Taliba
10-05-2006, 07:05
Além dos homens-bomba
Atualmente, graças a retórica belicista de alguns líderes públicos, é praticamente impossível evitar a politização de qualquer percepção que se venha a ter dos problemas no Oriente Médio. Edward Said, em seu livro Orientalismo, já identificava três causas que impediam uma abordagem isenta dos assuntos relacionados ao mundo árabe e islâmico: a história do preconceito popular anti-árabe e anti-islâmico no Ocidente; a luta entre árabes e o sionismo israelense; a falta de aberturas na cultura ocidental à aceitação e à compreensão do outro. Isso e mais o proverbial desinteresse da mídia em ir além do factual, tornaram possível as representações atuais, no imaginário popular, de que todo palestino é um homem-bomba, todo muçulmano é um fanático, todo árabe é primitivo, violento e anti-semita.
Mourid Barghouti, poeta palestino, é necessariamente político em sua poesia - praticamente desconhecida no Brasil - e no livro de memórias Eu vi Ramallah (208 páginas. R$ 28,00), escrito em 1997, mas só lançado aqui no mês passado pela Casa da Palavra. Nascido na pequena aldeia de Dier-Ghassana, apenas quatro anos antes da implantação do estado de Israel, Mourid Barghouti vivenciou na infância e na adolescência a violência com que os palestinos foram expropriados e expulsos de suas casas e terras pelos judeus sionistas que criavam um novo estado. Em junho de 1967, enquando se formava na Universidade do Cairo, testemunhou a ocupação da Cisjordânia e de Gaza, iniciando ao mesmo tempo a idade adulta e um exílio que se prolongaria por 30 anos. Três décadas, nas quais ele militou como representante da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), escreveu poesia e passou mais da metade do tempo (17 anos) longe da mulher egipcia e do filho do casal. Mourid Barghouti não tem razões para não ser político, mas sabe evitar as abstrações e os viés ideológicos que poderiam deturpar a qualidade literária da sua obra, como bem atesta o já citado Edward Said em prefácio para a edição inglesa do livro, mantida na edição em português.
Não há nada de abstrato no livro de Mourid. O ponto de partida para a narrativa é um fato concreto: a autorização para o autor voltar à cidade de Ramallah, em junho de 1997, uma das consequências dos entendimentos entre a OLP de Yasser Arafat e o governo israelense que culminaram, depois, no estabelecimento da Autoridade Nacional Palestina em bolsões territoriais isolados de Gaza e na Cisjordania. O reencontro com a terra que não via há 30 anos se desdobra em lembranças: do irmão, do pai, de intelectuais e artistas palestinos - todos falecidos; do filho e da mulher; de pessoas comuns, com as quais cruzou em sua vida de expatriado... Cada fragmento da memória leva a dura certeza de que a condição do exilado é impossível de ser remediada, mesmo pelo retorno. "O exilado é igual ao asmático. Ambos não se restabelecem".
A crueza com que Mourid encara a realidade palestina e de todos os despatriados não retira do livro a possibilidade de momentos poéticos, nem faz de Eu vi Ramallah apenas mais um livro sobre a dor e a injustiça do exílio. Há uma grande diferença. A política é apenas o fundo sobre o qual se destacam os aspectos humanos dos personagens. Mourid torna evidente que - longe da desumanização promovida pela mídia, que os retrata ora como "vítimas", ora como "terroristas" - os palestinos são um povo como tantos outros (apesar de terem o direito a esse estatuto político negado há 58 anos pelas leis do estado israelense). Têm sonhos, alegrias e tristezas e, por isso, há muitas razões para entendê-los.
Atualmente, graças a retórica belicista de alguns líderes públicos, é praticamente impossível evitar a politização de qualquer percepção que se venha a ter dos problemas no Oriente Médio. Edward Said, em seu livro Orientalismo, já identificava três causas que impediam uma abordagem isenta dos assuntos relacionados ao mundo árabe e islâmico: a história do preconceito popular anti-árabe e anti-islâmico no Ocidente; a luta entre árabes e o sionismo israelense; a falta de aberturas na cultura ocidental à aceitação e à compreensão do outro. Isso e mais o proverbial desinteresse da mídia em ir além do factual, tornaram possível as representações atuais, no imaginário popular, de que todo palestino é um homem-bomba, todo muçulmano é um fanático, todo árabe é primitivo, violento e anti-semita.
Mourid Barghouti, poeta palestino, é necessariamente político em sua poesia - praticamente desconhecida no Brasil - e no livro de memórias Eu vi Ramallah (208 páginas. R$ 28,00), escrito em 1997, mas só lançado aqui no mês passado pela Casa da Palavra. Nascido na pequena aldeia de Dier-Ghassana, apenas quatro anos antes da implantação do estado de Israel, Mourid Barghouti vivenciou na infância e na adolescência a violência com que os palestinos foram expropriados e expulsos de suas casas e terras pelos judeus sionistas que criavam um novo estado. Em junho de 1967, enquando se formava na Universidade do Cairo, testemunhou a ocupação da Cisjordânia e de Gaza, iniciando ao mesmo tempo a idade adulta e um exílio que se prolongaria por 30 anos. Três décadas, nas quais ele militou como representante da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), escreveu poesia e passou mais da metade do tempo (17 anos) longe da mulher egipcia e do filho do casal. Mourid Barghouti não tem razões para não ser político, mas sabe evitar as abstrações e os viés ideológicos que poderiam deturpar a qualidade literária da sua obra, como bem atesta o já citado Edward Said em prefácio para a edição inglesa do livro, mantida na edição em português.
Não há nada de abstrato no livro de Mourid. O ponto de partida para a narrativa é um fato concreto: a autorização para o autor voltar à cidade de Ramallah, em junho de 1997, uma das consequências dos entendimentos entre a OLP de Yasser Arafat e o governo israelense que culminaram, depois, no estabelecimento da Autoridade Nacional Palestina em bolsões territoriais isolados de Gaza e na Cisjordania. O reencontro com a terra que não via há 30 anos se desdobra em lembranças: do irmão, do pai, de intelectuais e artistas palestinos - todos falecidos; do filho e da mulher; de pessoas comuns, com as quais cruzou em sua vida de expatriado... Cada fragmento da memória leva a dura certeza de que a condição do exilado é impossível de ser remediada, mesmo pelo retorno. "O exilado é igual ao asmático. Ambos não se restabelecem".
A crueza com que Mourid encara a realidade palestina e de todos os despatriados não retira do livro a possibilidade de momentos poéticos, nem faz de Eu vi Ramallah apenas mais um livro sobre a dor e a injustiça do exílio. Há uma grande diferença. A política é apenas o fundo sobre o qual se destacam os aspectos humanos dos personagens. Mourid torna evidente que - longe da desumanização promovida pela mídia, que os retrata ora como "vítimas", ora como "terroristas" - os palestinos são um povo como tantos outros (apesar de terem o direito a esse estatuto político negado há 58 anos pelas leis do estado israelense). Têm sonhos, alegrias e tristezas e, por isso, há muitas razões para entendê-los.