Anonymous
01-10-2003, 18:49
IRAQUE- UM POVO MARTIRIZADO
O estudo de certos indicadores de saúde permite avaliar o bem estar de uma população de uma forma muito segura. No que respeita ao Iraque o estudo comparativo destes em três momentos chave pode dar uma ideia das condições de vida da população iraquiana desde a primeira guerra do golfo em 1990.
Escolheram-se dados relativos a 1989, dando conta da situação sanitária do país antes da Guerra do Golfo, a 1996 o ano anterior ao lançamento do programa ?Petróleo por Alimentos? e a 2001 que ilustram a situação prévia à Guerra desencadeada em Março deste ano.
Antes de Agosto de 1990, o sistema de saúde do Iraque assentava numa rede de cuidados de saúde que cobria 97% da população urbana e 79% da população rural. Segundo a OMS existiriam 135 hospitais gerais, 1055 centros de saúde e 52 centro especializados. Embora o sistema funcionasse priveligiando os cuidados curativos um programa de saúde pública assegurava o controle de doenças como a malária, a tuberculose e promovia a vacinação contra as doenças evitáveis.
Estas situação alterou-se drásticamente depois de 1990. Os anos mais dificeis foram os da primeira metade da década de 90 mercê do duro embargo então imposto e cujas mais gravosas consequências recairam sobre a população. Com o inicio do programa ?Petróleo por Alimentos? em 1997 a situação melhorou um pouco se bem que não se voltasse mais a atingir o nivel sanitário que existia antes da guerra.
A taxa de mortalidade infantil um bom indicador da situação de desenvolvimento sócio-económico de um pais não deixa dúvidas sobre o retrocesso verificado. Em 2001 situava-se em 107 º/00 mais do dobro da verificada em 1989. Em termos comparativos basta pensar que em Portugal a taxa de mortalidade infantil foi em 2001 de 5,6 º/00. Se considerarmos o grupo etário dos menores de 5 anos a situação piora ainda com valores duas vezes e meia acima dos verificados antes da primeira Guerra do Golfo.
A OMS estima que entre 1990 e 1997, os anos mais duros do pós-guerra para o povo iraquiano, apenas 10 a 15% das necessidades de saúde da população foram cobertas pelo orçamento de estado, que se contraiu então drásticamente.
Um dos sectores mais afectados pelo corte de recursos depois da guerra foi o do tratamento de águas. O acesso à água potável sofreu, sobretudo nas áreas rurais, um decréscimo brutal passando dos 75% antes da guerra para 44%. Muita da água utilizada pela população passou a ser retirada directamente dos rios e utilizada sem qualquer tratamento. Como resultado verificou-se um aumento brutal das doenças transmitidas pela água como sejam a disenteria, as hepatites virais e as gastroenterites. Em 1997 os sistemas de tratamento de água estavam a trabalhar ainda apenas a 40% das suas capacidades.
Em 1997 apenas um quarto do equipamento médico existente no Iraque estaria funcional. As carências de toda a ordem nomeadamente de antibióticos de primeira linha e outros medicamentos essenciais, aliada à enorme carência de meios auxiliares de diagnóstico, como reagentes quimicos para análises, e de equipamento cirúrgico está patente quando se comparam os números relativos às grandes cirúrgias e à actividade dos laboratórios nestes periodos.
A situação também melhorou neste campo de actividades com a chegada do programa ?Petróleo por Alimentos?, mas com se pode observar pela leitura do quadro acima, os niveis de antes da guerra não voltaram a ser atingidos. O mesmo se pode dizer dos programas de medicina preventiva, que tiveram também uma melhoria significativa, mas que não foi suficiente para evitar graves epidemias como a de poliomielite ocorrida em 2001.
Devido à carência de recursos, estes programas de vacinação sofreram um forte impacto após o começo do embargo, deixando de abranger um grande número de crianças. Deste abrandamento resultou o crescimento de algumas destas doenças evitáveis, por queda da imunidade de grupo. A OMS consciente desta enorme falha, após a epidemia de poliomielite registada em 2001, desenvolveu uma campanha de vacinação em massa contra esta doença.
A evolução dos números relativos à tuberculose, doença muito associada à pobreza e a evolução verificada nos casos registados de malnutrição por carências proteicas e vitaminicas ou no número de crianças com baixo peso à nascença, não deixa lugar a dúvidas sobre as dificuldades que atingiram na última decada a população iraquiana.
A chegada de antibióticos e medicamentos essenciais como por exemplo os usados no tratamento do cancro continuou a ser muito irregular mesmo após 1997. Segundo dados da UNICEF 1 em cada 8 crianças morre antes de atingir os cinco anos de idade. Um terço sofre de malnutrição e apenas um quarto tem acesso a àgua potável. As doenças das vias respiratórias e as transmitidas pela água, de fácil tratamento com os meios adequados hoje disponiveis, continuaram a ser as grandes responsáveis pela elevada mortalidade nos segmentos mais jovens da população.
Depois da intervenção militar de Março deste ano todo este trágico cenário ter-se-á agravado de uma forma que não é possivel avaliar por enquanto com detalhe. No entanto foram já relatados surtos de gastroenterite e casos de cólera (Bashra) decorrentes da quase total destruição da rede de abastecimento de águas.
A enorme quantidade de bombas não explodidas dispersas por áreas urbanas e rurais tem afectado principalmente crianças que a todo o momento chegam às urgências dos hospitais mutiladas, conforme referem os comunicados das organizações humanitárias já presentes no terreno.
Com a rede de comunicações destruída e sem abastecimento de energia eléctrica e água potável, a maioria dos hospitais continuam paralisados ou atendem apenas urgências. Nesta situação de caos instalado, é possivel que se assista ao desenvolvimento de surtos epidémicos graves nos próximos tempos.
O sofrimento das populações de que apenas os relatórios de organizações como a OMS ou a UNICEF vão dando conta é seguramente muito grande.
Com uma enorme população de jovens e crianças, mais de metade da população do Iraque é constituída por individuos com menos de 15 anos de idade, é o futuro do país que se encontra irremediavelmente afectado. A longo prazo, as cicatrizes deixadas pelas guerras, embargos e agressões, de que estão a ser vitimas desde há mais de uma década, não deixarão de se fazer notar.
Publicado no Jornal A Batalha nº 199
O estudo de certos indicadores de saúde permite avaliar o bem estar de uma população de uma forma muito segura. No que respeita ao Iraque o estudo comparativo destes em três momentos chave pode dar uma ideia das condições de vida da população iraquiana desde a primeira guerra do golfo em 1990.
Escolheram-se dados relativos a 1989, dando conta da situação sanitária do país antes da Guerra do Golfo, a 1996 o ano anterior ao lançamento do programa ?Petróleo por Alimentos? e a 2001 que ilustram a situação prévia à Guerra desencadeada em Março deste ano.
Antes de Agosto de 1990, o sistema de saúde do Iraque assentava numa rede de cuidados de saúde que cobria 97% da população urbana e 79% da população rural. Segundo a OMS existiriam 135 hospitais gerais, 1055 centros de saúde e 52 centro especializados. Embora o sistema funcionasse priveligiando os cuidados curativos um programa de saúde pública assegurava o controle de doenças como a malária, a tuberculose e promovia a vacinação contra as doenças evitáveis.
Estas situação alterou-se drásticamente depois de 1990. Os anos mais dificeis foram os da primeira metade da década de 90 mercê do duro embargo então imposto e cujas mais gravosas consequências recairam sobre a população. Com o inicio do programa ?Petróleo por Alimentos? em 1997 a situação melhorou um pouco se bem que não se voltasse mais a atingir o nivel sanitário que existia antes da guerra.
A taxa de mortalidade infantil um bom indicador da situação de desenvolvimento sócio-económico de um pais não deixa dúvidas sobre o retrocesso verificado. Em 2001 situava-se em 107 º/00 mais do dobro da verificada em 1989. Em termos comparativos basta pensar que em Portugal a taxa de mortalidade infantil foi em 2001 de 5,6 º/00. Se considerarmos o grupo etário dos menores de 5 anos a situação piora ainda com valores duas vezes e meia acima dos verificados antes da primeira Guerra do Golfo.
A OMS estima que entre 1990 e 1997, os anos mais duros do pós-guerra para o povo iraquiano, apenas 10 a 15% das necessidades de saúde da população foram cobertas pelo orçamento de estado, que se contraiu então drásticamente.
Um dos sectores mais afectados pelo corte de recursos depois da guerra foi o do tratamento de águas. O acesso à água potável sofreu, sobretudo nas áreas rurais, um decréscimo brutal passando dos 75% antes da guerra para 44%. Muita da água utilizada pela população passou a ser retirada directamente dos rios e utilizada sem qualquer tratamento. Como resultado verificou-se um aumento brutal das doenças transmitidas pela água como sejam a disenteria, as hepatites virais e as gastroenterites. Em 1997 os sistemas de tratamento de água estavam a trabalhar ainda apenas a 40% das suas capacidades.
Em 1997 apenas um quarto do equipamento médico existente no Iraque estaria funcional. As carências de toda a ordem nomeadamente de antibióticos de primeira linha e outros medicamentos essenciais, aliada à enorme carência de meios auxiliares de diagnóstico, como reagentes quimicos para análises, e de equipamento cirúrgico está patente quando se comparam os números relativos às grandes cirúrgias e à actividade dos laboratórios nestes periodos.
A situação também melhorou neste campo de actividades com a chegada do programa ?Petróleo por Alimentos?, mas com se pode observar pela leitura do quadro acima, os niveis de antes da guerra não voltaram a ser atingidos. O mesmo se pode dizer dos programas de medicina preventiva, que tiveram também uma melhoria significativa, mas que não foi suficiente para evitar graves epidemias como a de poliomielite ocorrida em 2001.
Devido à carência de recursos, estes programas de vacinação sofreram um forte impacto após o começo do embargo, deixando de abranger um grande número de crianças. Deste abrandamento resultou o crescimento de algumas destas doenças evitáveis, por queda da imunidade de grupo. A OMS consciente desta enorme falha, após a epidemia de poliomielite registada em 2001, desenvolveu uma campanha de vacinação em massa contra esta doença.
A evolução dos números relativos à tuberculose, doença muito associada à pobreza e a evolução verificada nos casos registados de malnutrição por carências proteicas e vitaminicas ou no número de crianças com baixo peso à nascença, não deixa lugar a dúvidas sobre as dificuldades que atingiram na última decada a população iraquiana.
A chegada de antibióticos e medicamentos essenciais como por exemplo os usados no tratamento do cancro continuou a ser muito irregular mesmo após 1997. Segundo dados da UNICEF 1 em cada 8 crianças morre antes de atingir os cinco anos de idade. Um terço sofre de malnutrição e apenas um quarto tem acesso a àgua potável. As doenças das vias respiratórias e as transmitidas pela água, de fácil tratamento com os meios adequados hoje disponiveis, continuaram a ser as grandes responsáveis pela elevada mortalidade nos segmentos mais jovens da população.
Depois da intervenção militar de Março deste ano todo este trágico cenário ter-se-á agravado de uma forma que não é possivel avaliar por enquanto com detalhe. No entanto foram já relatados surtos de gastroenterite e casos de cólera (Bashra) decorrentes da quase total destruição da rede de abastecimento de águas.
A enorme quantidade de bombas não explodidas dispersas por áreas urbanas e rurais tem afectado principalmente crianças que a todo o momento chegam às urgências dos hospitais mutiladas, conforme referem os comunicados das organizações humanitárias já presentes no terreno.
Com a rede de comunicações destruída e sem abastecimento de energia eléctrica e água potável, a maioria dos hospitais continuam paralisados ou atendem apenas urgências. Nesta situação de caos instalado, é possivel que se assista ao desenvolvimento de surtos epidémicos graves nos próximos tempos.
O sofrimento das populações de que apenas os relatórios de organizações como a OMS ou a UNICEF vão dando conta é seguramente muito grande.
Com uma enorme população de jovens e crianças, mais de metade da população do Iraque é constituída por individuos com menos de 15 anos de idade, é o futuro do país que se encontra irremediavelmente afectado. A longo prazo, as cicatrizes deixadas pelas guerras, embargos e agressões, de que estão a ser vitimas desde há mais de uma década, não deixarão de se fazer notar.
Publicado no Jornal A Batalha nº 199