a ponta do iceberg. Tem sido
trabalho árduo, desacompanhado de apoios e estruturas, de
poucos e abnegados investigadores.
A mera avaliação dos sinais dessa presença, em face de
ideias estafadas e de há séculos repetidas, minimizando o
impacto islâmico, é no mínimo perturbadora.
Discorrendo ao acaso, evidenciar-se-á:
- Uma Ancestralidade semítica e berbere. Esta remonta a
tempos pré-históricos e aquela provém da remota presença
fenícia e cartaginesa que a pesquisa arqueológica e a análise
de estruturas antropológicas não cessam de pôr em evidência.
- No campo da Música e da Dança, importa sublinhar
que, na sequência da riquíssima especulação teórica muçulmana
e das inovações introduzidas no Al-Andalus pelo
iraquiano Ziryab, mouros e mouras asseguraram, antes e após
a conquista cristã, a música profissional, animando festas
populares e esponsais de príncipes, como numerosos
documentos coevos nos mostram. Por outro lado, grande
parte dos instrumentos que usamos, como o violino, a
guitarra, o alaúde, a gaita ou o adufe derivam directamente de
instrumentos árabes.
Ainda hoje a mourisca, dança que o povo baila em festas
aldeãs, é eco bem vivo desses tempos longínquos.
- No que respeita à Literatura, pode-se discutir qual o grau
de impacto árabe na nossa poesia trovadoresca, mas que uma
influência existiu é dado absolutamente assente. Tal resulta,
por exemplo, da simples comparação estrutural entre certas
cantigas galaico-portuguesas e o cancioneiro de Ibn Quzman.
A própria terminologia empregada, p.ex., as figuras do habib
(amigo) ou do raqîb (vigilante) sugerem essa convergência.
- No Direito, institutos como o da terça, e as designações
e estruturas dos cargos administrativos revelam também as
marcas de intercultura.
- Na Alimentação, basta compararem-se as descrições das
iguarias constantes dos manuais andalusinos com as receitas
da Idade Média, muitas das quais chegaram intactas ao cardápio
actual da cozinha tradicional portuguesa, para nos convencermos
de quanto os nossos hábitos de mesa são tributários
da civilização islâmica. Já Fialho de Almeida chamava,
em Os Gatos, a atenção, para tal facto.
- No Vestuário, desde os mestres do ofício, algibebes e
alfaiates, à designação de partes do traje, como a algibeira,
tudo inculca em nosso espírito um decisivo contributo. A
influência mourisca, tão marcada em toda a Idade Média, é
ainda visível nas modas da Renascença e só vem a ser
obliterada, já em tempos modernos, por influência do norte
da Europa, sobretudo da França;
- Na Arquitectura e Urbanismo destaquem-se as técnicas
de construção militar e as da taipa e do adobe, sendo estas
agora objecto de um novo interesse dos arquitectos, com o
renascimento das construções em terra.
E não esqueçamos o Mudéjar Alentejano tal como o
mudejarismo subjacente ao Manuelino e pormenores arqui-
tectónicos, como sejam o geometrismo ornamental dos
esgrafitos nas fachadas alentejanas e algarvias, as adufas ou
muxarabias, as açoteias, o cubismo e volumetria das casas, as
chaminés algarvias, as chaminés alentejanas, cilíndricas e de
escuta, e as cubas ou abóbodas vindas do morábito. O
próprio tipo do monte alentejano conserva muitos aspectos
próprios da casa berbere. Refira-se, finalmente, a disposição
tradicional dos povoados do interior, com o núcleo urbano
correspondente à medina, cercado de arrabaldes suburbanos,
quintas e hortas.
- Quanto à nossa Agricultura, sublinhe-se que ela pôde
conservar-se até aos nossos dias mantendo os velhos métodos
árabes de cultivo e de regadio. As espécies hortofrutícolas
são quase as mesmas que o Al-Andalus conheceu e
introduziu e a que se vieram somar as contribuições
posteriores dos Descobrimentos.
- O rico Artesanato português, da olaria aos cobres e latões,
da cestaria aos vimes, das esteiras à técnica dos tapetes
de Arraiolos, do trabalho dos couros e encadernações às
filigranas, sem esquecer o mobiliário pintado do Alentejo,
muito deve aos filhos do Crescente que, antes e depois, da
conquista cristã se notabilizaram nesses domínios.
- Nas Tradições avultam histórias de mouras e mouros
encantados. De tal maneira tais lendas encontram eco no
povo, que este continua, sistematicamente, a atribuir a
quaisquer ruínas, grutas ou lugares misteriosos, ou seja, a
quanto lhe fale à imaginação, uma origem árabe.
- Muito haveria ainda a dizer sobre a influência da Ciência
e do Pensamento Islâmico na génese do saber português.
O próprio universo filosófico e poético de Camões,
enquanto cultor do renascentista dolce stil nuovo, é subsidiário
das criações islâmicas e descende da poesia provençal, à
semelhança do que aconteceu com Dante, conforme
demonstrou magistralmente Asin Palácios. O episódio da
"Ilha dos Amores", dos Lusíadas, por exemplo, é bebido em
fonte árabe.
Entre muitos outros aspectos, referirei o fundamental impacto
da civilização islâmica no português através do veículo
cultural, da língua árabe.
Alguma e valiosa prospecção já foi feita, a nível etimológico,
por especialistas portugueses. E aqui as palavras
portuguesas de origem árabe parecem exceder, em muito, o
milheiro pretendido por Carolina de Michaelis, o que, só por
si, é suficientemente eloquente.
Todavia, uma outra exploração tem de ser feita, não
apenas do ângulo da análise estática mas também do da
dinâmica da língua. Por exemplo, no modo de formação de
certos sintagmas, o português não encontra paralelo em
nenhum outro idioma a não ser no castelhano e no árabe.
Também uma carta completa da toponímia e
antroponímia de origem árabe se encontra por fazer. Um tal
levantamento, para além de outras preciosas revelações
marginais, permitirá uma extrapolação sobre a densidade e
distribuição do povoamento muçulmano que, com o
correspondente tratamento estatístico, trará certamente
surpresas, sobretudo quanto ao norte de Portugal.
Analisar, pois, os trajectos de Portugal, ou da Espanha,
sem neles ver a "monumental pegada do Islão" que refere Borges
Coelho é querer falsificar o presente mediante o olvido do
passado.
A visão eurocentrista da história levou o Ocidente a classificar
de Renascença aquilo que, afinal, não foi mais do que a
continuação do antecipado renascimento que o Islão tinha
realizado em plena Idade Média, com as decisivas contribuições
europeias do Al-Andalus e da Sicília. Assim se filtrou
na retorta árabe, o legado do Oriente e também o grecoromano.